Diogo Nogueira celebra 20 anos de carreira em show

Cantor carioca fala sobre samba, intolerância religiosa, sua paixão pela gastronomia e o término de seu relacionamento.


Diogo Nogueira
Foto: Priscila Padre



“Demorei a perceber que tinha uma missão, um caminho de seguir a história desta família, que vem do meu avô, do meu pai, da minha tia”, afirma Diogo Nogueira, 44 anos, sobre o ofício de cantor, que adotou reproduzindo a história de seu pai, o compositor e cantor de samba João Nogueira (1941-2000), e do avô, também João Nogueira, que tocou com Pixinguinha e Noel Rosa.

É essa linhagem que ele procura honrar na recém-iniciada turnê de celebração por seus 20 anos de carreira musical, batizada Infinito samba, que começou no Rio de Janeiro no dia 1º de março e chega a São Paulo nesta sexta-feira (6.3) e passará por diversas capitais até junho.

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O novo espetáculo traz como novidades uma orquestra de 34 músicos o tempo todo no palco, releituras de canções de Roberto Carlos e Caetano Veloso e uma homenagem explícita à agora ex-companheira, a atriz Paolla Oliveira.

Antes de se decidir pela música, o futuro cantor chegou a iniciar uma trajetória de jogador de futebol, no Cruzeiro de Porto Alegre, interrompida precocemente depois de uma lesão no joelho. Só decidiu abraçar a carreira de cantor cinco anos depois da morte do pai, um personagem central na história do samba dos anos 1970 e 1980, como autor de sucessos gravados por Clara Nunes, Martinho da Vila, Beth Carvalho, Emílio Santiago e Elis Regina.

Na entrevista a seguir, Diogo fala de temas diversos como a forte presença do pai em sua obra, sua íntima ligação com a religiosidade afro-brasileira e com a gastronomia, a atuação como compositor de samba-enredo e a separação após cinco anos de relacionamento de Paolla Oliveira, que tem movimentando a mídia.

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Foto: Priscila Padre

Você frequentemente canta músicas do seu pai. Ele ainda é muito presente na sua carreira?
Ele faleceu em 2000, quando eu tinha 19 anos. Minha relação com meu pai sempre foi muito intensa. Desde muito pequeno ele sempre me levava para as peladas e para algumas rodas de samba. Vivi muitas coisas com meu pai na minha infância e adolescência. Todas as vezes que a gente ia para o Maracanã, ele falava: “Quem sabe um dia ainda vou ver você jogando nesse gramado”. Me apoiava, me levava, ia aos jogos, aos treinos, dava conselhos. Apesar de ter me deixado muito jovem, bem no meio da transição entre o adolescente e o adulto, ele sempre foi muito vivo (presente), não só comigo, mas com minhas três irmãs.  

Você se virou para a música depois disso? Ou seria assim de qualquer jeito?
Não foi imediato. Depois de cinco anos (da morte do pai), comecei a entender que existia uma missão, um caminho. Demorei a ter a percepção da história dessa família, que vem do meu avô, do meu pai, da minha tia, dos meus primos. Todos se envolveram com música, principalmente com o samba. Meu avô tocou violão com Pixinguinha, João da Baiana, Jacob do Bandolim e Noel Rosa. Pixinguinha frequentava a casa da minha avó. Meu pai contava que, na sua infância, criança não podia ficar na sala junto com os adultos. Eles colocavam meu pai para dormir, mas as casas tinham aquelas fechaduras grandes que quando você bota o olho consegue ver através do buraco. Ele ouvia as serestas, as discussões, ficava curioso e levantava para ver. Quando olhava pela fechadura, estavam lá Pixinguinha, Jacob do Bandolim.

“Fiz uma homenagem à mulher que tive o prazer de conhecer e de conviver durante um período. Acho que isso precisa ser falado e valorizado”

Você também olhou por algum buraco de fechadura? O que viu?
(Risos) Vivi muito isso. Meu pai era um cara muito festeiro, fazia as festas em casa. Muitos artistas, como Beth Carvalho, Agepê, Roberto Ribeiro, Fafá de Belém e Martinho da Vila tinham uma amizade muito grande com meu pai e frequentavam minha casa. Via isso o tempo inteiro, só não precisava da fechadura, porque já não era mais proibido ficar na sala.

