Moda

Por uma moda mais democrática e circular

Projeto idealizado pelo diretor de arte Marcelo Alcaide une artistas nacionais e internacionais em apoio aos profissionais de moda brasileiros e pela democratização do acesso a marcas desejadas.

Cortesia Reif Life
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Faz pouco mais de um ano que o diretor de arte Marcelo Alcaide realiza um projeto artístico com a fotógrafa Cássia Tabatini. Batizado de Cobertura, ele consiste na fotografia (sem retoques digitais) de corpos e identidades diversas, sempre em alguma laje. A ideia nasceu como parte de uma ação da Courrèges, marca francesa com a qual Marcelo trabalhou, mas cresceu e tomou vida própria. Entre janeiro e fevereiro deste ano, as imagens foram expostas nas galerias Fortes d'Aloia, no Rio de Janeiro, e Casa Triângulo, em São Paulo.

Marcelo é português e vive entre Lisboa e Berlim. Em dezembro passado, precisou viajar ao Brasil para finalizar o material das duas mostras. Quando chegou a hora de voltar, porém, a Europa entrou em lockdown e ele decidiu ficar. Não demorou muito para a pandemia se alastrar por terras brasileiras – e com consequências ainda mais assustadoras, dado o desgoverno nacional. Com amigos na cidade, o diretor de arte se envolveu em alguns projetos assistenciais, mas sentiu a necessidade de fazer também algo mais focado na área criativa e de moda.


"Nunca vi nada parecido, nunca vi as pessoas tão desamparadas", diz o diretor de arte, que cultiva conexões com pessoas locais há anos. "Percebi que precisávamos fazer algo além do assistencialismo, criar um mercado e economia circular com reais possibilidades de crescimento e sobrevivência de profissionais da moda brasileiros."

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Nasceu assim o terceiro ato da Reif Life, projeto multidisciplinar idealizado por Marcelo. Sua primeira versão surgiu em Berlim como uma alternativa intimista e hedonista para as festas da cidade. Com o tempo, a coisa evoluiu para englobar colaborações com artistas e outros profissionais, atuando como um verdadeiro catalisador de transformações criativas – teve até participação na Bienal de Veneza. Agora, o foco é a criação colaborativa, fomento e conexão de profissionais, negócios e comunidades brasileiras impactados pela crise desencadeada pelo novo coronavírus.

Funciona basicamente assim: um time de estilistas e criadores cria estampas, bordados ou qualquer tipo de intervenção e detalhes para serem aplicados por costureiras ou artesãos locais em peças doadas. Os itens customizados formam uma coleção de peças únicas ou limitadas, vendidas no e-commerce da multimarcas Cartel 011. "A ideia é que as peças não só tenham um valor acessível, para que um maior número de pessoas possa ter acesso àquelas marcas, mas também que sua venda seja revertida para seus produtores e para instituições assistenciais", explica Marcelo.

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A divisão é a seguinte: 30% do valor de cada produto vão para os profissionais envolvidos na sua confecção; outros 30% são custos de produção, comunicação e logística; e 40% vão para algumas das instituições parceiras (Nós Cuidamos, Rio Preto; Casa Branca de Luz; Nós Existimos; Casa 1). As marcas e artistas que colaboraram com esta primeira fase do projeto são: Agf Hydra (Londres), Avaf (São Paulo), Fabio Kawallys (São Paulo), Estileiras (São Paulo), Marcelo Alcaide (Lisboa), Rebecca Shapr & Alessandro Bava (Londres), T/estemony (Berlim), Telfar (Nova York), Vava Dudu (Paris), Vivão (Salvador), Yolanda Zobel (Berlmi) e Yves tumor (Los Angeles).

"Foi muito bom ver a adesão imediata de todas essas pessoas. E, de certa forma, todos têm essa preocupação de criar, incentivar e apoiar comunidades locais", diz Marcelo. O diretor de arte conta também que a ideia é expandir o projeto para outras regiões do país, com um novo time de colaboradores e novos profissionais e instituições parceiras para serem beneficiados.

Às vésperas de seu primeiro desfile virtual, o estilista Célio Dias, da marca LED, conta como o isolamento serviu de gatilho para uma série de colaborações criativas.



Ao longo de quase dois meses, ELLE Brasil conversou com mais de 40 profissionais diretamente afetados pela crise da covid-19. O resultado é uma série de reportagens com relatos profundos de uma indústria desesperada por esforços coletivos.

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