Moda

Roupas acolchoadas, o abraço que a gente deseja

Uma temporada nunca foi tão alpina quanto a de inverno 2021. Aqui, desvendamos as influências dos volumes puffers aplicados em roupas que imploram para serem abraçadas.

Getty Images
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Ao longo da década de 1950, Fred Picard foi a escolha favorita para as férias das grandes estrelas de cinema. Pioneiro em agregar estilo à tecnologia das peças desenvolvidas para a neve, o estilista suíço conquistou Audrey Hepburn, Ingrid Bergman e Norma Shearer e ainda foi o responsável por muitos dos uniformes vistos nas Olimpíadas de Inverno. "Uma mulher pode ficar mais sexy com roupas de esqui do que vestindo um maiô", era o que ele dizia.

Miuccia Prada parece concordar. Em uma viagem pelas encostas nevadas de Cortina d'Ampezzo, na Itália, a designer olhou para o poder restaurador do ar livre, dedicando o inverno 2021 da Miu Miu à beleza das montanhas. "A natureza está me curando pessoalmente", disse ela sobre as oscilações que enfrentou durante o desenvolvimento da coleção. Mesmo assim, e apesar das jaquetas puffers, calças acolchoadas e botas de pelúcia, a estilista não escolheu o caminho das soluções mais óbvias.

Em um jogo com a transição de roupas internas para as externas, a italiana decidiu acrescentar códigos de lingerie às roupas de esqui. Sutiãs e bodys acolchoados deram o tom para a construção de uma silhueta sedutora mas, ao mesmo tempo, protetora. "São roupas ousadas, mas possíveis. Para mim, não há nada mais sexy", comentou Miuccia. Aqui, memórias passadas também fazem parte dos códigos observados. "Lembro quando eu era jovem e as pessoas iam esquiar de bíquini sempre que fazia calor. Era algo como 'ninguém pode me dizer o que fazer'."

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E é disso que essa tendência é feita. Há um quê do espírito de rebeldia juvenil, como a estilista bem pontuou, mas há também a necessidade incessante de proteção. Até pode parecer paradoxal, mas em tempos pandêmicos, nem tanto. Diferentemente do Brasil, em outros lugares do globo, o processo de vacinação está avançado e, para alguns países, a possibilidade de retornar à vida com segurança começa a surgir. No entanto, mesmo vacinado, há quem ainda não se sinta protegido emocionalmente para a retomada.

Pesquisadores apontam que muitos irão enfrentar graves problemas de sociabilidade quando se depararem com a vida pós-pandemia. Há ainda aqueles que tiveram a vida de um ente querido tirada pelo vírus e, agora, lidam com os traumas da perda. Voltar para o mundo que um dia já conhecemos é o desejo geral mas, quando isso finalmente acontecer, ninguém estará bem e o mundo de cada um já não será mais o mesmo de antes.

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Divulgação

Miu Miu, inverno 2021.


Os vestidos de cetim super sexy, porém devidamente acompanhados por casacos enormes com muitas camadas, da Miu Miu, são provas de como essa dicotomia foi traduzida na passarela. E esse não é o único exemplo da temporada.

No inverno 2021 da Chanel, Virginie Viard também coloca as peças acolchoadas para jogo. A francesa resgatou referências ao esqui norueguense e aplicou volumes puffers a peças inusitadas, como salopetes, sempre deixando pedaços de barriga à mostra. Thom Browne levou essa missão ainda mais a sério e, em silhuetas extravagantes e um tanto quanto rígidas, deu texturas acolchoadas até mesmo para vestidos de festa, evidenciando como agora as roupas protetoras não se limitam mais a apenas às roupas de neve.

Para além das grifes

Porém, nem só das mais tradicionais etiquetas de moda vivem as peças acolchoadas. Marcas como a Patagonia e a The North Face, especialistas em roupas e equipamentos para atividades ao ar livre, aproveitaram o hype para ganhar espaço no mercado de luxo. "Não criamos apenas roupas para serem usadas na natureza, nos preocupamos com a natureza", é o que disse a Patagonia que, em 2019, foi nomeada pela ONU como a empresa mais sustentável do planeta.