Como foi decidir seguir carreira na música tendo esse histórico com todos esses artistas? No seu caso, você tem uma voz e alguns traços parecidos com os do seu pai.
Sou espírita, então acredito muito em missão. Acho que a minha é dar continuidade, sempre trazendo de volta essa memória dos mais antigos, de quem construiu e pavimentou uma história da música brasileira. Obviamente, trazendo uma coisa contemporânea junto, para poder dar sequência e fazer com que as pessoas saibam que existiu um passado riquíssimo e maravilhoso, sem ser saudosista, mas reverenciando aquilo que nos construiu e construiu este país.

A turnê comemorativa dos 20 anos de carreira incorpora uma orquestra inteira?
Sim. Sempre sonhei em ter uma orquestra sinfônica junto à minha banda de samba. Essa soma do erudito e do popular é de uma grandiosidade tão bonita e dá um balanço, uma riqueza para a música brasileira em geral.

“Para quebrar muitos paradigmas e muitos pensamentos, resolvi fazer não um programa, mas pílulas que falam sobre as comidas de santo que existem no Rio de Janeiro, na Bahia e em todo lugar do Brasil”

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Roberto Carlos tem uma música (“A atriz”, de 1985) que fala “vejam só vocês que foi que eu fiz/ fui me apaixonar por uma atriz”. Como é se apaixonar e como é se separar de uma atriz?
Cara, a gente teve um relacionamento muito sincero, muito bonito. Foram cinco anos incríveis. Vivi com uma mulher que só somou na minha vida, e tenho certeza que somei muito na dela. Tem momentos que acontecem e o ciclo se acaba, e ele se acabou. A gente entendeu isso e conversou com uma maturidade assim tão grandiosa, tão bonita. Nunca brigamos, nunca tivemos problema algum, sempre fomos muito sincero um com outro. Chegou num momento que um falou “não dá mais”, e o outro disse “olha só, não está dando nem pra mim”. Então, vamos resolver isso ao invés de ficar querendo prolongar uma situação e aí um enganar o outro. Já que a gente se ama, vamos continuar se amando, só que cada um no seu lugar, com seu trabalho e suas coisas. Acabou o homem e a mulher, mas continuam, sim, o os amigos para sempre, para trocar ideias, palavras de amizade. Foi assim que aconteceu e é assim que vem acontecendo. Na estreia do Infinito samba no Rio, fiz uma homenagem a ela.

Muita gente está querendo entender a homenagem que você fez no show a Paolla, no momento em que você introduz o samba “Flor de Caña”, composta para ela em 2021, como um desejo de reconciliação. Pelo que você está dizendo não é isso?
Não existe desejo de reconciliação nem da minha parte nem da dela. Fiz uma homenagem à mulher que tive o prazer de conhecer e de conviver durante um período. Acho que isso precisa ser falado e valorizado. Não estou correndo atrás de Paolla, e nem ela de mim. Apenas estou fazendo uma homenagem ao momento que escrevi uma música para ela e que tenho certeza absoluta que é superjusta, que ela merece. Faz parte dos meus 20 anos de carreira, ela está dentro desse universo. Por que não fazer uma homenagem a uma pessoa que foi boa pra mim?

Seria o mais natural, mas a imprensa de fofoca tende a questionar…
Pois é, as pessoas vivem disso. Isso é uma das coisas mais tristes que podem acontecer ao ser humano, infelizmente. Tem pessoas que trabalham falando sobre fofoca, sobre coisas que, na verdade, a grande maioria é mentira. Vou continuar fazendo homenagem a ela porque é merecido, não tem nada a ver com estar correndo atrás dela. É completamente diferente a história, é muito maior que isso. Está tudo bem, gente (risos). Daqui a pouco as pessoas acostumam (risos).

