Como repórter, sempre me senti desafiada a tratar de tabus. Sexualidade, morte, aborto, suicídio são pautas que me despertam interesse. Sinto também um prazer enorme em ouvir e contar histórias de pessoas. Faço isso há exatos 25 anos e ainda não cansei. Assim, recebi com entusiasmo a proposta de integrar a equipe do podcast Quando são elas que traem, que chega às plataformas de áudio nesta sexta (28.08). São nove episódios sobre histórias reais de mulheres que foram infiéis a seus parceiros e parceiras – um baita tabu. Ou melhor, vários em um mesmo pacote.

Temos, em um só comportamento, a infidelidade propriamente dita e o peso do fator de gênero sobre a questão, desdobrado em três: a traição praticada pelas mulheres, o desejo feminino realizado e a história contada pela óptica delas – e não deles, como de costume. Os episódios são todos narrados a partir da perspectiva das entrevistadas e a equipe central do podcast é toda formada por mulheres.

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Desde Homero, as histórias de traição são contadas por eles. Falar abertamente sobre mulheres que traem parece urgente. Ciúme e suspeita de traição estão entre as principais causas de feminicídio no Brasil. Um levantamento realizado anualmente pelo Instituto de Segurança Pública no Rio de Janeiro mostrou que essas foram as motivações para um terço das mortes pelo crime em 2025 naquele estado. Isso sem contar os casos de outras violências cometidas pelos mesmos motivos.

Mostrar que as mulheres também sentem atração por pessoas fora do casamento e que são capazes de colocar o próprio desejo na frente de outras prioridades é, quem sabe, uma forma de diminuir o impacto dessa atitude. “A ideia não é normalizar a traição, muito menos julgar as entrevistadas. A missão do podcast é abrir a escuta e contar essas histórias justamente para desconstruir um tabu que tem custado a vida das mulheres”, diz Tai Valente, locutora e idealizadora de Quando são elas que traem. Tai é um pseudônimo, por segurança, o que mostra o risco de se falar sobre esse tabu.

Em janeiro, quando aceitei fazer parte do projeto, eu conhecia a delicadeza do tema, é claro. Mas não tinha consciência da dimensão do tabu. Minha tarefa, então, parecia prazerosa e simples: encontrar candidatas que topassem contar suas experiências, entrevistá-las e transformar os depoimentos em roteiros para serem narrados em terceira pessoa pela Tai.

“A ideia não é normalizar a traição, muito menos julgar as entrevistadas” Tai Valente

Mas, depois de tantos anos de carreira, posso afirmar com tranquilidade: nunca tive tanta dificuldade para conseguir entrevistadas. E, veja bem, Tai teve ideia do podcast justamente pela grande quantidade de mulheres que contam suas histórias espontaneamente para ela.

Só que uma coisa é revelar um segredo na intimidade, para alguém em quem confiamos. Outra é contar em detalhes a uma estranha portando um gravador. Foram várias negativas ou desistências. “Agora estou em um momento muito bom, não quero tocar mais nesse assunto”, disse uma das mulheres que chegou a propor datas para a entrevista, mas, semanas depois, voltou atrás.

Nas conversas, nova surpresa: senti certo pudor e constrangimento antes de fazer certas perguntas. Tive receio de que elas desistissem no meio da gravação. Felizmente, não aconteceu. Depois da terceira entrevistada, eu já tinha também confirmado uma suspeita: para elas, contar a própria experiência em voz alta e ter a oportunidade de organizar o que viveram em uma narrativa mais ou menos coerente, foi bom. Uma das entrevistadas me escreveu dias depois dizendo que, finalmente, conseguiu olhar para si mesma com mais generosidade. Era um sinal de que a gente estava no caminho certo.

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A escrita do roteiro levou muitas semanas, horas de reuniões e trocas por WhatsApp para chegar ao formato ideal. Em histórias tão cheias de meandros e complexidades, como eleger a melhor passagem para abrir a narrativa? Como tornar mais evidente um ou outro sentimento sem expor ou julgar as entrevistadas? E, acima de tudo, como preservar a segurança de todas?

Uma das medidas foi proteger os áudios e as transcrições: só eu tenho acesso integral ao material. Também sou a única que sabe o  nome verdadeiro de cada entrevistada. Os delas e os das pessoas envolvidas nas histórias foram alterados.

Ao final dessa temporada, é possível tirar algumas conclusões sobre infidelidade feminina: 1) Não existe perfil único para a mulher que trai. Ouvimos histórias de gente de variadas idades, origens, localidades e orientações sexuais, políticas e religiosas; 2) Muitas das entrevistadas viviam relacionamentos ruins que acabaram as tornando mais suscetíveis a trair, seja por vingança ou para atender um desejo ou uma necessidade que não estavam sendo contemplados no casamento. Mas não dá para colocar sempre a culpa no parceiro ou na relação. A infidelidade é uma experiência individual; 3) Falar sobre o assunto abertamente é uma forma de mostrar que ele acontece e, portanto, legitimar o que as mulheres sentem, sem juízo moral; 4) Muitas delas traíram os parceiros porque o contrário seria trair elas mesmas, passando por cima de seus desejos e necessidades; 5) A monogamia existe, sim. Mas não para a vida toda.

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Se entrei para o projeto encarando o assunto até com certo humor malicioso, termino de maneira muito diferente. Trago comigo, sim, a sensação de conquista das mulheres que, assumindo seu desejo, transformaram a própria vida. Não controlo meu romantismo diante das histórias de amor e acho um verdadeiro tesão as passagens mais picantes dos depoimentos. Mas encerro esta temporada consciente do sofrimento que essas experiências causam às mulheres.

Se, como adverte a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, existe um perigo imenso em contar uma história única, as histórias de Quando são elas que traem contribuem para a diversidade também na forma como encaramos um comportamento tão antigo quanto os relacionamentos românticos. Com o podcast, mudamos a via e ampliamos a visão. Como escreveu Rebecca Solnit: “Ao redefinirmos qual voz há de se valorizar, redefinimos a nossa sociedade e os seus valores”.

Giuliana Bergamo é roteirista e entrevistadora de Quando são elas que traem.