Sapatos são objeto de desejo, fetiche e a base para qualquer look. Mas, além da moda, eles também deixam suas marcas no cinema, na música e na literatura.  

Quem nunca sonhou em ter um closet tão recheado quanto o de Carrie Bradshaw em Sex and the city e And just like that ou o tênis que tinha seus cadarços amarrados automaticamente em De volta para o futuro?

A seguir, ELLE elege dez momentos em que os sapatos foram protagonistas na cultura.

Os sapatos de cristal de Cinderela

De todos os sapatos da literatura, do cinema e da música, nenhum é tão universalmente conhecido quanto os (pouco práticos, vamos ser sinceros) sapatinhos de cristal de Cinderela. A personagem existe nas lendas e mitologias desde a Grécia Antiga, com a cortesã Rodópis perdendo sua sandália e se tornando a mulher do rei do Egito. Ela também aparece em histórias de outras partes da Europa e da Ásia, além da Cenerentola colocada no papel pelo napolitano Giambattista Basile em 1634. Mas o modelo de vidro só apareceu na obra de Charles Perrault, publicada em 1697, e sob o nome Cendrillon. Foi ele também que introduziu a Fada Madrinha e a abóbora transformada em carruagem. Mais tarde, os Irmãos Grimm escreveram sua versão, mais violenta, com sapatinhos dourados. Mas foi a de Perrault que acabou influenciando a animação da Disney, Cinderela (1950), dirigida por Clyde Geronimi, Hamilton Luske e Wilfred Jackson, que ganhou adaptação live action de Kenneth Branagh em 2015, com Lily James e Cate Blanchett, como a protagonista e a madrasta, respectivamente.

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Foto: Andy Kropa/Getty Images

Os sapatos de rubi de Dorothy em O mágico de Oz

Com três batidinhas dos calcanhares, os sapatos de rubi dados por Glinda, a Bruxa Boa, levam Dorothy (Judy Garland) a qualquer parte em O mágico de Oz (1939), de Victor Fleming. Mas você sabia que, originalmente, eles não eram vermelhos? No romance de L. Frank Baum, publicado em 1900, a menina vinda de Kansas que vai parar na Terra Mágica ganhava calçados prateados. Foi o roteirista Noel Langley que decidiu transformá-los em rubis para tirar proveito do technicolor – filmagem com câmeras com filtros coloridos, dando ao filme um visual vibrante. Por causa de direitos autorais, na versão cinematográfica do musical de Wicked (2024), os sapatinhos voltaram a ser de diamantes. Os modelos do filme da década de 1930 eram de seda branca, tingida de vermelho e bordada com 2.300 paetês. Ninguém sabe quantas unidades foram feitas, mas o Museu Smithsonian, em Washington D.C., e o Museu da Academia em Los Angeles têm exemplares. Em 2024, um par que ficou desaparecido entre 2005 e 2018 depois de ser roubado do Museu Judy Garland, em Grand Rapids, Minnesota, foi leiloado por exorbitantes US$ 32 milhões (cerca de R$ 163 milhões).

Os blue suede shoes de Elvis Presley

Um dos primeiros e maiores sucessos na voz de Elvis Presley, lançado pelo cantor estadunidense em 1956, “Blue suede shoes” é, na verdade, um cover. A canção foi composta e gravada um ano antes por Carl Perkins. Ele teria pensado na letra depois de ouvir um rapaz em um baile reclamar com seu par que ela tinha pisado em seus sapatos de camurça. Perkins achou engraçado o homem se importar mais com isso do que com a moça com quem estava. Mas há uma versão em que Johnny Cash teria contado a Perkins sobre um aviador negro conhecido pelo cantor quando servia na Alemanha, mencionando os sapatos usados por eles como “blue suede shoes”. Cash disse que ele sugeriu a Perkins escrever uma música sobre isso durante uma turnê pelo sul dos Estados Unidos na qual ambos se apresentavam.

As botas de Nancy Sinatra

Filha de Frank Sinatra, Nancy tornou-se ícone pop, fashion e feminista graças a “These boots are made for walkin”, composição de Lee Hazlewood que ela insistiu em gravar (o título apareceria anos depois em pares da Off-White, de Virgil Abloh). A canção foi inspirada por uma frase de Sinatra no western Os quatro heróis do Texas (1963) e fala sobre abandonar um amor infiel ou que lhe faz mal. Hazlewood achava que a música deveria ser interpretada por um homem, mas Nancy o convenceu de que, dessa forma, parecia até abusiva, mas era perfeita para uma “garotinha”. E ela estava certa. Tanto na capa do álbum Boots (1966) quanto em uma espécie de precursor de videoclipe que lançou, cercada de go-go dancers, ela aparece com sua marca registrada: botas de couro de cano alto, que ela ajudou a popularizar nos anos 1960.

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O mocassim preto com meia branca de Michael Jackson

Como tudo quando se trata do cantor, que usava até esparadrapos nos dedos para chamar a atenção ao movimento deles nas coreografias, o mocassim preto combinado com a meia branca tinha uma razão para existir. Michael preferia os mocassins, em geral os Florsheim Imperial Kenmoor, em vez de tênis ou botas, porque a sola lisa, de couro, permitia que deslizasse melhor sobre o palco, e os saltos eram discretos o suficiente para não atrapalhar, mas com tamanho para dar elegância aos passos. A meia branca, seja a bordada com cristais Swarovski da primeira apresentação de “Billie Jean” com o moonwalk no show comemorativo Motown 25, em 1983, ou as slouch, que acumulavam nos tornozelos, captavam a luz do palco e chamavam a atenção para a precisão dos movimentos.

