RioFW 2026: Misci

Do Carnaval às dunas de Gal, Airon Martin, diretor criativo da Misci, dá um passo a mais na construção de uma imagem e estilo pautado por referências essencialmente brasileiras.


RioFW 2026: Misci
Misci, verão 2027. Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite



Do início do ano para cá, Airon Martin parece ter passado mais tempo no Rio de Janeiro do que na sua casa em São Paulo. Em janeiro, ele abriu a primeira loja carioca da Misci, bem no timing para aproveitar a enxurrada de gringos que desembarcaram aqui por conta do Carnaval ou na rebarba do ano-novo. Dois dias atrás, durante uma visita à loja em Ipanema, o diretor criativo e fundador da marca contou que em março mais da metade das vendas foram para clientes internacionais.

Que o Rio de Janeiro está em alta, a gente já falou algumas vezes por aqui. A própria Rio Fashion Week tem a ver com isso. A ideia é emplacar o evento como a principal vitrine da moda nacional, em especial para o mercado externo. E Airon, que não é bobo, quer se mostrar como um dos principais representantes desse rebranding do estilo brasileiro.

Daí o desfile que tinha tudo para ser apoteótico. 

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Misci, verão 2027. Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite

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RioFW 2026: Misci. Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite

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RioFW 2026: Misci. Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite

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RioFW 2026: Misci. Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite

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A locação era nada menos do que a Marquês de Sapucaí. A trilha, a bateria da Beija-Flor de Nilópolis, ao vivo. A passarela tinha quase 150 metros de comprimento, toda forrada de azul-Misci.

Por razões óbvias, o Carnaval é uma das inspirações da coleção de verão 2027, com colaborações dos carnavalescos Bruno Oliveira e Annik Salmon, uma das poucas mulheres a ocupar essa posição. São deles a calça e blusa cheia de bordados e penduricalhos dourados e coloridos e as duas bolsas sanfonas customizadas com adereços brilhantes.

Outra figura importante no moodboard é Gal Costa nos anos 1970, época em que ela viveu na cidade e frequentou tanto uma parte da praia de Ipanema que até deu apelido àquela faixa de areia. Eram as dunas de Gal ou as dunas do barato que reuniam todo o tipo de gente a fim de um respiro libertário em meio à repressão da ditadura militar.

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RioFW 2026: Misci. Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite

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RioFW 2026: Misci. Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite

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RioFW 2026: Misci. Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite

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RioFW 2026: Misci. Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite

As duas referências têm tudo a ver com a Misci. Elas falam de cultura e identidade brasileira, de sensualidade (e sexualidade), liberdade de vontades de transgressões. Desde a coleção passada, a de inverno 2026, Airon se mostra menos apegado a narrativas muito fechadas. E continua assim, com essas leituras trabalhadas sem interpretações literais ou limitadas demais.

Vemos isso já no primeiro look: um blazer oversized branco, com lapelas assimétricas verdes, usado como minissaia e bustiê bordado. O segundo é um minivestido decorado com pequenas placas quadradas. E o terceiro tem uma blusa feita com a mesma técnica.

O corpo sempre teve posição de destaque na Misci e agora ele é desenhado de formas menos óbvias. Vão por esse caminho as roupas de seda com cortes geométricos e jogo de transparências, ainda que nem sempre muito bem resolvidas. O tecido exige uma execução superdelicada. Tecnicamente é algo complicado e fica ainda mais com o tipo de design assimétrico e recortado que Airon gosta de criar.

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RioFW 2026: Misci. Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite

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RioFW 2026: Misci. Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite

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RioFW 2026: Misci. Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite

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Melhores são os biquínis e maiôs de juta, as peças de couro de pirarucu ou de origem vegetal e as tramas vazadas. Essas, aliás, são o ponto alto do verão 2027 da marca. Além de serem imageticamente interessantes, é por meio delas que surgem as parcerias e desenvolvimentos têxteis responsáveis mais convincentes e possíveis de serem comercializados (como os itens feitos de redes de pesca descartadas).

O jeans também volta a ter destaque na passarela da Misci. Alguns são feitos através de técnicas de upcycling, mas com acabamento final de peça nova. É bom ver a etiqueta dando espaço para esses básicos, tão importantes no faturamento da empresa, ao lado de roupas mais especiais.

Embora menos coesa do que a anterior, essa coleção mostra a marca em plena evolução. O problema – que não é um problema novo para Airon (no primeiro texto que escrevi sobre a Misci em 2020, eu já falava sobre isso) –, é mirar alto demais. Apesar de sair bem na foto e no vídeo, ao vivo a locação engoliu a roupa. A Sapucaí é palco e passarela para apresentações mais grandiosas, literal e simbolicamente. Naquela imensidão, se nem as caixas de som deram conta de preencher o espaço, imagina as roupas?

RioFW 2026: Misci

RioFW 2026: Misci. Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite

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RioFW 2026: Misci. Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite

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RioFW 2026: Misci. Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite

RioFW 2026: Misci

RioFW 2026: Misci. Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite

Outro problemão foi o atraso de quase três horas. Mas nesse quesito marca e estilista têm zero responsabilidade. A falta de organização e o desrespeito com todos os envolvidos (inclusive os convidados pagantes) são totais da Rio Fashion Week e da IMM, a empresa produtora do evento.

Se a intenção é mesmo consolidar uma plataforma de lançamentos e criatividade consistente e se comprometer de fato com o desenvolvimento da moda nacional, essas são questões que devem ser levadas mais a sério. Por ora, parece que importam apenas os espaços abarrotados de gente e o movimento nas ativações dos patrocinadores.

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