Na adolescência, Bárbara (nome fictício), hoje com 27 anos, buscava em romances eróticos como 50 Tons de Cinza e Toda Sua respostas para suas primeiras curiosidades sobre desejo, atração e sexo. Naquelas páginas, ela começou a entender seu corpo e o que lhe dava prazer. De família conservadora, tinha medo de ser descoberta assistindo a vídeos pornográficos no celular. Cerca de 15 anos depois, hoje, ela consome conteúdos de sites como o XVideos. “Começar a ver aquilo foi uma libertação. Ali me entendi como bissexual”, diz a estudante de psicologia. 

Para ela, o contato com a pornografia foi uma forma de se conhecer e explorar a própria sexualidade. Mas uma experiência positiva na vida adulta não significa que o acesso seja inofensivo em qualquer idade ou circunstância. O XVideos é um dos sites adultos mais acessados no mundo. Só em fevereiro deste ano, registrou cerca de 2,7 bilhões de cliques.

Qualquer pessoa com internet pode acessá-lo, e talvez seja aí que more o problema: para ver conteúdos pornográficos em mais de 40 categorias – que vão de “ruivas” a “bunda grande” –, basta responder se você tem mais de 18 anos. Ou seja, não há uma barreira efetiva que impeça uma criança ou adolescente de chegar ao que a plataforma disponibiliza. 

Esse fácil acesso acende um alerta. Segundo a LADbible Group, empresa britânica que realiza pesquisas focadas no público jovem, dois terços da geração Z consomem pornografia desde a infância. A empresa fez um levantamento com 5.300 pessoas, de 18 a 28 anos, para entender como elas se relacionam com a pornografia online. Cinco por cento dos entrevistados tiveram o primeiro contato antes dos 10 anos. E 45% afirmaram que a pornografia é uma de suas principais fontes de informação sobre sexo.

No Brasil, de acordo com levantamento da Ipsos em parceria com a empresa de identidade digital Unico, 13% das crianças e dos adolescentes visualizaram conteúdo adulto em 2025. A pesquisa ouviu 1.200 pessoas de 10 a 17 anos em todo o país e mostrou também que, para a maioria (61%), a curiosidade foi a principal motivação para as primeiras buscas.

Se há alguns anos o jovem que quisesse ver algo pornográfico precisava comprar uma revista ou alugar um filme, hoje, a possibilidade de acesso é 24 horas por dia, na palma da mão. E, de acordo com a psicóloga Márcia Stengel, chefe do programa de pós-graduação em psicologia da PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais), isso vem mudando a forma como as gerações mais jovens lidam com questões ligadas à sexualidade.

“Quando uma criança pega o celular dos pais e, sem querer, é impactada por um vídeo pornô, ela não entende o que está vendo”, afirma Márcia. “Meninas e meninos, mesmo na faixa dos 14 ou 15 anos, estão em formação e, sem compreender aquilo, acham que a realidade é assim.”

Agrava esse cenário a dificuldade de pais e mães conversarem com os filhos sobre sexualidade. “Se a família e a escola não falam, os jovens vão matar a curiosidade em outro lugar, que é a internet”, diz ela.

E daí vem o crescente número, segundo Márcia, de relatos de meninas que se sentem violentadas em suas experiências sexuais, porque, muitas vezes, a pornografia mostra isso. “Ela também ensina que a mulher foi feita para dar prazer ao homem; o prazer dela é secundário.”

“A pornografia ensina que a mulher foi feita para dar prazer ao homem; o prazer dela é secundário.”
Márcia Stengel

Outra questão relacionada ao alto consumo de pornografia online por jovens é o aumento do desinteresse deles por sexo. Um levantamento recente da EduBirdie com 2 mil entrevistados mostrou que 67% preferem uma boa noite de sono a transar. Uma pesquisa do Instituto Kinsey, da Universidade de Indiana, com mais de 3.300 pessoas de 71 países, reforçou esse quadro: a gen Z transa menos em comparação com as outras. Segundo os dados, os jovens entrevistados relataram ter praticado sexo três vezes no último mês, contra cinco vezes de gerações anteriores.

“Não é só porque existe pornografia no celular que as pessoas estão fazendo menos sexo, mas isso pode ser uma das condições”, afirma Eder Eddine, neuropsicólogo e pesquisador em comunicação e saúde mental. “Há mais pessoas, de modo geral, preferindo pornografia virtual e paqueras virtuais. E se satisfazem com isso, sem a presença.”

