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Moda

A casa está na moda – e precisamos refletir sobre este diálogo

Seja com referências literais ou inspirações delirantes, o flerte entre moda e ambiente doméstico está pulsando. Muito mais que uma tendência, esse encontro é histórico - e diz muito sobre quem somos e o que queremos.

Ão | Foto: @marinanacamuli
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Privada do hábito de circular livremente pelo mundo, Marina Dalgalarrondo voltou-se para a contemplação plena do único espaço disponível, sua casa. A textura sinuosa das cortinas, os franzidos tumultuados na capa do sofá, as amarrações delicadas do assento futon. Quanto mais ela observava, mais detalhes percebia. Com o olhar cada vez mais apurado, o que aparentava ser ordinário, tornou-se esplêndido. A inspiração tomou conta de seu corpo inteiro, mas não só: estendeu-se para toda uma coleção. Ao captar a beleza do espaço doméstico, a estilista da Ão transformou observação em roupas que exalam o deslocamento constante da moda, em perfeita harmonia com a atmosfera imobilizada do lar.

"Comecei a observar e percebi que muitos itens de casa equilibram a funcionalidade com o ornamental. Não amo o franzido em uma capa de sofá, mas ele se comunica com outras referências estéticas, então entrei de cabeça nessas provocações e fiz um mix com referências variadas", explica Marina. O resultado são peças inspiradas em capas de almofadas, edredons, colchas e aviamentos de sofá – quase sempre arrematadas por vários laços. As modelagens experimentais mantém a expressividade lúdica tão característica da marca que, dessa vez, aposta em uma paleta suave, passeando entre tons de amarelo ácido, azul candy e salmão vibrante. O grande diferencial fica por conta do matelassê exclusivo, que foi desenvolvido em uma padronagem dupla face de ondas. "Queremos que essas peças sejam um carinho, que elas abracem quem estiver usando."

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Que a pandemia viralizou os moletons e nos fez adeptos das roupas largas, não é novidade. Sim, queremos estar confortáveis, mas a relação entre a moda e o isolamento não se esgota aí. A casa saiu do lugar de passividade, deixando de ser coadjuvante, para ser protagonista. Agora, não queremos apenas facilitar a permanência forçada em nosso lar (para quem tem privilégio), queremos vesti-lo. Apesar do desejo inspiracional, estamos falando de referências bastante literais. De saias com tecidos de roupa de cama até blusa inspirada em pillow top, designers no mundo inteiro estão trazendo elementos domésticos para suas coleções. E as chances de você se conectar com essas peças são imensas.


Imagem da nova cole\u00e7\u00e3o da \u00c3o. Ão.Foto: @marinanacamuli

A explicação é histórica: nos relacionamos com as roupas afetivamente, assim como nos relacionamos com os espaços. A casa sempre simbolizou o mais próximo que temos de um ventre materno. É o nosso casulo, onde vivenciamos nossa intimidade e guardamos o que temos de mais valioso, seja esse valor sentimental ou material. Na pandemia, esse vínculo que já era intenso, tornou-se visceral. Nos fundimos às nossas moradas – e sendo a moda uma ferramenta artística que caminha em harmonia com o tempo, é compreensível que esse acoplamento tenha se refletido nela.

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"Estamos falando de uma moda que precisa oferecer não apenas conforto, mas aproveitamento. A forma que adornamos nosso corpo passa pela cultura e pelo momento atual", explica Carla Mendonça, doutora em comunicação e moda da Fundação Mineira de Educação e Cultura (FUMEC). Para ela, a chegada da pandemia impulsionou um movimento que já estava sendo percebido nos últimos anos, que é o questionamento do luxo. "Por mais que a tecnologia esteja nos ajudando, faz falta o abraço, dividir o drink com um amigo, provar o prato que a outra pessoa pediu em um restaurante. Antes, enxergávamos apenas o tempo como artigo de luxo, mas, agora que estamos em casa, não temos muito o que fazer com ele. O desejo está em outros lugares, e as grifes, a exemplo da Fendi, estão trazendo esse afago e capturando seus consumidores de forma inteligente", comenta.

Detalhe de look do ver\u00e3o 2021 da Fendi. Fendi, verão 2021.Foto: Divulgação

Detalhe de look do ver\u00e3o 2021 da Fendi. Fendi, verão 2021.Foto: Divulgação

Assinada por Silvia Venturini (essa foi sua penúltima passarela solo, antes da chegada do estilista com Kim Jones), a coleção de verão 2021 da marca italiana reflete um íntimo passeio por memórias afetivas. Ambientadas sob uma atmosfera caseira e inspiradas diretamente na estética doméstica, as peças carregavam elementos explícitos de um lar: reflexos de janela, jarros de flores, sandálias com meias e sobreposições que lembravam aventais. Nas bolsas, foram colocados pequenos recortes que se assemelhavam às clássicas toalhas de mesa, bem casa de vó.

