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Lançado hoje (10.02), o relatório Fios da Moda é uma contribuição essencial para debater e projetar novos modelos de negócio na moda. Disponível gratuita e digitalmente, ele apresenta dados inéditos sobre as principais fibras produzidas no mundo: poliéster, algodão e aquelas de origem celulósica, como a viscose. Além do ineditismo da pesquisa, há também o ineditismo do foco: o Brasil.

Dividido em três partes, a primeira apresenta os conceitos da Economia Circular e a dinâmica da reciclagem têxtil; a segunda, analisa o ciclo de vida, impacto e produção das três fibras; e, por fim, a terceira apresenta alternativas e cenários possíveis para a implementação da circularidade na moda e de que maneira a sociedade civil, iniciativa privada e setor público podem se engajar.

"O relatório é uma tentativa de decolonizar a sustentabilidade", explica Marina Colerato, coordenadora do projeto e diretora executiva do Modefica. A escolha de diversos termos reforça essa narrativa. Por exemplo, são usados "países do Norte e Sul Global", fazendo aversão ao termo hegemônico de "países desenvolvidos" e "países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento". Como base bibliográfica, a coordenadora destaca o New Textile Economy (Ellen MacArthur Foundation), pesquisas da Textile Exchange, o Mapa de Conflitos da FioCruz, e diversas teses e artigos de pesquisadores e acadêmicos.

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A campanha de divulgação do relatório é acompanhada pelo lançamento de um filme, música original, workshops e ferramentas para profissionais da moda.



Por que precisamos de um relatório nacional?

O Brasil é um país continental e grande player no mercado têxtil global, mas, mesmo com grande relevância, são poucos os estudos dessa seara focados na realidade brasileira. Pesquisadores e organizações nacionais recorrem com frequência às publicações internacionais de países do Norte Global, que muitas vezes não levam em conta nossas peculiaridades, como o fato de sermos o quarto país mais desigual da América Latina e ter a maior população negra fora do continente africano.

Embora estes relatórios sejam robustos – e muitos foram base para o Fios da Moda – , Colerato destaca que eles "desconsideram questões sociais importantes da rede produtiva, principalmente porque [os países do Norte Global] não vivem esses problemas". O material brasileiro objetiva ser uma fonte confiável de dados e ferramenta metodológica para os profissionais da área. "A vontade de produzir um relatório sobre têxteis está ligada à urgência da transformação que precisamos fazer acontecer na próxima década se quisermos garantir condições de vida minimamente estáveis na Terra frente a um cenário climático em profunda transformação", diz Colerato.

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Destaques do relatório Fios da Moda

Circularidade e reciclagem têxtil | A cada dia, toneladas de "lixo têxtil" são jogadas em aterros sanitários. O desperdício ainda está na moda: "estima-se que as perdas nas várias fases da etapa de fabricação de camisetas estão na ordem de 50% para o algodão, 31% para a poliamida e 29% para o poliéster. Em todos os casos, a etapa com maior perda é a confecção (corte e costura) – responsável por 25%", diz o relatório.

Nesse contexto, a economia circular se apresenta como uma das alternativas para acabar com o problema. O relatório define o conceito de moda circular como "intimamente relacionado com um sistema de produção e consumo de ciclo fechado, que tem como base a reciclagem, reparação e reutilização dos materiais e insumos utilizados durante todo o processo produtivo por diversas vezes."



Uma pesquisa online de mapeamento de consumo, exclusiva para compor o Fios da Moda e realizada em 2020 pelo Modefica com apoio da FGV e Regenerate, mostrou que "56,8% das pessoas estariam dispostas a reciclar suas peças de roupas se soubessem que elas, de fato, estão sendo recicladas enquanto 26,3% se sentiram motivadas por terem um ponto de coleta por perto. Ao mesmo tempo, 49.9% das pessoas nunca ouviram falar sobre reciclagem de roupas no Brasil."