Você faz uma série de vídeos no seu canal no YouTube chamada Comida de santo. É espírita ou do candomblé?
O candomblé é espírita. Para quebrar muitos paradigmas e muitos pensamentos, resolvi fazer não um programa, mas pílulas que falam sobre as comidas de santo que existem no Rio de Janeiro, na Bahia e em todo lugar do Brasil. Existem muitos restaurantes que fazem comidas de santo, às vezes as pessoas comem e nem sabem. Quando sabem, falam: “Meu Deus, isso é coisa do demônio!”. É o maior absurdo do mundo. Fiz para quebrar isso e para as pessoas terem um entendimento sobre o que é a comida de santo, que é um alimento. Tudo que a gente oferta aos orixás se come, serve para alimentar a comunidade. Resolvi fazer essas pílulas, que a gente vai voltar a gravar, para falar dos meus orixás, dos meus santos, que eu alimento, me alimentam e fazem com que eu tenha força para poder estar aqui cumprindo a minha missão. Foi um grande sucesso, teve justamente o resultado que eu queria, de fazer com que as pessoas entendessem que não existe maldade absolutamente nenhuma e não existe demônio nenhum, até porque não existe isso na minha religião.

É uma militância sua contra a intolerância religiosa, inclusive em forma de música?
Sim, é importante fazer com que as pessoas entendam que todos precisam se respeitar, independentemente da escolha de cada um. Quer você queira, quer não, vou cumprir minha missão.

Assim como a música, essa ligação com o candomblé é uma herança familiar?
Ela sempre me acompanhou, faz parte da família. Meu pai também era, mas não cuidava tanto quanto eu. Passei por igreja evangélica, católica, fui na umbanda, nos kardecistas, em todos os lugares, mas o lugar onde realmente me encontrei foi no candomblé. São três anos, sou bem jovem dentro da religião, mas tenho aprendido muito e tenho muito o que aprender ainda. Mas essa coisa de ter uma militância aconteceu de modo muito natural. Não foi proposital, foi porque alguma coisa me disse que eu precisava falar e deixar meu coração aberto sobre a intolerância religiosa ou racial. E tudo está entrelaçado. E porque o candomblé é de preto começa uma cadeia de intolerâncias.

De onde vem sua ligação com gastronomia, a ponto de apresentar programas sobre o assunto?É tudo de casa, por parte de mãe. Todos os meus tios e tias cozinham. Se você cresce nesse meio da cozinha, não tem como não aprender alguma coisa. Não sou chef, sou um cozinheiro, e até hoje ninguém reclamou, graças a Deus. Gosto de fazer, de receber meus amigos, minha família, de fazer essa comunhão. Porque é uma comunhão, como o samba é. Você reúne as pessoas, coloca amor naquilo que está fazendo. Não é diferente cozinhar e estar numa roda de samba. E aí tive a oportunidade de mostrar tudo isso que aprendi num programa de televisão na GNT (Diogo na Cozinha, exibido às quartas-feiras, às 22h), chamando convidados, artistas e pessoas que não conheço. Faço comida e fico trocando ideia, a gente fala sobre tudo, é bem relax.

Compor samba-enredo é um tipo de comunhão também?
Também, você tem que estar com alguns parceiros, com uma equipe, para poder fazer e ir até o final da disputa. Normalmente são cinco, seis, sete, às vezes até mais compositores. Aqui, no Rio, tive cinco sambas-enredos na avenida; no Espírito Santo, foram dois; em São Paulo, mais dois. Então são nove. Meu pai tentou pela Portela, mas ele teve uma briga lá e então fundou a Tradição. Em quatro anos, ele colocou a escola no grupo especial. Fez quatro sambas com Paulo César Pinheiro que colocaram uma escola de samba que saiu do nada, no Grupo Especial.

Como você trata moda e estilo no show Infinito samba? Há figurinos com influência japonesa.
Sempre gostei muito de alfaiataria e tenho visto Ricardo Almeida fazer uma desconstrução do tradicional e do moderno, que é muito o que faço no Infinito samba. Aí me juntei a ele, que é considerado um dos maiores alfaiates do Brasil, do mundo. Tem uma parte da linha dele que se chama RA2, que não tem nada a ver com o que ele faz para o dia a dia. É uma coisa mais específica, com essa pegada do tradicional com o moderno. Então, quis trazer, junto com Ricardo Almeida, isso para o palco, que é justamente o que estou fazendo. Foi um casamento muito bacana, está recebendo muitos elogios. Minha figurinista, Karen (Brusttolin), fez essa ponte com Ricardo para a gente poder fazer essa construção. E tem uma coisa também um pouco japonesa.

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