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Não é novidade que saltos altos andam em baixa durante a pandemia. Para acompanhar os longos dias em casa, chinelos e pantufas são as opções mais populares. Nas temporadas de moda também, se bem que isso já é uma tendência de longa data. Há alguns anos, os pés permanecem bem próximos do chão com modelos de sapatos alinhados ao conforto e a novas demandas da vida e das mulheres. Ou era assim até o mais recente desfile de alta-costura da Valentino, o de verão 2021. Em meio ao aumento de casos da Covid em diferentes países, o diretor de criação da marca Pierpaolo Piccioli decidiu ir contra a maré, nos lembrando que haverá vida após a pandemia e que celebrar nunca será demais.

Com o seu identificável talento para o drama, Pierpaolo, na realidade, surpreendeu ao apresentar roupas mais casuais do que a grandiosidade habitual dos desfiles de alta-costura. Em um empenho para refletir o atual momento, o diretor criativo apostou em formas essenciais e em uma cartela de cores mais seletiva, trazendo uma boa dose de realidade para a passarela sem afastar os sinais de esperança. Trench coats, coletes, calças de alfaiataria, saias mídi e até regatas formavam o guarda-roupa básico de luxo proposto pela etiqueta. Os acabamentos, claro, eram dignos das tradições de haute-couture, mas ainda assim mantinham os pés no chão, longe das fantasias muito distantes.

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Valentino.Foto: Divulgação

Os tais pés no chão, contudo, não podem ser ditos em sentido literal, afinal, se a típica grandiosidade da Valentino faltou nas roupas, foi compensada nos sapatos. Em uma passarela de mármore, as modelos caminharam lentamente usando botas metalizadas de couro enrugado, muitas vezes até o joelho e sempre com plataformas e saltos enormes. As plataformas ainda apareceram em sandálias envernizadas com tiras finas no tornozelo e também nas opções de sapatos sociais propostos para os homens.

Olhar para esses sapatos e não lembrar de Lady Gaga é uma tarefa impossível. Ao que parece, para pensar nessas plataformas monstruosas, Pierpaolo canalizou a sua Gaga interior, o que não seria tão difícil, já que o próprio é um fã assumido. "Ela é o ícone de uma geração. Sua mensagem de liberdade, paixão pela arte, autoconsciência e igualdade é a mesma que nós defendemos", afirmou o designer em comunicado divulgado quando a artista foi anunciada como rosto da fragrância Voce Viva, da Valentino, no ano passado.

Lady Gaga escolhe look preto acompanhado por uma bota de plataforma para evento de Joe Biden. Lady Gaga em evento de Joe Biden.Getty Images

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Para a atriz e cantora, uma boa plataforma é elemento obrigatório, não importa a ocasião. Lá atrás, as botas acompanhavam as suas produções inusitadas de tapete vermelho, como o memorável vestido de carne. Já hoje, fazem parte até mesmo dos seus looks cotidianos, seja para fazer compras pelas ruas de Nova York, como quando flagrada ao lado de sua mãe em setembro de 2020, ou para participar de um evento político na Pensilvânia durante a campanha de Joe Biden. Neste último, o seu visual parecia até tímido, um simples terno preto, mas para lembrar a todos que ela é Lady Gaga, a artista apostou em uma plataforma incrivelmente alta.

Gaga, temos visitas!


Se Gaga usará os sapatos propostos pela Valentino, ainda não sabemos, mas certamente já há uma outra possível interessada. Na última semana, Cardi B agitou as mídias sociais após publicar um vídeo usando uma bota que mais parecia ter saído do figurino de um filme medieval. Na realidade, o acessório foi apresentado na coleção de inverno 2021 da Balenciaga. Através de um videogame pós-apocalíptico, a marca seguiu apostando em suas modelagens oversized, alfaiataria e em uma infinidade de moletons, enquanto os pés mais pareciam com armaduras.

Foto: Divulgação

Rick Owens.


Porém, nessa história, mais importante que a Balenciaga é Rick Owens. O estilista estadunidense já tem um longo histórico de botas poderosas ao longo de sua carreira, e em sua coleção de verão 2021, as plataformas desempenharam um papel essencial para a construção da narrativa. Pensando nas ameaças sócio-políticas do mundo contemporâneo, Rick criou peças que trouxessem os poderes individuais à tona para que cada um pudesse lutar contra os mais fortes. Foi dessa forma que surgiram roupas completas, capazes de recuar as adversidades e enfrentar as paisagens infernais, e é claro que, assim, as botas ganharam plataformas, ultrapassaram os joelhos e transmitiram toda potência necessária.

Naquela mesma temporada, Paco Rabbane se destacou ao colocar em pauta a saudade das ruas. "É um guarda-roupa clássico com esteroides. Empurrei tudo de uma forma um pouco exagerada", explicou Julien Dossena, atual diretor criativo da marca, em entrevista ao WWD. Nos pés, isso se refletiu em aplicações engenhosas de metais nos saltos das botas. A Bottega Veneta também não foi pelo lugar comum e, olhando para uma série de livros fotográficos, trouxe essa força em sandálias com plataformas diferenciadas e quase esculturais.

No Brasil, um nome importante para essa história é Okoko & Abel. A marca, fundada em 2014 por Ana Sabi e Vinícius Kniphoff, ganhou os pés da Maisa na edição de dezembro da ELLE View e, em conversa com a ELLE, a dupla conta como foi o processo até chegar aqui. "Após desenvolvermos alguns modelos para um concurso em 2014, fomos convidados a participar da São Paulo Fashion Week em uma colaboração para o desfile do Lino Villaventura. Depois, fizemos mais parcerias na Casa de Criadores e então caímos na graça de algumas celebridades", relembram.

Maisa na capa de dezembro da ELLE View.Foto: Pedro Pinho

As celebridades, aliás, não são quaisquer. Além da Maisa em nossa capa, Bruna Marquezine, Anitta, Pabllo Vittar, Ludmilla e Gloria Groove são algumas das que já foram vistas usando as plataformas da marca. "O nosso foco é o sentimento atrelado às peças. É sobre a potência que cada uma carrega, a sensação que cada uma é capaz de gerar", explicam os fundadores que fazem questão de destacar que gênero não é um definidor do que a Okoko & Abel desenvolve. "A liberdade baliza todo nosso processo de criação. Ela é nossa companheira na tentativa de auxiliar as mudanças que acreditamos, principalmente, quando entendemos que a moda é uma decisão individual dentro de um cenário coletivo", concluem Ana e Vinícius.

Entre opções metalizadas, estampadas e brilhosas, as botas e sandálias da marca sempre vem acompanhadas por plataformas, e se ainda há quem acredite que esses sapatos não são tão usáveis assim, a dupla discorda: "O nosso intuito é gerar uma sensação destemida para quem calça, seja para usar em um tapete vermelho ou em uma simples ida ao mercado".


Em ensaio e entrevista para a ELLE View de dezembro, Maisa conta sobre a Mudah, sua primeira empresa, e como a sua relação com moda, internet e seu ativismo estão se desenvolvendo ao entrar na maioridade.


Depois da Givenchy virar meme, a Balenciaga foi mais longe com o seu tênis que separa cada dedo do pé, mas essa não é uma criação nova. Conheça nesta matéria a história dos Tabi Shoes, que se confunde com a história do Japão e da Maison Margiela.


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