Por trás do fenômeno cult Sandy Liang

Subvertendo elementos historicamente femininos, a estilista Sandy Liang cria uma base de fãs apaixonadas por seu visual girlie.


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Jennie (Blackpink) veste Sandy Liang. Reprodução



Remakes de filmes antigos, comeback de bandas separadas, produtos com jeito retrô: a nostalgia virou um mercado poderoso. Acontece que revisitar o passado (mesmo que uma versão romantizada dele) é uma boa fuga do temido agora. E a moda não ficaria de fora dessa.

É verdade que olhar para trás não se trata de uma novidade nesse mundinho cheio de movimentos cíclicos, mas a designer nova-iorquina Sandy Liang tem colocado à prova outras formas de recuperar o que já foi vivido. 

A sua marca homônima, fundada em 2014, anda com itens esgotados, celebridades AAA como clientes e muitos hits nas redes sociais. Isso se deve a uma identidade construída por Liang nos últimos anos, ao subverter elementos considerados historicamente infantis e femininos como detalhes de orgulho e de poder.

A boneca Hello Kitty, a decoração de um laço, a memória de animes e filmes da produtora japonesa Studio Ghibli, bem como os uniformes de colégio e a sua própria ascendência chinesa entram nesse caldeirão de referências resgatadas. E daí esse visual declaradamente girlie é tensionado com alguma austeridade. 

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Foto: Reprodução/Instagram

Vale dizer que esse caminho no design foi aberto por veteranas, estilistas como Anna Sui, Miuccia Prada e, mais recentemente, Simone Rocha, que deram mais profundidade à delicadeza, destacaram novas camadas do romantismo e colocaram esses elementos em patamares tão importantes quanto o da funcionalidade no sportswear, do conforto no streetwear e da racionalidade na alfaiataria masculina. Sandy Liang aprendeu bem a lição. 

Formada pela Parsons School of Design, em Nova York, no ano de 2019, ela alcançou o seu primeiro sucesso na mesma época: uma jaqueta de fleece, um material felpudo, com animal print e detalhes em neon que virou tema de uma matéria do jornal The New York Times. 

De lá para cá, a etiqueta acumula outros best sellers. O maior deles é o sapato do tipo mary-jane, inspirado em sapatilhas de balé e que vive fora de estoque no site da marca custam — 495 dólares, para quem tiver a sorte de encontrá-los disponíveis.  

No desfile da coleção de verão 2023, apresentado em setembro do ano passado, em Nova York, esse furor todo pela marca ficou ainda mais evidente. Muito além dos looks, o que se via era um grupo fiel de clientes, seguidoras, ou melhor, admiradoras da marca na plateia, todas devidamente uniformizadas.

22Caso voce acompanhe.22

Foto: Reprodução/Instagram

E essa base de fãs é estrelada. Há pouco tempo, a musa do k-pop Jennie, do grupo Blackpink, apareceu usando a marca em suas redes sociais e gerando assunto entre seus fãs. Michelle Zauner, o nome por trás da banda Japanese Breakfast, é outra entusiasta da etiqueta, assim como a cantora Olivia Rodrigo, que vestiu um look exclusivo Sandy Liang em sua apresentação no VMA deste ano. 

No TikTok, a persona da “garota Sandy Liang” é uma trend em que um  áudio viral ensina a como ser uma “modelo Sandy Liang” (semelhante ao que já aconteceu com a Gucci temporadas atrás). Em outra série de vídeos, garotas mostram como criar a sua própria bolsa inspirada na collab da grife com a marca de acessórios Baggu (que rapidamente esgotou). Fato interessante é que muitos dos vídeos são de usuárias que nunca compraram na marca, mas se sentem parte desse universo. 

Estratégia de negócio ou característica de quem cresceu na década de 1990, o fato é que a designer dissolve as linhas entre o pessoal e o profissional também com maestria, o que fica evidente em seu perfil no Instagram (que é um só para a pessoa física e jurídica). 

No feed, fotos do seu cachorro, Tim Tam, se misturam a novidades da marca, cliques com o marido, Dorian Booth, e muitos dumps (aquela prática de postar uma seleção de imagens menos “pensadas” em um carrossel que virou moda no Instagram). É ela também quem fotografa as imagens do e-commerce, para garantir que os ângulos saiam do jeito certo. 

Provavelmente é esse o seu gol. Sandy é sua primeira e mais importante cliente. Ela cria para si, como se tentasse satisfazer sua criança interior. Ela já disse fazer somente roupas que gostaria de usar, uma afirmação que pode até parecer óbvia, mas que a diferencia de muitos colegas designers que imaginam uma persona aspiracional, distante. Não há quase nada tão bom quanto ser uma garota — e fazer as pazes com isso é mágico. 

Leia mais: De Sandy Liang a Simone Rocha, confira a tendência dos laços nos cabelos. 

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