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O Castel del Monte está cravado numa das colinas de Andria, na região da Apúlia, e foi construído no século 13 para ser o “centro da Terra” segundo seu idealizador, o imperador Frederico 2º, do Sacro Império Romano-Germânico. Imerso em mitos, há quem diga que os templários ergueram o castelo para que ele servisse de observatório astronômico, uma teoria apoiada pelas oito torres cujas arestas permitem a incidência de uma luz misteriosa nos solstícios e equinócios. Oitocentos anos depois, o lugar voltou a ser o centro do mundo, só que o da moda, de um outro império, o da Gucci.

Seu imperador é o estilista Alessandro Michele, que desfilou na área externa do prédio, nesta segunda-feira (16), uma das coleções mais complexas de sua carreira como diretor criativo da marca, jogando milhares de súditos aos seus pés com um vocabulário calculadamente exagerado e cheio de conexões que formam uma imagem aterradora sobre o estado das coisas.

Um dia após a Lua de Sangue, eclipse lunar que ocorreu num céu astrologicamente tão confuso quanto o mundo que o recobre, o estilista mostrou um estudo sobre a cosmogenia, balaio de mitos e fatos sobre a origem do universo. Aplicou, porém, um rigor matemático costurado em quadraturas, conjunções e trígonos perfeitos que forraram as peças.

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É preciso dividir em partes as referências visuais e os contextos históricos explorados por Michele para entender a magnitude da coleção que, talvez, seja uma das obras-primas da costura deste século. Trata-se de um trabalho minucioso que converge ciência exata, com propostas geométricas; signos de poder, expresso em peles falsas de arminho iguais às usadas nos mantos reais; e detalhes da nobreza medieval. Tudo entranhado à alfaiataria dos 1930, mesclada a uma dose generosa de ilusão da arte ótica.

O desfile atualiza a pompa dos ombros monárquicos, proeminentes, combinado-os a vestidos longilíneos, como um de veludo molhado que deixou o ventre aberto em formato de losango. Conta-se, o castelo já foi a casa do “graal”, que, para alguns, seria o sagrado feminino temido pela Igreja.

Michele, espertamente, resgata esse embate entre religião e ciência, com traços do estilo bizantino –há vários acessórios metálicos e colares gigantescos de pedraria– combinados às linhas espiraladas e quadriculadas da matemática.

Dos céus, ele retira uma explosão de estrelas que brilham em shorts e no alto de um dos tops de ombro só, no qual se vê a cauda de um cometa. Os brilhos parecem constelações e nebulosas impressas nas peças, expondo o exercício essencialmente manual e tecnicamente perfeito deste resort 2023.

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Modelos desfilam coleção Cosmogonie, da Gucci, aos pés do Castelo do Monte, na região de Apúlia (Itália).Monica Feudi/Divulgação Gucci

O estilista não se prende às referências estéticas da dinastia de Frederico 2º. Os rufos, aquelas golas gigantes e plissadas que denotavam limpeza e nobreza, só viraram tendência no século 16, mas Michele pescou dali detalhes de punhos e pescoços, arrematados com broches comuns à moda renascentista.

As botas de cano alto receberam amarrações dos espartilhos que aprisionavam as mulheres, e as sandálias, inspiradas nos calçados romanos, ganharam tachas como relicários da brutalidade daquele tempo de guerra.

Quase de forma mística, Michele faz com que nada pareça fantasioso na passarela. Muito disso se deve ao uso de transparências, bordados e decotes que já fazem parte de seu repertório, mas que assumem o espírito transgressor do imperador.

Devido aos hábitos excêntricos, como o de cultivar práticas muçulmanas e de flertar com outras religiões, Frederico 2º foi considerado um “anticristo” pelo papado, que só não entrou numa cruzada maior contra ele porque foi o imperador, no papel de diplomata, quem organizou a Sexta Cruzada para tomar Jerusalém. Política era um dos fortes desse personagem multifacetado, meio tirano, meio pacificador, que transitava entre o sangue e os poucos dias de paz da Idade Média. Soa atual? Essa é a ideia.