Fora o olhar atencioso para o meio ambiente, as marcas de outerwear também colocam a funcionalidade antes de qualquer outra intenção. A The North Face (essa, aliás, lançou uma colaboração com a Gucci há poucos meses) desenvolveu, ao longo de anos, uma avançada tecnologia para que os seus volumes puffers cumpram os seus verdadeiros objetivos com 100% de validação, protegendo o usuário das mais baixas temperaturas e o deixando preparado para praticar esportes ao ar livre. Esses esforços, definitivamente, não podem ser subestimados, e Alexa Chung já sabe bem disso.

Ainda em fevereiro, a apresentadora britânica compartilhou, em entrevista ao jornal Financial Times, as experiências de sua última viagem à Suíça. "Até pesquisei roupas legais para esquiar, mas me recusei a usar as peças de alta tecnologia. Então, estava com um suéter, um lenço e uma jaqueta inadequada", contou Alexa. O resultado da escolha? Bom… "Acabei caindo e descendo a montanha de bunda, com lágrimas escorrendo pelo rosto e toda neve acumulada nas minhas costas. Quando levantei, era o próprio Corcunda de Notre Dame", relembrou.

Ienki Ienki, inverno 2021.Divulgação

Foi olhando para casos como o de Alexa que nasceu a Ienki Ienki. Lançada em 2016, a marca ucraniana até pode ser difícil de sair da boca (pronuncia-se "yenki yenki"), mas já é fácil de ser vista pelas mídias sociais. "Desde o início, quis fazer esse design: fashion mas de qualidade, superdimensionado mas confortável, reconhecível mas simples", diz o fundador Dmitriy Ievenko, no site da etiqueta. E ele conseguiu. Transformando as peças acolchoadas em itens de moda, sem comprometer a qualidade, a Ienki Ienki se tornou um fenômeno. A label já é a opção favorita de Irina Shayk, Emily Ratajkowski e Julianne Moore.

A Perfect Moment é outra marca dessa nova leva. Apesar de estar no mercado há mais de 20 anos, não faz tanto tempo que passou a furar bolhas esportistas. Foi só durante a pandemia, em meio ao crescimento da tendência de acolchoados, que a etiqueta disparou. Observando os movimentos, a diretora criativa Jane Gottschalk acrescentou cores vibrantes, brilho e novas texturas às peças. O resultado foi um aumento de 300% nas vendas do último ano para os Estados Unidos.

Esse é um bom exemplo do caminho que os volumes puffers seguem neste momento. Para essas marcas, pelo menos por enquanto, já não importa mais se o turismo está reduzido ou se as pistas de ski estão fechadas. Agora, suas peças ultrapassam os limites do esporte e passam a fazer parte também de looks cotidianos. A estética já tem até nome, gorpcore, e a ideia é mesmo transportar a imagem das montanhas para as ruas das cidades.


No TikTok, as jaquetas e coletes acolchoados são quase como peças obrigatórias entre os looks que circulam pelo aplicativo. A nova bolsa favorita por lá, a Pillow Tabby da Coach, também se conecta com a tendência puffer e, entre os muitos vídeos, os ASMRs a apertando são os mais curtidos. O modelo é uma nova interpretação de um design do arquivo da marca dos anos 1970 e agora chega com uma tecnologia ainda mais squidge para criar a aparência inflada.

Referências não faltam, seja a última temporada de desfiles, o momento de Lady Gaga e Adam Driver nas filmagens de House of Gucci, a viagem de Bella Hadid às encostas de Aspen ou até mesmo o glamour invernal visto nos filmes lá dos anos 1950. Seja qual for a aventura alpina responsável pela tendência, as roupas acolchoadas dizem muito sobre a nossa vontade de nos reconectarmos com o mundo e com a natureza, mas com uma advertência centrada na proteção e na preferência de que as roupas que vestimos mais pareçam com abraços.


Colegiais, esportivos, de luta ou até os formados por peças essenciais, entenda por que fardamentos estão em alta e parecem ser a aposta de todo e qualquer diretor criativo.

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