Russo Passapusso: “Preciso estar atento a tudo, até ao que não estou vendo”
À frente do BaianaSystem, ele comanda milhares de pessoas no Carnaval – e já inspirou até uma música de Caetano Veloso.
Um dos grandes destaques do carnaval de Salvador, o BaianaSystem coloca seu Navio Pirata na rua nesta sexta-feira (13.02), no circuito Barra-Ondina, no sábado (14) e na terça (17), no circuito Campo Grande. Na sequência, no sábado (21), chega a São Paulo. Tudo isso com uma turma de convidados que vai da atriz Alice Carvalho a Magareth Menezes. Confira a seguir a entrevista com Russo Passapusso, vocalista do coletivo musical, publicada no Volume 5 da ELLE Men, em agosto de 2025:
A voz de Russo Passapusso, 42 anos, ecoa e não só pelo fato de ser o cantor de uma das bandas mais influentes da música brasileira atual, o BaianaSystem. Ela ecoa no discurso antiviolência que leva para multidões durante o Carnaval e toda semana no programa Papo de segunda (GNT), em que são debatidos os assuntos da vez.
A tradição carnavalesca do coletivo começou em 2014, com um evento chamado Furdunço, em Salvador. A ideia era promover apresentações antes do início oficial da festa. Com o passar dos anos, o negócio ficou tão grande quanto o que acontece nos quatro dias de chuva, suor e cerveja. Desde então, as apresentações do grupo mobilizam a cidade e seguem fiéis à proposta de serem de graça e sem corda.
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Em 2025, o BaianaSystem reuniu cerca de 1,2 milhão de pessoas antes e durante o Carnaval de Salvador e outras 600 mil em São Paulo. Foi nesse ano que viralizou a cena em que Russo pede
para o público bater palmas para policiais que estavam agredindo os foliões, na capital baiana. Constrangidos, os PMs pararam a pancadaria. Interrupções em shows para intervir em casos de violência
contra mulheres também são comuns.
Essa atitude, aliás, inspirou Caetano Veloso a compor uma música para a banda. “Um baiana” foi apresentada na turnê do compositor com a irmã Maria Bethânia. “A ideia veio da animação não violenta que o BaianaSystem alimenta em Salvador, com as clareiras que se abrem na multidão para solos, duos, trios, todos mostrando a excitação carnavalesca sem truculência ou disputa. É a paz”, escreveu Caetano, em referência às rodas que se formam entre o público nas apresentações do grupo.
“É um trabalho de assistente social”, fala Russo. “Às vezes, componho para isso: ‘Polícia educada faz parte do povo/ Então guarda essa arma no cinto’”, continua, citando a letra de “Capim guiné”, single lançado pelo BaianaSystem em 2017. “Não posso me esconder. A voz é um instrumento. A minha comunicação se faz tão importante quanto o meu canto. Preciso estar atento a tudo, até ao que não estou vendo.”
Outros diferenciais são as letras políticas – “Lucro”, um dos seus maiores hits, critica a especulação imobiliária, “Sul-americano” traz uma mensagem anti-imperialista – e a mistura de estilos musicais – reggae jamaicano, cumbia colombiana, guitarra baiana e toda a diversidade percussiva dos ritmos afro-brasileiros.
Já é uma cena clássica do Carnaval de Salvador: um mar de gente, muitos usando a máscara que se tornou um dos elementos de identidade visual do grupo, cantando os versos engajados. O nome do trio elétrico do BaianaSystem, Navio Pirata, explica Russo, faz referência a essa multidão, além de desconstruir o termo “navio negreiro”.
Com cinco álbuns de estúdio lançados desde 2010, a banda tem uma agenda concorrida no restante do ano. Russo conversou com a ELLE Men em julho, recém-chegado de uma turnê de 12 dias pela Oceania, que emendou em outros shows pelo Brasil. Em setembro, o BaianaSystem viaja para a Europa e toca em dez cidades.
“Não rimo do meu jeito por causa do rap. Rimo assim por causa da Jamaica, e a conecto com o
sertão nordestino. É um ‘ragga-repente’”
No entorno do núcleo fundador do grupo (formado também pelo guitarrista Roberto Barreto e pelo baixista Seko Bass), há uma rede de colaboradores. Entre os parceiros frequentes estão de Gilberto Gil – com quem dividiram o álbum Gil Baiana ao vivo em Salvador (2019) – à roqueira Pitty até os rappers BNegão e Vandal.