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Ainda imerso no medievalismo, Michele retira da indumentária dos bobos da corte o colorido e os padrões losângicos que estampam parte das peças. O rubro-verde, característico da Gucci, tinge parte desse bloco “espalhafatoso”, exemplificado no conjunto que recebe as tintas em linhas sinuosas.

Curiosamente, o estilista parece ironizar os críticos da sua tesoura, iluminando o fato de que os bobos, cuja inteligência é questionada, eram intelectuais com uma das profissões mais bem quistas do reino. Serviu de recado aos fãs, como se ele lhes dissesse, “usem tudo sem moderação”.

MERGULHADOR DE PÉROLAS

Vale destacar que não foi Frederico 2º quem inspirou Michele na criação desta meia temporada. Ainda que a busca do monarca por racionalidade em um mundo tomado pelo fanatismo faça sentido no subtexto do desfile, foi o ensaísta alemão Walter Benjamin quem mexeu com os sentidos do estilista. Assim como o imperador, o filósofo teve de fugir da opressão, nesse caso, não a da Igreja, mas a do nazismo ascendente em sua Alemanha natal, que perseguia judeus como ele nos 1930.

Em Paris, conheceu a filósofa Hannah Arendt, outra judia exilada na França, com quem trocou ideias e dividiu as dores de ser emigrado. Após a ocupação nazista nos 1940, a dupla organizou uma fuga para os Estados Unidos, para onde Arendt conseguiu fugir, mas o amigo, preso na fronteira entre Espanha e Portugal, não. Ele tirou a própria vida após ter a maior parte de seus manuscritos tomados pelos nazistas, preferindo morrer a ter uma vida sem conhecimento.

No auge de uma revolução cultural e estética, em 1968, Arendt publicou um ensaio no qual homenageou o amigo, descrito por ela como um “mergulhador de pérolas”. A alcunha conduziu Michele, que descreve Benjamin como alguém que “se joga nas profundezas do mar para trazer de volta à superfície as pedras preciosas”. Na coleção, a ideia foi exposta em pérolas enroladas nos pescoços com várias voltas, assim como as cordas que Bejamin já disse sentir enroladas em seu corpo.

O estilista criou as roupas a partir da percepção do filósofo sobre a construção do presente, materialiazando o trecho de um ensaio no qual ele afirma que “a imagem é aquela em que o que foi se junta em um piscar de olhos com o agora para formar uma constelação”. As palavras, embora redigidas em um outro contexto, definem a própria moda.

Fotos: Divulgação Gucci

Munido da referência, o diretor criativo descolou dos 1960, década mais prolífica de Hannah Arendt, a estética pulsante que tomou as artes visuais naquele tempo. Decidiu, porém, cruzar os padrões gráficos e as silhuetas soltas com as linhas dos tempos de austeridade, explorando aviamentos poderosos retirados dos terninhos de inspiração militar da Segunda Guerra.

O diretor criativo ainda lança mão do numeral oito, padrão do castelo octogonal onde apresentou a coleção, para definir a quantidade de botões aplicados em parte dos looks. Trata-se, em resumo, de uma constelação de ideias e referências típicas de um estilista que coleta relíquias do passado para construir narrativas nunca antes exploradas.

As constelações descritas por Bejamin em seus escritos se entremeiam ao pensamento de Michele, que explode tudo no último look. Azul profundo como o mar e todo bordado em metal e cristais, ele carrega com o desenho de um mapa das constelações visualizadas pelos primeiros astrônomos. A modelo usava luvas amarelas, traço que pode ser lido como uma lembrança do conflito armado em curso na Ucrânia, mas também à obsessão de Michele pelo jogo de cores opostas. Ambos, talvez?

Um jogo de luzes apoteótico emoldurou o epílogo, quando o mapa das estrelas apareceu projetado no castelo envolto em fumaça e penumbra, em uma verdadeira reprodução do conhecimento que se sobrepôs à ignorância.

O estilista encerrou o desfile colocando seus modelos para flanar entre sombra e luz. O efeito produziu uma metáfora sobre essa nova idade das trevas vivenciada pela humanidade, cuja estupidez reincidente os ideias de Frederico 2º, Walter Benjamin e Michele insistem em lutar contra.

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