Moda

Saint Laurent costura aridez em desfile singular no deserto

Coleção masculina de verão 2023 criada por Anthony Vaccarello mimetiza nômades chiques sob o crepúsculo do Marrocos, cuja Marrakech Yves Saint Laurent transformou em segunda casa.

Divulgação
Saint Laurent costura aridez em desfile singular no deserto
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Na corrida dos desfiles embolados uns com os outros, rescaldo do calendário bêbado dos dias críticos da pandemia, passam na frente as grifes que empacotam aquele misto de encantamento visual e moda afiada à imagem, difícil de balancear numa passarela comum.

Algumas, espertamente, se desvencilham dos calendários para dar verniz de singularidade às criações, mostrar-se acima do estardalhaço das capitais fashion e, dessa forma, soar como palavra final no vaivém de roupas. O desfile masculino de verão 2023 da Saint Laurent quis ser tudo isso e mais um tanto.

Não que o estilista Anthony Vaccarello nunca tivesse sujado tecidos em montanhas de areia, cenário do filme de sua primeira coleção pandêmica em 2020, mas a apresentação que ocorreu na noite desta sexta-feira (15) no deserto de Agafay, no Marrocos, ilustra como esse designer procura criar paisagens, e não apenas roupas, que mimetizem traços da vida de Yves Saint Laurent.

SAINT LAURENT - MEN'S SPRING SUMMER 2023 - FULL SHOWwww.youtube.com

Ele poderia ter levado o séquito de convidados, uma lista que incluia da atriz Catherine Deneuve ao ex-Daft Punk, Thomas Bangalter, às semanas de Milão ou Paris que terminaram há pouco? Poderia. Mas, preferiu lhes oferecer uma programação de três dias em Marrakech, nas proximidades daquele deserto, assim como o estilista fazia nos dias de descanso em sua vila particular, o Jardim de Majorelle, palco de festas homéricas dos 1970 e atual sede do Museu Yves Saint Lauret Marrakech.

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Não é a primeira vez que Vacarello justapôs as nuances de Saint Laurent, o estilista, com a nova Saint Laurent. Nas últimas três temporadas do pré-pandemia, durante a semana de moda feminina de Paris, ele construiu caixas de luzes estroboscópicas para enfiar dentro a sua passarela notívaga, expressa no padrão sexy de boate que relembrava as noites intermináveis do estilista no Studio 54.

Saint LaurentDivulgação

Agora, neste desfile masculino, o designer belga parece versar sobre esses mesmos nômades que um dia dançaram nas pistas, mas que hoje vagam pelo espaço desertificado das boates e ressacados da clausura imposta pelo bate cabeça nas paredes da sala.

Sobreposições de casacos pesados, a exemplo dos trench coats e abrigos de pelo, ofereciam essa imagem de casulo. Ao mesmo tempo, contrastaram com os look da liberdade, conjuntos leves de calça flare e camisa fininha, cujos botões se abriam nos colos em um mashup da Swinging London do final dos 1960 –quando Saint Laurent conheceu o Marrocos – e traços da moda setentista.

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Saint Laurent Divulgação

Esses nômades caminhavam em círculos à procura de novas luzes. O crepúsculo do deserto ilustrava o espaço faraônico tomado pelos modelos e no qual uma instalação gigante do artista inglês Es Devlin parecia simular uma superlua, que apareceu no céu nesta semana de fase cheia do astro nos horizontes mundo afora.

A cartela, então, seguiu essa linha de aridez, mas tomada pelo viés pop em efeitos acetinados dos tecidos, pussy bowls enrolados no pescoço e brilho pontual aplicado nos cintos de fivela dourada, broche de brilhantes e sapatos com alturas variadas.

Preto, branco, bege, mostarda e cáqui tingem a aridez pop da coleção, que em alguns momentos parece pincelar o saharienne, estilo gestado por Yves Saint Laurent em jaquetas utilitárias do tipo caçador, tanto nas silhuetas quanto nas cores e nos aviamentos. Uma única peça roxa surgiu, como se quisesse desfocar a atenção dessa dança minimal.

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O jogo de pesos e contrapesos costurado pelo estilista ganhou força nas revisões do Le Smoking, obsessão de Vaccarello desde que assumiu a direção de estilo da marca. As lapelas foram ampliadas, e as cinturas, marcadas. Os comprimentos da parte de cima variavam, indo da cintura até próximo dos pés.

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No auge da apresentação, quando os sintetizadores da trilha atingiram notas mais pulsantes, o anel gigante de luzes levantou para compor uma sinfonia astral no céu do deserto, tornando a obra um espetáculo da natureza, a lua em sua fase mais brilhante. A ideia dialoga com o romance O Céu que Nos Protege, de Paul Bowles, do qual Anthony Vaccarello pescou um dos trechos mais famosos para revelar pistas de seu universo contemplativo.

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“Podemos pensar na vida como um poço inesgotável. No entanto, tudo acontece um certo número de vezes, e um número muito pequeno, na verdade. […] Quantas vezes mais você verá a lua cheia nascer? Talvez vinte. E, no entanto, tudo parece sem limites.”

Atento à fugacidade dos momentos felizes, rareados pelo noticiário, Vaccarello relembra a importância de se ater aos detalhes mínimos, mas poderosos.

Aplicada ao exercício na passarela, essa lógica se mostra definitiva para entender tanta praticidade costurada, cujas formas borram os gêneros de maneira natural, quase seca como o deserto, mas que elevam sua costura ao patamar de singularidade.

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