Algodão | No relatório, o maior número de dados e informações encontradas, relativas às fibras, são sobre o algodão. O Brasil é um dos maiores produtores e exportadores do material no mundo. Tanta produção vem acompanhada do uso alarmante de agrotóxicos e pesticidas: no país, a cotonicultura é a quarta cultura que mais consome agrotóxicos, o que corresponde a mais da metade do volume comercializado em território nacional, e é responsável por aproximadamente 10% do volume total de pesticidas.

As mulheres são uma das minorias sociais mais afetadas por isso. O relatório mostra que, em 2018, um estudo feito com mulheres expostas ao glifosato (agrotóxico destaque na produção de algodão) em Uruçuí, no sul do Piauí, estimou que uma em cada quatro grávidas da cidade sofreu aborto espontâneo e que 83% das mães tinham o leite materno contaminado. O relatório também aponta que, assim como toda cultura agrícola, a expansão da cotonicultura pode estar relacionada aos impactos da mudança de uso da terra e ao risco de desmatamento.



Apesar disso, o Brasil é destaque na produção do algodão certificado Better Cotton Iniciative (BCI) e responde a 30% de toda sua produção do globo. Já o algodão agroecológico se apresenta como uma das saídas do labirinto de poluição: em relação ao cultivo de algodão convencional, o cultivo de algodão orgânico reduziu as emissões de GEE (Gases de Efeito Estufa) em 58%. A produção brasileira representa cerca de 0,7% da oferta mundial de algodão convencional e o Brasil ocupa a 16ª posição no ranking, com 22 toneladas de algodão orgânico, o equivalente a apenas 0,01% da produção mundial e menos de 0,1% da produção nacional, apresenta o relatório.

Poliéster | A pesquisa constatou que dados sobre outras categorias de impacto além do consumo de água, uso de energia e mudanças climáticas são raramente relatados para fibras sintéticas, como o poliéster. Ele tem seus principais impactos ambientais associados ao uso de energia e ao uso de combustíveis fósseis, por ter o petróleo como base. Já em relação a outros impactos na qualidade da água, a produção de resina sintética para fibras artificiais afeta a qualidade do ecossistema.

Um ponto positivo é que o poliéster pode ser reciclado com mais facilidade. O Fios da Moda mostra que "a produção de poliéster reciclado requer 59% menos energia do que a fibra convencional. Além disso, as emissões de GEE são reduzidas de 25% a 75%, dependendo do tipo de tecnologia empregada."



Viscose | A viscose é uma fibra artificial de origem celulósica. 40% da sua rede produtiva está localizada no continente asiático, mas o Brasil somou 11% de participação da celulose solúvel em 2019, ficando entre os 10 principais produtores globais. O relatório constatou que cerca de 30% da viscose é proveniente de árvores de florestas nativas e ameaçadas de extinção, incluindo a Amazônia.

"O impacto do uso da terra é influenciado pela produtividade da madeira (principal matéria-prima para a produção de viscose) e, portanto, varia de região para região", diz a pesquisa. Ela também mostra que o número de viscose certificada tem aumentado: de cerca de 35% da produção global em 2015 para cerca de 80% em 2018.

O que foi concluído?

"O que conseguimos revelar é que faltam informações disponíveis e públicas para decisões serem tomadas. [Nosso objetivo] é fomentar a produção desse conhecimento", diz Colerato. Mesmo com os embargos por conta da pandemia e o tempo limitado, a coordenadora acredita que o projeto teve sucesso e são almejadas outras edições semelhantes. "Reconhecemos que ter caminhos para sugerir é uma coisa bastante boa como resultado final", diz.

"Como conclusão, fica evidente que gerenciar os impactos socioambientais ao longo do ciclo de vida dos produtos têxteis - desde a extração de recursos naturais, passando pelo design, fabricação e uso, até o fim de vida - é essencial para a implementação de processos e produtos mais sustentáveis e faz parte da trajetória rumo à economia circular", finaliza o relatório.




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