Na quinta-feira (23.07), saiu uma matéria na Vogue Business sobre a retomada da tendência Brazilcore. A reportagem contextualiza o interesse pelo verde e amarelo (embalado pela Copa do Mundo de Futebol) e fala como marcas daqui podem aproveitar a demanda. Ou poderiam. Na data da publicação, os Estados Unidos anunciaram tarifas de 12,5% sobre a importação de produtos brasileiros. Um dia antes, entrou em vigor outra cobrança alfandegária, essa de 25%. No intervalo de 48 horas, algumas mercadorias nacionais acumularam taxas de 37,5%.
O que isso significa? Significa que roupas e acessórios de empresas brasileiras vão ficar um tanto mais caros nos Estados Unidos. Quer dizer, se essas companhias repassarem os novos custos tributários para o consumidor ou para o importador. As alternativas são arcar com os gastos (e lucrar menos) ou reduzir o volume de exportação (mais provável). Nenhuma é boa. A competitividade dos produtos made in Brazil cai consideravelmente.
Mas tarifas de novo? O primeiro tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump foi anunciado em abril de 2025. Vários vaivéns e negociações bilaterais depois, as taxas propostas inicialmente foram revistas, alteradas, reduzidas, revogadas, postergadas, reconsideradas. Tudo muito caso a caso e bastante incerto.
Em fevereiro, a Suprema Corte dos Estados Unidos determinou que as tarifas eram ilegais e, portanto, estavam revogadas. De acordo com a decisão, o presidente não poderia tê-las imposto sem autorização do Congresso.
Trump, então, recorreu à Seção 122 da lei comercial de 1974, que permite a taxação de países com problemas graves de balanço de pagamentos em até 15% por 150 dias, sem análise prévia nem consulta parlamentar. Enquanto isso, mandou o Escritório do Representante do Comércio dos EUA (USTR, a sigla em inglês) investigar os parceiros comerciais para implementar novas cobranças apoiadas em outros aparatos legais ao fim do prazo de 150 dias.
Os 25% sobre algumas exportações nossas (existem categorias isentas, como carne, café, suco de laranja, petróleo) decorrem de uma dessas investigações – exclusivamente conduzida aqui. Foram considerados pontos sensíveis da relação comercial entre Brasil e Estados Unidos: da compra e venda de etanol ao Pix e tentativa de regulamentação das redes sociais. Todos avaliados como prejudiciais ou desproporcionais para eles, à revelia dos fatos.
Já os 12,5% são fruto de uma investigação sobre falhas no combate ao trabalho forçado que atinge 60 nações fornecedoras do mercado estadunidense. É importante frisar que o relatório final não afirma nem examina se os produtos dos países listados são feitos com mão de obra forçada. Tampouco constata se o que eles importam é fabricado da mesma maneira. O que a USTR leva em conta é se o país possui e está aplicando uma proibição formal para bens importados com o uso de trabalho forçado – e se comunica essas medidas.
(Trabalho forçado, conforme a Organização Internacional do Trabalho, é todo trabalho ou serviço exigido de uma pessoa sob a ameaça de punição e para o qual ela não se ofereceu voluntariamente.)
A premissa nas duas situações é a alegada desvantagem comercial do made in USA.
Exportamos tanto assim para os Estados Unidos? Depende do ponto de vista. Por exemplo, dos quase 850 milhões de pares de sapatos feitos no Brasil anualmente, 88% são consumidos internamente. Proporcional e numericamente, pode não ser tão expressivo. Em termos financeiros, é outra coisa. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), cerca de 20% das exportações do segmento são destinadas aos Estados Unidos. Só no primeiro semestre essas transações somaram 82,3 milhões de dólares. Com as novas tarifas, a previsão é de retração de 7,1% nas vendas.
No setor de vestuário, não é muito diferente. Dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) indicam que aproximadamente 35% das exportações de moda praia vão para o mercado estadunidense. Entre vestidos e saias, são 30%. Boa parte disso provém de pequenas e médias empresas, sem recursos para absorver custos extras.
Por que estão falando das taxas das blusinhas? Além daquelas alternativas mencionadas anteriormente, duas outras são recorrer a outros mercados externos (complicado no atual cenário econômico e político global) e investir no interno. Acontece que, conforme o empresariado, não tem como competir com a inundação de mercadorias baratas, em sua maioria vindas de países asiáticos.
Quase dois anos após sua implementação, a chamada taxa das blusinhas foi revogada em maio, zerando o imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até 50 dólares. A medida foi duramente criticada por representantes industriais, sobretudo com base em argumentos de isonomia tributária (cobram-se muitos impostos de produtos brasileiros e pouco de gringos). Agora, o baque previsto pelo novo tarifaço é um bom pretexto para rever a decisão.

Luigi Torre é diretor de reportagem de moda da ELLE Brasil.
Texto originalmente publicado na newsletter RE-SEE, enviada às terças-feiras.