– Por onde começamos?
– O que é um edema na região interaritenoidea?
– É um achado de laringoscopia, e não necessariamente uma doença por si só.
– Qual é a causa mais comum?
– Refluxo laringofaríngeo (refluxo “silencioso”). Se você quiser, me mande o texto completo do seu exame de laringoscopia e eu posso explicar item por item em linguagem simples.
– Calma. Primeiro eu quero saber o que é um refluxo laringofaríngeo.
– É quando o ácido e as enzimas do estômago sobem pelo esôfago e irritam a mucosa da garganta e da laringe. Se você quiser posso mostrar um gráfico do caminho do ácido ou um desenho anatômico do sistema digestivo.
Bastou uma conversa de 107 palavras com o Chat GPT pra Arthur ficar enjoado. Não, na verdade bastaram a conversa, a leitura ansiosa e uma pitadinha de hipocondria para ele ter a certeza de que era portador de um caso raro de estômago e esôfago peludos. E não, não queria ver o desenho anatômico do sistema digestivo porque o enjoo já era o suficiente pra lhe colocar na cama só de imaginar. Fechou o computador no sopapo. Depois abriu de novo pra produzir um atestado médico falso com CRM, carimbo, assinatura e tudo, 8 dias. Hoje era sexta, voltaria na semana que vem vem – CID10 K21.9, que, inclusive, só abona falta de um expediente no momento do atendimento. Colou. Quem lê CID de atestado?
Embora ele mesmo tenha criado o documento, pensou que retornaria ao Dr. Alfredo Émoro (o do atestado) e não à Dra Juliana Sanches Leroy (a de verdade, que lhe pediu o exame). É que a Dra Juliana parece que não levou a sério a queixa da queimação. Disse que não era preciso se preocupar, “há tratamento, quase 20% da população convive com essa condição, 1 em cada 5 pessoas, cerca de 68,6% são mulheres e 31,4% homens”. Uma doença meio feminina. Não, não. Arthur não.
É que o refluxo dele era colateral, quase um sintoma da real condição, esta sim, absolutamente masculina dos pelos no estômago e no esôfago. Perguntou ao Chat se compartilhava o mal com alguma criatura viva, ao que ele respondeu que sim: “O nome médico é tricobezoar: uma massa formada principalmente por cabelos/pelos que foram engolidos e se acumularam no trato gastrointestinal”. Pesquisou até a última gaveta da memória e concluiu que não, nunca, nunquinha, havia engolido cabelos. Era portanto um caso de folículo piloso, bulbo capilar e células produzindo queratina.
Deixou entrar orgulho no espaço onde havia somente náusea e medo.
Deixou entrar orgulho no espaço onde havia somente náusea e medo. É muita masculinidade mesmo ser peludo até pro lado de dentro. O Chat confirmou que não havia casos documentados entre mulheres, claro, nem entre homens, mesmo os com níveis hormonais fora do normal, testosterona no teto, sabe assim? Como era do universo das startups, se diria um unicórnio, não fossem os unicórnios bichos tão pouco másculos. Inundado do excesso de androgênios recém-descoberto, seguiu a conversa com o Chat:
– Há casos registrados de lobisomens em cujo aparelho digestivo tenha nascido pelos, ainda que no México?
– Sim — há casos médicos reais em que foram encontrados pelos dentro de estruturas do aparelho digestivo, mas isso não constitui evidência de lobisomens. O fenômeno que provavelmente está por trás de histórias desse tipo é o teratoma, um tumor que pode conter tecidos derivados de diferentes camadas embrionárias.
Ignorou as palavras tumor e teratoma – mesmo que hipocondríaco – já ultramacho e portanto sem espaço para duvidar das próprias convicções.
– Não. Não me refiro a tumores e sim crescimento espontâneo de pelos devido ao alto nível de testosterona encontrado tanto em lobisomens quanto em homens com masculinidade elevada.
– Você está falando de crescimento verdadeiro de pelos no interior do trato gastrointestinal, não de um teratoma que contém pelos. Neste sentido, a resposta é não: não encontrei casos médicos registrados de crescimento espontâneo de pelos na mucosa do estômago ou intestino atribuído à testosterona elevada.
Arthur Rosário de Jesus, first of his name, disse até meio alto. A mãe, que também lia o exame enviado no WhatsApp da família (ele, a namorada e ela) ouviu da cozinha. Enquanto saboreava as sílabas de ser o único no mundo, inclusive no México, a encharcar o corpo de hormônios androgênios, eles todos, saltando por cada poro, a não conter dentro de si, nem fora essa explosão de ser homem, voltou ao início da conversa com o Chat pra ouvir de novo as confirmações que buscou desde menino. Era o macho mais macho da macholândia e, não, era ele que tava dizendo não. Tá aqui ó, escrito no exame. Tá na dúvida, vai lá brigar com o a+ Medicina Diagnóstica.
Foi aí que releu: “É quando o ácido e as enzimas do estômago sobem pelo esôfago”. Meu Deus, será que o ácido e as enzimas seriam capazes de depilar os pelos? Não. Os pelos eram dele, fabricados por ele, não há espaço para depilação em um cenário tão viril. Gritou pela mãe em desespero.
Dona Dalva resolveu com beijinhos e Magnésia Bisurada.
Ah, quase esqueci, o retorno na Dra Juliana ficou pra quinta-feira agora. Dona Dalva que marcou.

Roberta D’Albuquerque é psicanalista e coautora do livro Quem manda aqui sou eu (HarperCollins). Atende no seu consultório em São Paulo e escreve crônicas por aqui. Acompanhe-a também em @robertadalbuquerque.
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