Rita Lee e a moda

Fenômeno cultural, a cantora desafiou as normas, se firmou como a musa das musas do Brasil e deixa boas lições de estilo.


Cantora Rita Lee - Dia do Rock
Foto: Bob Wolfenson



Rita Lee Jones pegou e nunca mais devolveu. Rita Lee saiu da fervida butique Biba, em Londres, sem pagar nada pela bota prateada meia-pata, que virou marca-registrada dos seus looks na época de Lança Perfume – e da banda Tutti Frutti. Rita Lee pegou emprestado o vestido de noiva usado por Leila Diniz em O Sheik de Agadir (Globo, 1966) e achou por bem mantê-lo e usá-lo numa competição na TV Record com Os Mutantes e na capa do segundo disco do grupo, por que não?

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Rita Lee, que faleceu nesta terça-feira (09/05), pegou e dificilmente repassará para alguém o título de musa das musas do Brasil – não só pelo estilo, e olha que ele não é pouco. Rita Lee, como a moda, é a melhor fotografia de um tempo, porque sobrevive ao próprio tempo.

Nascida em 31 de dezembro de 1947, ela é o retrato de uma era em que a segunda onda feminista despontava no mundo, mas, que no Brasil, se chocou com os anos de chumbo da ditadura militar. Representou, como poucos, a coragem de usar sua imagem e sua voz para ir contra o establishment, a caretice, o abuso.

“Ela foi muito posicionada em tudo que quis na vida: politicamente, religiosamente e em outras mudanças que a própria música pedia. Daí, ela se adaptava com maestria. Sábia, camaleoa. Ícone fashion e multiartista”, resume Simone Prokopp, uma das sócias da Casa Juisi e possivelmente uma das mulheres que mais tem roupas de Rita Lee – são 25 peças no acervo que ela preserva há 17 anos, e que inclui a jaqueta de couro vermelha usada por Rita no programa Globo de Ouro.

Pioneira no estilo rock star em terras tupiniquins, Rita Lee não usava a moda apenas como look do dia. Ela criava imagens, simbolismos. Dava recado. Fazia desde o figurino dos Mutantes, grupo que fundou com Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, nos anos 1960, até protesto – no primeiro show após sair da prisão, em 1976, plena era Geisel, se vestiu de presidiária. Foi uma ex-presidiária com orgulho, muito antes de Bolsonaro.

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Foto: reprodução Pinterest

Uma artista que abriu caminho numa época em que mulheres artistas eram consideradas putas. E que respondeu com o hino “me deixa de quatro no ato, me enche de amor”. E com roupas que foram da estética mais hippie, Fleetwood Mac, paz e amor, para a estética glam power, com peças que exalavam poder, sedução – não à toa, é muitas vezes vista como a nossa David Bowie.

E, claro, nunca abriu mão do seu lado bruxona, guia de tantas mulheres. Vestiu-se como uma diversas vezes para contrariedade do patriarcado e da igreja católica.

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Foto: reprodução Instagram

Na sua composição visual, também entraram em cena, os famosos óculos escuros, quase sempre com lentes coloridas, que a ajudavam a driblar a fotofobia, o chapéu Fedora em momentos mais vida real (cartola no palco) e o mix entre masculino e feminino, esconde e revela – o macacão de meia-arrastão com estrelas coladas, talvez, tenha sido o mais replicado nos últimos Carnavais. Ah, sim, Rita também é musa delas.

E ela ainda conseguiu misturar em tudo isso a urbanidade típica da pauliceia desvairada – natural da Vila Mariana, ao contrário das divas do Tropicalismo, Rita vestia-se com camisetas, xadrez, tênis. E, se bobear, com a camisa do Corinthians. Mais autêntica, impossível.

“A Rita representa uma explosão de códigos estéticos únicos, misturados a elementos lúdicos”, analisa a diretora editorial da ELLE, Susana Barbosa. “Tem a irreverência e a loucura necessárias pra fazer a gente resistir, sonhar, brincar e criar.”

A seguir, 4 lições de estilo que a eterna musa dos palcos e da vida deixa pra gente:

1. Copie como um artista

Rita Lee tinha referências de Bowie, Mick Jagger, John Lennon. Mas deixava tudo com a cara dela.

 

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Foto: Bob Wolfenson

 

2. Encontre seu elemento recorrente

Pode ser o mesmo corte de cabelo pela vida ou o uso de um acessório específico, que sempre acompanha você – faz parte da sua identidade visual, sabe como?

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Foto: Marlon Brambilla


3.
Seja coerente

Vista-se de acordo com o que você acredita, seja a defesa dos animais (Rita era dessas), seja a defesa por uma vida mais colorida (Rita também era dessas!). Use a moda como expressão, comunicação sem fala.

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Foto: reprodução Instagram


4.
Assuma riscos

Exagere, às vezes, tente novas combinações. Saia da zona de conforto e não se importe tanto com a opinião alheia, caso queira se destacar da multidão uniformizada.

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    Foto: Bob Wolfenson

 

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