A socióloga e historiadora Laura Hauser, consultora e pesquisadora de inteligência artificial, vai além. Para ela, vivemos um bombardeamento de informações, e há quem se canse disso. “É um momento de exaustão social, e a sexualidade vai por esse caminho.”

Laura compara a irritação que uma pessoa pode sentir ao ter que esperar cinco minutos por um carro de aplicativo à dificuldade de encontros para alguns. “A expectativa sobre a realidade das relações está mudando. No mundo digital, a gente adora receber o que a gente quer, quando quer. Mas as relações humanas não são assim.”

No sexo, ela acredita que isso é ainda mais emblemático. “Existe muito imaginário em torno desse tema e, quando você é adolescente, há muita frustração quando se vai para o mundo real.” 

É como se as gerações mais jovens esperassem que as relações humanas fluam como com a inteligência artificial, que sempre responde o que queremos. Só que, como alerta Laura, nunca vai ser assim. “Até porque as pessoas se relacionam com base no conflito.”

Buscando o prazer sexual nas telas, pode-se ficar saturado de estímulos sexuais. “Antigamente, um homem se excitava ao ver um tornozelo”, diz Laura. Hoje, principalmente com a IA, a gente consegue ver muita coisa e, quanto mais a gente aumenta a barra do que vê, menos a gente sente desejo.”

“Antigamente, um homem se excitava ao ver um tornozelo.”
Laura Hauser

A afirmação, lembra ela, liga-se ao que dizia o psicanalista Jacques Lacan, de que o desejo é a falta. “Preciso da falta para desejar e, se eu tenho tudo, nada mais me emociona”, pontua Laura.

Essa “busca por tudo” na pornografia pode levar ainda algumas pessoas a desenvolver disfunções sexuais, como explica o psiquiatra Lucas Naufal Macedo, pesquisador de impulsão sexual. “O funcionamento é o mesmo de outras redes sociais: você vai assistindo a um vídeo curto atrás do outro e, com esse acesso tão fácil a uma via de obtenção de prazer, a excitação natural em um encontro deixa de acontecer”, explica. “Nesse sentido, não podemos vilanizar a pornografia, mas ela abafa o tesão, compete com ele.”

Ele conta serem comuns histórias de casais em que uma pessoa que consome pornografia demais acaba perdendo o interesse pelo parceiro ou parceira. “Se eu fico acessando muito esses vídeos, me acostumo a buscar coisas novas para me excitar e, em um relacionamento de longa data, isso pode fazer com que um tenha menos desejo pelo outro.”

Pornô ou não pornô, eis a questão

Nos Estados Unidos, há um movimento conhecido como “no fap”, que incentiva a abstinência da masturbação e do consumo de pornografia. Muitos dos seguidores são pessoas que, com compulsão por conteúdos adultos, ficam com a dopamina desregulada e passam a ter dificuldade de excitação em relações reais.

Mas, como destaca Lucas, os casos de compulsão são pequenos, e a pornografia tem, sim, um lado bom. Um deles: “Às vezes, ela é o único recurso e, se bem usada, pode ajudar jovens de famílias mais conservadoras ou LGBTs, por exemplo, a satisfazerem o prazer”. 

Quem também enxerga benefícios na pornografia é empresária conhecida como Fada, criadora do evento Erotika Town. “Para muitas mulheres, quando elas assistem a um bom conteúdo, que não as coloca em um lugar de subserviência, é uma forma de se sentirem satisfeitas”, diz Fada, que é uma consumidora de pornô. “Para mim, é algo saudável. Consigo entrar na personagem e sinto aquele prazer que a cena está tentando mostrar.” 

Foi a partir dessa sensação que ela criou o Erotika Town, no ano passado, com o objetivo de desmistificar tabus ligados ao universo sexual. Para isso, usou a experiência que teve como criadora de conteúdo adulto na pandemia. “Queria entender o comportamento das pessoas, e vi que é preciso ter prazer ao criar, se não, a chance de dar errado é alta.”

Na vida pessoal, ela sabe dos problemas que, se mal usada, a falta de informação sobre sexo e a busca por ela na pornografia podem causar. Por isso, conversa com o filho de 12 anos sobre “absolutamente tudo”, algo incomum, segundo pesquisa Datafolha, que mostrou que apenas 40% dos jovens conversam com os pais sobre a vida sexual.

