Sociedade

A arte de traduzir música para surdos

No Instagram, Anne Magalhães usa Libras, expressão corporal e muita sensibilidade para passar toda a emoção de uma canção para quem não ouve.

Ilustração @viamagalhães, com fotos de arquivo pessoal (Anne Magalhães)
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Anne Magalhães é a potência no significado mais amplo da palavra. É educadora, intérprete e tradutora de Libras, mas é sobretudo uma artista surpreendente. Em suas redes sociais, a jovem de 29 anos vem desenvolvendo um trabalho emocionante ao traduzir música para surdos. E não se trata de uma mera tradução das letras. Ao juntar Libras, expressão corporal e uma sensibilidade aguçada, ela vai além das palavras: consegue transmitir também o ritmo e as sensações provocadas pela canção. Na poesia musicada "Me gritaram Negra", da peruana Victoria Santa Cruz, Anne vai do choque e da indignação para a alegria orgulhosa do pertencimento a uma raça. Em "Um Corpo no Mundo", ela flui como água acompanhando a cadência da canção de Luedji Luna. Assistir aos vídeos no Instagram de Anne é passar por uma coletânea de emoções, que renovam esperanças e fazem o coração transbordar.


Pesquisadora da relação entre as artes do corpo e a língua de sinais, Anne explora com seu trabalho as possibilidades da transcriação, o conceito de tradução difundido pelo poeta e tradutor Haroldo de Campos (1954-2003), que não se limita à semântica das palavras, mas consegue transpor uma obra para outro idioma em sua totalidade.

O primeiro contato de Anne com a língua de sinais veio de uma curiosidade de adolescente. Atrás de outras maneiras de se comunicar, ela e alguns amigos decoraram o alfabeto de sinais que encontraram em um livro didático no Ensino Médio e começaram a se comunicar dessa forma. "Decoramos [o alfabeto] pra gente conversar, pra soletrar nomes, e aí a gente foi acostumando", relembra Anne. O que era uma curtição entre amigos começou a tomar forma de carreira quando ela quis comprar uma guitarra. O pai de Anne disse que não poderia dar o dinheiro, mas ajudou a filha a conseguir um emprego de meio período em uma escola para surdos.

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A partir desse trabalho, a relação de Anne com a arte mudou. Com as crianças surdas, ela ampliou seu olhar. Aprendeu Libras e estudou Artes Visuais na mesma escola, onde, posteriormente, seguiria como professora. Além de atuar em salas de aula, também realizou trabalhos em exposições de instituições como o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e a Bienal de Artes de São Paulo. Nessas empreitadas, Anne trabalhava sempre com o educador e poeta surdo Bruno Ramos. "Ele tem uma pesquisa muito profunda sobre poesias em Libras, uma pesquisa da rima visual, da própria performance, e a gente começou a trocar muito sobre isso", conta ela.



Na preparação das exposições, a dupla levantava questões relacionadas à acessibilidade. Como uma pessoa cega poderia acessar a sensação que Basquiat gostaria de transmitir com sua obra? Será que uma maquete em 3D de um quadro seria suficiente? Como fazer a música ser interessante visualmente? Para responder a esses e outros questionamentos, Anne e Bruno fizeram um mergulho profundo em pesquisas sobre vibração e reverberação dos sons. A música vibra, explica Anne: vibra no chão, vibra em nossos corpos e isso traz sensações. Em seus estudos, os dois conheceram o trabalho do cineasta e escritor Abderrahmane Sissako, radicado em Mali, e do artista e pesquisador senegalês Djibril Diop Mambéty. "Eles falam muito sobre como a música tem uma potência sensorial muito forte", conta Anne. "Os sons graves batem diretamente nos quadris, os sons agudos batem em nosso peito e isso estimula inconscientemente a maneira como a gente vai dançar." Informações como essas fizeram Anne perceber que a música pode alcançar muitas outras camadas além do som. "Quando a gente permite explorar outras referências que estão fora do padrão, muitas vezes da filosofia branca ocidental, a gente começa a encontrar outras possibilidades de expressão e de existência."

E os estudos não pararam por aí. A artista realiza pesquisas extensas sobre aquilo que vai traduzir para que o espectador consiga sentir, de fato, o significado intrínseco de cada obra. "Sempre tenho esse questionamento dentro de mim: como traduzir a arte sem tirar a arte dela? Sem explicar demais ou explicar de menos, atravessar o entendimento do outro ou não, tudo isso é uma preocupação muito forte no meu trabalho." Às vezes, alguns gestos formais da língua de sinais ou algumas frases literais não conseguem alcançar o que aquela obra intuiu sensorialmente, conta Anne. A transcriação, então, acaba sendo uma ferramenta para encontrar o melhor caminho.

O trabalho de Anne também inclui um diálogo constante com o público que a acompanha. "As pessoas podem dizer eu gosto, não gosto, concordei aqui, ali eu acho que faltou", diz ela. Anne já teve relatos de uma pessoa surda que não gostava de música, mas se interessou pelo tema da canção, e também retorno de ouvintes, que contam não ter prestado tanta atenção à letra de uma canção até assistir a uma interpretação de Anne. "A transcriação tem a ver com esse atravessamento, de tentar encontrar outras ferramentas visuais que não só a língua de sinais formal, trazer outros elementos visuais."

Para além da arte, o trabalho de Anne traz também uma reflexão sobre o relacionamento entre as pessoas com e sem deficiências. Em um dos relatos que recebeu, a pessoa contava que convivia com uma pessoa surda em sua sala de aula, mas nunca havia conversado com com ela. Depois que começou a assistir aos vídeos de Anne, puxou papo com a colega e agora estão se entendendo. "Às vezes, não percebemos que essas pessoas também estão em lutas sociais muito fortes e talvez sejam as mais marginalizadas. Então, familiarizar esse olhar pode, além de aproximar as lutas, dissolver esses estranhamentos", reflete Anne.

Olhar para o lado, olhar no olho de uma pessoa, tentar se relacionar com ela é um exercício que Anne indica para todos. Quanto mais plural o nosso entorno de convivência, melhor responderemos a isso. Em certa medida, o feed do Instagram também faz parte desse cerco. Por isso, esta reportagem termina com algumas indicações de Anne de perfis para seguir no Instagram, que também podem colaborar para uma relação de maior proximidade e empatia com quem está ao nosso lado no dia-a-dia.

@brunoramoslibras
Bruno Ramos, poeta surdo, ator, educador de Libras e educadro de arte.

@leocastilho
Leonardo Castilho, Educador surdo e produtor.

@cathyfofa
Catharine Moreira, atriz, poeta, slammer e dançarina.

@edinhopoesia
Edinho, educador, ator, poeta , palestra e apresentador.

@slamdocorpo
Slam do corpo, batalha de poesia surda e artistas sinalizantes.

@maosdefada_libras
Mãos de fada, intérpretes contadoras de história.

@leoviturinno
Léo Viturinno, youtuber, professor surdo, tem curso de Libras básico online.

@kitanadreams
Kitana Dreams, drag queen surda, youtuber, maquiadora.

@leandrinhadu
Leandrinha Du Art, midiativista, escritora, militante LGBT e PCD.

@marianatorquato
Mariana Torquato, youtuber, criadora do casal Vai uma mãozinha aí?


Milena Paulina, a artista por trás do perfil @olhardepaulina_ , trabalha para normalizar o corpo feminino ao subverter duas ferramentas que, por tanto tempo, se combinavam para oprimi-lo: a fotografia e o nu.


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