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Imagine um mundo onde transfobia, racismo e qualquer outra forma de discriminação não precisam ser superadas porque não existem mais. Um mundo onde construímos mesas maiores em vez de muros mais altos. Enquanto essa realidade não chega, podemos conhecer quem luta todo dia para estarmos um pouco mais próximos desse ideal. Como Silla Maria Filgueira. Baiana, ela nasceu em Caldas de Cipó, cidade rica pelas águas termais que vêm do subsolo da terra. Não ao acaso, seu espírito é fluido como o mar e sua espiritualidade profunda como as raízes na terra. Tudo embalado pela sensibilidade que lhe garante uma das maiores virtudes de um bom estilista: a humanidade.


Sua história com a moda começou cedo. A mais nova de três irmãos, sua família veio do agreste da Bahia para Salvador, em busca de condições melhores de vida, quando ela tinha cinco anos. Aos 13, começou a trabalhar para ajudar nas despesas da casa. Fazia decoração de festas infantis, faxina e ministrava aulas de reforço escolar. Desde criança, encontrava em suas criações uma forma de expressão.

Na escola, Silla transformava folhas de papel em suas próprias bonecas. Ficava na porta dos bares do bairro pedindo pelos rótulos das bebidas e canudos para vesti-las. ''Os palitos de fósforo eram minhas barbies'', conta, ao relembrar que não gostava no Natal porque não tinha acesso aos brinquedos que a maioria ganhava.

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Já na adolescência, começou sua transição. Não raro, foi um processo incompreendido e muito julgado por pessoas próximas, desde amigos até familiares. Cresceu com um pai preconceituoso - que teve a oportunidade de perdoar pouco tempo antes de sua morte. Foi sua avó, hoje com 104 anos, a primeira pessoa da família que a aceitou e começou a chamá-la pelo pronome feminino.

''Acho que tudo na moda já foi criado. Desenvolvo coleções. É minha releitura para esse tempo e essa época.'' - Silla Maria Figueira

Silla descobriu que queria ser estilista assistindo a um programa de televisão sobre moda. ''Nasci para fazer isso'', afirma. Começou, então, a busca por honrar o desejo de trabalhar na área. Encontrou uma fábrica de roupas que atendia marcas conhecidas na cidade e foi lá, bater na porta.

Tentou uma vaga por três meses. ''Ia dia sim, dia não. Meus amigos me davam o vale transporte, mas o rapaz nunca me atendia, até que, por muita insistência, ele topou ver meus desenhos''. Silla foi contratada na hora como assistente de estilo. Permaneceu na empresa por 16 anos e leva essa experiência como uma sala de aula. Foi lá que aperfeiçoou seus conhecimentos em desenho e modelagem.

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Um dia, quando ainda trabalhava na respectiva fábrica, sonhou que deveria projetar uma coleção com um ano de antecedência. ''Sempre sonho com as roupas. Quando estou dormindo, escuto dizer o que tenho que fazer. Acordo no meio da noite, subo para o ateliê e começo a desenhar e modelar. E fica incrível'', diz ela, hoje com 40 anos.

À época, o sonho era um chamado para participar do concurso Novos Talentos Barra Fashion, evento de um shopping em Salvador. Pediu para seu chefe fazer um acordo para ser demitida e usou o dinheiro da rescisão como subsídio para comprar os tecidos e materiais necessários. Ela ganhou a competição e, como prêmio, desfilou sua coleção Entre Rosas e Espinhos no maior evento de moda da Bahia.

Foi um sucesso – e sua porta de entrada para o mercado de moda local. ''Minhas roupas iam para as boutiques de Salvador e vendiam todas. Aconteceu que, por eu ser jovem, não sabia ainda como administrar meu negócio e, por isso, tive de trabalhar de novo para outras marcas locais'', explica Silla.