Elementos com forte conexão afetiva e cheios de nostalgia também aparecem na mais recente coleção da Handred. O ponto de partida é uma pequena cidade, Capelinha, no interior do Rio de Janeiro, que o estilista André Namitala frequenta desde criança. Da lembrança de uma vida em outro tempo, mais conectada à natureza e às coisas feitas à mão, surgem alguns bordados em ponto cruz, em referência às toalhas de mesa, cortinas e outros elementos das casas locais; os volumes dos casacos, inspirados nos sacos de dormir e cobertores que o designer usava para passar as noites frias olhando as estrelas; e os tricôs manuais de lã.

Look da \u00faltima cole\u00e7\u00e3o da Handred. Handred.Foto: Pedro Perdigão


O poder da observação

O imaginário de Silvia é o espelho de uma manifestação coletiva. Designer e consultor de inovação com passagens pelo SEBRAE e SPFW, Jefferson de Assis acredita que uma das grandes consequências do isolamento foi o aprofundamento dos nossos olhares. Isso se reflete nas criações, no consumo e até nas mídias sociais. "A casa virou um ambiente estático que se movimenta. Ela é nosso local de estudo, de trabalho e de lazer, tornando-se o único ponto de partida que temos para contemplar o mundo. Tivemos uma explosão de registros no Instagram, nunca vimos tantas nervuras, texturas diferentes, minúcias. Passamos a enxergar os objetos com cuidado, observando todos os seus detalhes. É encantador, estamos desenvolvendo um olhar específico que acontece nesse espaço e momento. Isso influencia no que desejamos consumir e reflete diretamente na indústria. Os projetos de moda e design mais bem-sucedidos, são aqueles que estão acompanhando esse movimento. Acredito que grande parte das nossas próximas compras vão refletir as consequências desse universo", constata.

Com questionamentos sobre os padrões de gênero e o posicionamento sociopolítico como características intrínsecas, era de se esperar que a LED trouxesse reflexões potentes em meio a um cenário tão delicado. Ao invés de uma coleção pontual, Célio Dias, fundador e diretor criativo da etiqueta, desenvolveu uma narrativa completa que deve se estender, pelo menos, até o fim deste ano.

Intitulado Casa LED, o enredo foi dividido em três capítulos. "Decidimos transformar essa situação insuportável em arte. Criamos muitas conexões com nossas casas e esse trabalho é uma reflexão disso. Vamos pensar no espaço doméstico não apenas como algo físico, mas como uma morada, que abriga pessoas, imaginação, desejos utópicos, anseios sexuais. A gente fala do momento atual sem se esconder, sem ser negacionista. A Casa LED é esse ambiente múltiplo, que está aqui para dialogar e acolher pessoas", revela o estilista, que vai apresentar parte dessa construção na próxima edição da SPFW.

Look da cole\u00e7\u00e3o Casa LED. LED.Foto: @isarruda

Apesar de residir na capital paulista, Célio é mineiro e seu ateliê fica em Belo Horizonte. Com a pandemia, ele precisou se privar do seu casulo criativo e, com tantas vontades reprimidas, recorreu ao lúdico. "Esse primeiro momento é justamente sobre repressão, sobre desejos que nós queremos libertar. Falamos tanto de empatia, mas não temos. A LED sempre levantou a bandeira LGBTQIA+, mas só precisamos fazer isso porque ainda temos que exigir o básico, que é o respeito. No segundo capítulo caminhamos para o mundo dos sonhos, em que gostaríamos de viver. Como seria se todos se respeitassem? Se as pessoas exercitassem o lugar da escuta tanto quanto exercitam o lugar de fala?", provoca. O terceiro momento, previsto para outubro, pretende refletir sobre a importância da presença e dos encontros para além das telas.

Com seu já famoso crochê, a marca explora tingimentos, técnicas de upcycling e suas famosas estampas carregadas de significados. Assinadas pelo artista João Vitor Lage, camisetas coloridas oferecem elementos alegres, como flores sorrindo e a frase "te vi nas redes". João também vai assinar uma estampa com mais de 70 elementos, que vão desde objetos de casa até animais que só existem na fantasia. "Do meu lugar de estilista, me sinto na obrigação de usar a pouca voz que tenho para exercer o direito de não ser alienado. Precisamos fazer uma moda acessível e real, baseada em gente, em coisas que estão acontecendo neste momento. Só posso narrar aquilo que já vivi", finaliza Célio.

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