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Foto: Reprodução

O tênis de De volta para o futuro 2

O cinema frequentemente imagina o que está por vir. Na sequência de De volta para o futuro (1985), lançada em 1989 e dirigida por Robert Zemeckis, Marty McFly (Michael J. Fox) viaja para 2015, onde existem videoconferências, óculos inteligentes, casas automatizadas com comando de voz e tablets, que eram todos objetos de ficção científica na época do lançamento. Outros não chegaram até hoje, como os hoverboards (skates voadores), carros voadores e tênis Nike que amarram cadarços sem ajuda humana. No set, um membro da equipe precisava puxar os cadarços manualmente, em um truque de filmagem. Anos mais tarde, em 2011, a Nike decidiu fazer o Air Mag, inspirado pelo longa-metragem, em parceria com a Fundação Michael J. Fox para a Pesquisa de Parkinson – o ator convive com a doença. Os 1.500 pares fabricados renderam US$ 10 milhões (cerca de R$ 51 milhões) em um leilão para essa ação. Em 2016, eles fizeram uma nova versão, com 89 pares, arrecadando US$ 6,7 milhões (mais ou menos R$ 34 milhões).

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Foto: Reprodução

As botas de cano longo de Julia Roberts de Uma linda mulher

Poucos filmes captaram tão bem um makeover quanto a comédia romântica dirigida por Garry Marshall em 1990. A trabalhadora do sexo Vivian Ward (Julia Roberts) é contratada pelo executivo Edward Lewis (Richard Gere) para acompanhá-lo a eventos sociais em Los Angeles, o que, claro, acaba dando em romance. Ela ganha um vestido vermelho para ir à ópera e outro marrom com bolinhas brancas para um jogo de polo, ambos bem comportados e desenhados pela figurinista Marilyn Vance. Mas a peça mais memorável é anterior à transformação: em suas primeiras cenas, Vivian usa roupas decotadas e botas de couro acima dos joelhos, que aparecem no cartaz do filme. O modelo de couro preto, de bico fino e saltos de 9 centímetros foi encontrado pela equipe de figurino na loja NaNa, uma boutique de moda alternativa e punk, no bairro de Chelsea, em Londres.

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Os Manolos de Carrie em Sex and the city 

Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) é praticamente sinônimo de sapatos. Embora ela tivesse de todas as grifes, incluindo Chanel, Louboutin e Jimmy Choo, seus queridinhos sempre foram seus Manolo Blahnik. Foi Sex and the city (1998-2004) que popularizou a grife, antes um segredo bem guardado de fashionistas. Na terceira temporada, ela implorou para um ladrão não levar seu par favorito em um assalto. Na quarta, com a ajuda de Miranda, caiu na real de que seus cem pares de sapato, que custavam na época cerca de US$ 400 (cerca de R$ 2 mil) cada, somavam US$ 40 mil (ou R$ 205 mil), o suficiente para dar entrada em um apartamento. “Eu literalmente serei a velhinha que viveu em seus sapatos”, diz a personagem. Na sexta temporada, ela celebra sua independência decidindo “se casar” consigo mesma e coloca Manolos na lista de casamento. Quando seu amado Mr. Big (Chris Noth) finalmente pede sua mão, em Sex and the city: O filme (2008), em vez de um anel, ele carrega um Manolo – mais precisamente, um Hangisi Satin Pump, que hoje custa US$ 1.450 (R$ 7.400). Na continuação da série, And just like that… (2021-2025), a grife continua presente, mas também há espaço para outras, como Aquazzura e Maison Margiela.

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Foto: Reprodução

O tênis Onitsuka Tiger de Kill Bill

O macacão amarelo com listras pretas e o tênis igualmente amarelo com listras pretas Mexico 66 da Onitsuka Tiger usados por Beatrix Kiddo, ou A Noiva (Uma Thurman), nos dois volumes de Kill Bill, viraram febre no início dos anos 2000. Foram vistos nos Halloweens mundo afora desde os lançamentos dos dois filmes, em 2003 e 2004. Os tênis foram criados dois anos antes da Copa do Mundo do México, em 1968, pela marca japonesa Onitsuka Tiger (que depois foi incorparada à ASICS e é vendida até hoje com esse nome). Como acontece frequentemente na obra de Quentin Tarantino, o figurino é uma homenagem, uma referência ou uma reciclagem de algo que ele se apropria e mistura em um caldeirão pop que é a sua cara. No caso, o macacão e o tênis vêm de uma das maiores referências de Tarantino, o cinema de ação asiático, mais precisamente Bruce Lee. O astro das artes marciais usou o combo em Jogo da morte, que ele rodou parcialmente em 1972 e deixou incompleto – o ator e diretor morreu de edema cerebral em 1973, aos 32 anos.

maria antonieta

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O Converse em Maria Antonieta

O retrato impressionista e não realista feito por Sofia Coppola sobre a rainha que acabou decapitada na Revolução Francesa não foi bem compreendido na época de seu lançamento, em 2006. Em sua estreia no Festival de Cannes, houve vaias, inclusive. Tudo porque a cineasta estadunidense deu uma roupagem contemporânea à história da adolescente austríaca inserida na luxuosa corte no Palácio de Versalhes, utilizando, por exemplo, canções pop modernas para embalar sua história. Em uma das cenas de excessos fashion da personagem interpretada por Kirsten Dunst, um tênis Converse aparece ao lado das reinterpretações dos sapatos de época criados por Manolo Blahnik. Curiosamente, quem filmou essas imagens foi o irmão de Sofia, Roman, também roteirista e diretor. O par pertencia a uma stand-in (uma pessoa que ocupa o lugar da atriz para ajuste de foco, câmera e luz), e Roman teve a ideia na hora, sem pensar muito nem consultar a irmã. Para ele, estava no espírito do filme, de falar sobre pessoas jovens presas em uma gaiola de ouro e tentando se divertir. Estava certo.

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