Após o Novos Talentos, ela voltou para seu trabalho anterior, dessa vez assumindo a criação das peças de jeans, mantendo sua produção autoral em paralelo. Com a pandemia, porém, a fábrica fechou e ela ficou apenas como uma prestadora de serviços em domicílio. Foi um período difícil. O amparo veio com a ajuda de amigos e amigas próximas, ''verdadeiras irmãs'', acredita.

Meses após a nova demissão, ela recebeu o dinheiro da rescisão e investiu todo ele, por volta de sete mil reais, em matéria-prima para a coleção BAIANÁ, com lançamento previsto para o dia 07 de outubro. Composta de 50 looks, a linha é focada nos processos manuais, do feito à mão, e Silla diz que buscou romper o estereótipo da mulher baiana. São peças que integram o crochê, macramê e bordados de contas de cerâmica e madeira. Pequenos coqueiros aplicados, símbolo da coleção, complementam as estampas de cobra, o símbolo da marca. Ainda, todos os calçados foram desenvolvidos por artesãos da região, em couro de tilápia. As vendas acontecerão virtualmente, pelo seu perfil do Instagram.

Nessa trajetória de ressurgimento, Silla não esqueceu das outras mulheres, a maioria mães de família, que trabalharam com ela na fábrica e também ficaram desempregadas. Montou uma espécie de cooperativa para atender tanto às demandas da sua coleção como a de outras marcas locais. ''Nenhuma estilista faz moda sozinha'', diz ela. Atualmente, são duas bordadeiras, duas costureiras e uma crocheteira: Itála Pinto dos Santos, Jalana Silva de Souza, Francisca Rozania Rodrigues de Oliveira, Isabela da Silva Filgueira (irmã de Silla), Mariusa Rodrigues Silva e Silvia dos Santos Machado (foto acima). ''Falei para todas: para eu fazer meu trabalho, dependo de vocês." É uma postura um tanto rara num mercado que insiste em desvalorizar tais ofícios, mas a ela aconselha que ''as pessoas que trabalham com moda deveriam ter a consciência de valorizar a cadeia produtiva.''

Modelo: Olívia | Produção: Cássio Caiazo | Foto: BOCCIA


Apesar de ser uma estilista talentosa e criativa, não gosta de ser chamada de designer. Também afirma que não cria nada. ''Acho que tudo na moda já foi criado. Desenvolvo coleções. É minha releitura para esse tempo e essa época''. Hoje, ela diz que sua vida mudou totalmente. Se anima em saber que seu trabalho está veiculando nas revistas de moda e não esconde o entusiasmo em ser protagonista de sua própria história. Ainda em 2021 sua marca fará parte fará parte do AfroFashion Day e do projeto Nordeste-se. ''Comecei esse ano passando por dificuldade, teve dia que não tive nem o que comer. Tentei suicidio na infância e adolescência mas, graças a Deus, não fiz nada além. Passei por um casamento abusivo de sete anos e me livrei. Tudo está acontecendo porque meu Deus é maravilhoso."

E se ela tem fé? Muita. ''Acredito no meu Deus de luz, ele que me guia e move meus caminhos''. A estilista faz questão de relembrar sua mãe, Dona Isabel, que faleceu há cinco anos. "Queria que ela visse tudo o que está acontecendo hoje, mas acredito que ela está do outro lado assistindo tudo. Minha mãe foi uma guerreira que criou os três filhos sozinha.''

O recado que a estilista daria para sua eu de dez anos atrás é: não desista. ''Isso já passou pela minha cabeça durante muitos anos". Mesmo que o ideal seja que não houvessem tantos obstáculos a serem superados, compreender seu lugar no mundo também faz Silla se ver como uma sobrevivente. ''Sou uma mulher de 40 anos, trans e negra, mas a expectativa para nós é de apenas 37 anos. Muitas de nós vão para o ramo da prostituicao, porque são colocadas para fora de casa com 12, 13 anos, e o preconceito mata. Quero que outras meninas se inspirem, porque uma mulher trans pode ser o que ela quiser'', finaliza.

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