Recentemente, Fada se sentiu orgulhosa quando o filho contou ter dito para meninas que viram uma camisinha na mochila de um jovem que, ao invés de ficarem com nojo, deveriam achar positivo. “Ele explicou que aquilo impede que elas engravidem ou peguem doenças.”

O acesso à informação, o respeito e a ausência de julgamentos são pontos que podem ajudar gerações mais jovens a não deixar o tesão apenas no virtual, concordam especialistas ouvidos para esta reportagem. É a opinião também de Gabe Spec, profissional do sexo e embaixador da plataforma de anúncios de acompanhantes Fatal Model.

Percebendo que a pornografia da grande indústria, embora venha mudando, ainda coloca o homem no papel de poder e a mulher, no de submissão, ele cria alguns conteúdos na tentativa de deixar o tema menos nocivo. “Gosto de trabalhar o aspecto educacional”, diz. No TikTok, por exemplo, ele fala principalmente para mulheres sobre a importância do consentimento e a falência da ideia do homem “comedor”. 

Mas não foi sempre assim. Quando começou, há cerca de quatro anos, Gabe fazia mais cenas de penetração e, ao longo do tempo, passou a priorizar também beijos, trocas de olhares e sorrisos. “É perigoso quando a educação sexual acontece apenas pela pornografia”, afirma. “Vamos supor que o rapaz começa a assistir aos 16 anos e vai ter a primeira experiência real aos 19 ou 20. Ele foi educado vendo a performance na tela, e isso vai gerar uma ansiedade que pode fazê-lo brochar. E, aí, começamos a ter uma geração de pessoas sexualmente frustradas.”

Para a atriz e diretora Janaina Leite, que, na pandemia, trabalhou em um projeto antropológico em que se colocou como aprendiz de camgirl, esse imaginário formado pelo que vimos no celular vai além do pornô: “Nossa ideia do que somos está se expandindo a partir da relação com o virtual. A gente pode estar caminhando para um amortecimento para evitar o transtorno que é a convivência. E talvez a gente prefira fazer terapia com uma máquina ou namorar robôs”.

Nesse caminho, segundo o filósofo e ensaísta sul-coreano Byung-Chul Han, estamos matando as relações humanas, como ele escreve no livro A Agonia de Eros. O escritor argumenta que a atração nasce do jogo de esconder e revelar e que, na sociedade atual, em que a exposição é permanente, isso acaba não existindo.

“Em termos psicanalíticos, a gente trata o tesão como uma pulsão de vida, e estamos perdendo isso.”
Thiago Alixandre

“Em termos psicanalíticos, a gente trata o tesão como uma pulsão de vida, e estamos perdendo isso”, afirma Thiago Alixandre, filósofo e artista que pesquisa a pornocracia, quando o obsceno invade a esfera política.

Segundo ele, estamos com déficit de tesão de forma geral, não só quando o assunto é sexo. “Quem hoje se localiza sem usar o GPS para dirigir? Isso era uma competência humana que está se perdendo. Quando o assunto é erotização, ninguém mais flerta sem o aplicativo. É uma habilidade cognitiva que foi transferida por procuração à tecnologia.”

Alixandre destaca que isso vem do fato de estarmos em uma rolagem infinita de estímulos dopaminérgicos, um ambiente em que qualquer coisa é possível. “A pessoa joga no buscador que tipo de corpo ela fantasia e, quando chega ao encontro real, o tesão não vem com a gordurinha, a secreção, o suor, o cheiro…”

Ao pensar no processo de morte do tesão resultante da forma como vivemos, o filósofo propõe uma reflexão: “Podemos pensar no que alimenta o tesão.” Mas o que o alimenta? “Para começar, a gente precisa do atrito para sentir tesão, então, vamos voltar ao analógico”, diz Alixandre.

O desafio para transarmos mais e melhor não é parar de consumir pornografia online, mas recuperar o espaço que o excesso de estímulos da tela parece ter ocupado na nossa vida. Se o desejo nasce do atrito – e da vulnerabilidade –, é hora de apostarmos de novo nos encontros, na paquera, na espera, no toque. E deixar de tentar encontrá-lo onde tudo está disponível.

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