Nessa engrenagem, a parceria de Russo com Antonio Carlos & Jocafi é um motor importante. A dupla baiana, que fez sucesso nos anos 1970 com músicas como “Você abusou” e “Mudei de ideia”, voltou a compor e gravar impulsionada por esse encontro intergeracional. Eles aparecem também em faixas de álbuns do BaianaSystem.
Em 2022, Russo e o duo lançaram ainda um disco de inéditas, Alto da maravilha. “A gente tem um mote chamado ‘dupla de três’”, explica o vocalista. Essa colaboração deve aparecer mais uma vez no próximo trabalho solo do artista, previsto para 2026. O primeiro, Paraíso da miragem
(2014), apresenta um cantor mais introspectivo e melódico, em comparação com o mestre de cerimônias que comanda a massa à frente do BaianaSystem. “É engraçado porque eu falo ‘solo’, mas
nunca penso em mim sozinho. Penso em ‘solo’ como ‘terra’. Um disco para adubar o solo coletivamente. Chegou a hora.”

Foto: Tauana Sofia
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A trajetória de Russo na música começou no chão, como MC do Ministereo Público. Formado em 2005 e com foco em música jamaicana, o coletivo reproduz a ideia dos sound systems da ilha caribenha (discotecagens com vinis potencializadas por grandes caixas de som e improvisos vocais) em festas de rua em Salvador. Nesse formato, DJs e cantores se apresentam na pista, no mesmo nível do público.
Russo reativou o Ministereo na Virada Cultural de São Paulo neste ano e tem planos de rodar o Brasil com ele. “Precisava que a galera me visse fora dos palcões. Retomar a conexão Bahia-Jamaica,
que me moldou como cantor do BaianaSystem. O Ministereo Público é a minha fundação”, explica. “Não rimo do meu jeito por causa do rap. Rimo assim por causa da Jamaica, e a conecto com o
sertão nordestino. É um ‘ragga-repente’. Com 42 anos, estou voltando para a escola, para o chão, para as minhas raízes.”
O aterramento, não por acaso, coincide com um período em que o artista tem cuidado mais de si. “Comecei a fazer terapia por causa da televisão. Antes a música era a minha terapia. ‘Flor de plástico’ é uma faixa que compus para lidar com a morte do meu pai (em 1996). Quando comecei a fazer o Papo de segunda (em 2024), um programa de opinião e ao vivo, percebi que precisava falar com alguém, me escutar”, reconhece. “Mas vamos à verdade? A televisão me deixou mais vulnerável. Eu sou o preto que vem de Salvador. Os outros caras (os atores João Vicente de Castro e Eduardo Sterblitch e o filósofo Francisco Bosco) são do Rio de Janeiro. O humor é outro, o sotaque é outro. Essa vulnerabilidade me levou à terapia, à autocompreensão.”
“A minha primeira peça foi um chapéu. As pessoas tinham um jeito de se vestir muito bonito e funcional na feira, com uma característica do sertanejo nordestino que era discriminada nas capitais”
Companheiro da jornalista Pâmela Lucciola há mais de 15 anos, Russo conta que aprende com ela, apresentadora do programa Melhor da tarde (Band), para se sentir confiante à frente das câmeras. “Muitos dos meus métodos são influenciados por Pâmela. Ela é uma grande professora. Me ensinou como falar, como me portar, a entender o tempo da respiração.”
Filho de uma bancária e de um trabalhador rural, Russo teve outros ofícios – de atendente de telemarketing a vendedor em loja de vinil – antes de se encontrar na música. Como feirante, ainda criança em Senhor do Bonfim, cidade no sertão da Bahia onde viveu até 1994, identificou um elemento que se tornou sua marca registrada em termos de estilo. “A minha primeira peça foi um chapéu. As pessoas tinham um jeito de se vestir muito bonito e funcional na feira, com uma característica do sertanejo nordestino que era discriminada nas capitais”, lembra ele.
Nas fotos que acompanham esta matéria, os chapéus são do seu acervo pessoal. “Aí a arte trouxe o Mangue Beat, com aqueles caras usando chapéu de palha e óculos escuros. Aquilo virou moda e me influenciou. O chapéu não sai da minha cabeça e entendi que posso mesclá-lo com roupas de grandes marcas, calças sociais, peças esportivas. Tenho uma fusão de pele e pano, que mistura elementos sertanejos e urbanos.” Com os pés no chão e a terapia em dia, Russo tem tudo para voar ainda mais alto.
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