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Segundo a empresa de pesquisas Pew Research Center, nas eleições de 2016 dos Estados Unidos, apenas 56% dos cidadãos foram às urnas — vale lembrar que o voto no país não é obrigatório. Contudo, depois dos desdobramentos causados pelo resultado que levou Donald Trump à Casa Branca, em 2018, o país teve o maior engajamento em uma eleição de meio de mandato desde 1970. Muitas pessoas acreditavam que, agora, por estarmos falando de uma eleição presidencial, o comparecimento em 2020 seria ainda maior, podendo, assim, fazer com que o país aumente a participação eleitoral, já que é um dos que possui uma das mais baixas taxas entre os países desenvolvidos.

A pandemia do coronavírus, no entanto, alterou todos os cálculos que haviam sido previstos. A instabilidade humana, política e econômica causada pela crise de saúde trouxe uma série de incertezas que, para alguns, pode levar à inércia. E é com a intenção de impedir esse conformismo que inúmeros movimentos vêm nascendo e ganhando força ao estimular a ida às urnas no dia 03 de novembro. A indústria da moda, estando cada vez mais engajada e atenta aos comportamentos sociais, vem se aproximando desses esforços e intensificando a sua participação.

Nesta semana, por exemplo, a Pyer Moss foi decisiva lançando uma camiseta com o escrito "Vote or Die. For real this time" (em tradução livre: "Vote ou morra. Para valer desta vez"). A peça é uma reinterpretação da campanha Vote or Die, feita pela primeira vez em 2004 pelo rapper Sean Combs, e faz parte da nova plataforma da marca intitulada Exist to Resist. O diretor criativo, Kerby Jean-Raymond, comunicou que todo o lucro acumulado por meio da venda das peças que fazem parte dessa iniciativa será revertido para organizações comunitárias dos Estados Unidos.

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Essa, definitivamente, não é a primeira vez que Kerby usa o seu espaço na moda para iniciar conversas sobre política. Desde 2013, quando criou a Pyer Moss, o jovem designer nova-iorquino se compromete em trazer discussões urgentes sobre democracia, racialidade e cultura para as suas passarelas. A novidade é que até marcas que não demonstram ter o mesmo hábito de se posicionarem sobre questões como essas também estão lançando produtos — e levantando questionamentos. A Michael Kors é uma delas.

No início de setembro, a etiqueta norte-americana iniciou a campanha Your Voice Matters (Sua Voz Importa), encorajando a participação eleitoral. "É um lembrete para todos os americanos votarem e não deixarem as suas vozes serem apagadas. Temos o direito de termos as nossas vozes ouvidas", afirmou Michael Kors em comunicado sobre o lançamento da camiseta e moletom que contam com a frase da campanha. A renda arrecadada com a venda das peças será destinada ao Fundo de Defesa Legal e Educação da NAACP. As peças foram enviadas a inúmeros influenciadores, entre eles, Bella Hadid, que postou uma foto em seu Instagram usando a camiseta.

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A Levi's, por sua vez, foi ainda mais longe e convidou nomes influentes para a própria campanha. Lançando também camisetas e moletons com a palavra Vote, a marca expert em jeans convidou nomes como Jaden Smith e Hailey Baldwin para estrelarem o vídeo de divulgação. "Esta eleição é a mais importante da minha vida. Minha esperança ao participar dessa ação é que ela encoraje, eduque e inspire os jovens a votarem e entenderem por que isso é tão importante", afirmou a modelo em comunicado.

A estratégia de envolver nomes que são fortes entre jovens vem sendo incentivada, inclusive, por diferentes organizações políticas para que esse público seja mais impactado pelo estímulo final da mensagem transmitida. Nas atuais campanhas eleitorais, as novas gerações andam sendo sub-representadas, o que possivelmente irá afastá-las das urnas, o que é um movimento preocupante, já que a participação juvenil pode ser decisiva para o resultado. Observando isso, o uso de slogans simples, digeríveis e compartilháveis digitalmente passaram a ser mais aplicados, impulsionando a geração Z, que já é experiente em contar histórias a partir das mídias sociais.

O voto como produto

A transformação de um movimento político em produtos, porém, vem sendo altamente questionada. Depois de Michelle Obama aparecer, em agosto, na Convenção Nacional Democrata usando um colar com letras que formavam a palavra Vote, uma pequena marca responsável pelo acessório chamada Bychari viu as suas vendas dispararem e, desde então, grandes empresas também perceberam nisso uma oportunidade estratégica de autopromoção.

Identificar a real intenção desses lançamentos é complexo e envolve uma análise aprofundada em torno da coerência, valores e história da marca. Afinal, não se sabe qual é o resultado prático de, teoricamente, apenas uma simples camiseta. Peças de roupa que levantam questões sociais, ao serem contextualizadas politicamente, podem sim ser muito potentes, mas, quando ficam em lugares rasos, dificilmente serão úteis de forma efetiva.

Uma solução encontrada por algumas empresas foi incorporar nas etiquetas um QR Code que pode direcionar os clientes aos formulários de registro de eleitor. Essa tática, contudo, foi adotada por poucas, como a Also Freedom, marca pequena e independente de bordados em camisetas e bolsas. Tory Burch, por sua vez, declarou que irá fechar todas as suas lojas no dia da eleição para que os seus funcionários possam votar e exercer o seu direito como cidadãos. A designer também informou que irá conceder um dia de folga remunerado a qualquer funcionário que se voluntariar a ser mesário.

"Em novembro, os Estados Unidos irão enfrentar uma grande escassez de funcionários eleitorais ー voluntários essenciais que trabalham nos locais de votação ao longo do dia da eleição, emitindo cédulas para eleitores registrados, monitorando o equipamento de votação, explicando como votar ou contando os votos. Isso, juntamente com o número reduzido de pessoas permitidas nas urnas por causa do COVID, resultará em filas incrivelmente longas e ameaçará a capacidade do voto", escreveu Tory em seu Instagram.

Modelo desfilando em um quintal, usando um vestido longo preto, m\u00e1scara e chap\u00e9u. Todas as pe\u00e7as s\u00e3o estampadas por repeti\u00e7\u00f5es da palavra "vote". Look do desfile de Christian Siriano. Getty Images

Na New York Fashion Week, que aconteceu entre os dias 13 e 16 de setembro, Christian Siriano foi um dos estilistas que deu continuidade à campanha. Em sua passarela, a palavra Vote apareceu em máscaras, chapéus e até mesmo em um vestido longo. "Como designer, nossas roupas são as nossas vozes. Apresentei a minha coleção com uma mensagem: vote!", falou em seu Instagram.

A ex-primeira dama dos Estados Unidos usou um colar escrito "vote" e a marca responsável pela peça viu as suas vendas dispararem. A cantora, por sua vez, em entrevista à ELLE norte-americana, fez um apelo aos seus fãs e pediu para que eles fossem às urnas.



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