Especialistas contam como preparar o café perfeito – do coado ao espresso

Fundadoras de marcas de cafés especiais revelam os segredos para o preparo de um café perfeito em casa.


Especialistas contam como preparar o café perfeito – do coado ao espresso
Foto: Pexels



Tem quem acorde pensando nele, quem transforme a pausa da tarde em ritual e quem já não aceita mais uma xícara qualquer depois de descobrir os cafés especiais. Mas alcançar o café perfeito nem sempre depende de máquinas caras ou técnicas complicadas. Na maioria das vezes, são os detalhes que mudam completamente o sabor.

Nos últimos anos, preparar café em casa deixou de ser apenas um hábito automático para virar experiência. Métodos filtrados, moagem fresca, cafés de origem e receitas mais precisas passaram a fazer parte da rotina de muita gente, impulsionando um interesse crescente por bebidas mais aromáticas, equilibradas e cheias de personalidade.

Nesse cenário, marcas brasileiras vêm ajudando a popularizar o universo dos cafés especiais de forma mais acessível, sensorial e conectada à origem dos grãos. O Café Por Elas, criado pelas irmãs Julia e Nadia Nasr, nasceu com a proposta de destacar o protagonismo feminino em toda a cadeia produtiva do café – da produção ao pacote que chega ao consumidor. A marca trabalha com cafés especiais acima de 83 pontos e constrói parcerias com mulheres produtoras e famílias que priorizam cultivo responsável, torra cuidadosa e consumo consciente.

LEIA MAIS: Cansou do café preto? 7 preparos gelados aprovados por baristas

Já a Koffi, fundada por Maíra Teixeira, especialista que atua há mais de dez anos no mercado de cafés especiais, criou a marca com foco em curadoria e descoberta de pequenos produtores brasileiros. Hoje, o Koffi Clube funciona como uma experiência de assinatura que conecta os consumidores a diferentes cafés especiais todos os meses, acompanhados de receitas, playlists, vídeos e conteúdos educativos sobre preparo e sensorial.

Mas, afinal, o que realmente muda o sabor da bebida? Qual a moagem certa? A água interfere tanto assim? E existe mesmo uma receita definitiva para chegar ao tão sonhado café perfeito? Para responder a essas e outras perguntas, conversamos com as especialistas. Confira! 

O primeiro passo para um café melhor começa no grão

Pode parecer óbvio, mas as especialistas reforçam: não existe técnica capaz de salvar uma matéria-prima ruim. “Não adianta investir em bons equipamentos sem ter um bom café”, aponta Julia Nasr. “Vale procurar torrefações que trabalhem com cuidado desde a produção até o armazenamento e a torra dos grãos.” 

Para preparar o café perfeito, opte por cafés especiais 100% arábica, que possuem maior complexidade de sabor, doçura natural e equilíbrio quando comparados aos cafés tradicionais. “Muitos cafés convencionais usam torras extremamente escuras para mascarar defeitos do grão, o que gera aquele sabor excessivamente amargo ou queimado”, diz Maíra Teixeira. 

Outro detalhe que faz diferença no resultado é moer o café apenas na hora do preparo. “O café já moído perde grande parte dos compostos aromáticos em questão de minutos. Manter em grãos o maior tempo possível ajuda a ‘segurar’ a qualidade sensorial do café”, completa Maíra. 

A proporção entre água e café muda completamente a bebida

Se existe uma dica simples capaz de melhorar instantaneamente o preparo, ela provavelmente envolve parar de fazer o café no “olhômetro”. 

As especialistas recomendam usar proporções fixas para criar consistência e entender melhor o próprio paladar. Nadia sugere começar pela proporção 1:15, ou seja, 10 gramas de café para 150 ml de água, especialmente em métodos filtrados. “É uma medida equilibrada e um ótimo ponto de partida. Depois, a pessoa pode ir ajustando conforme o gosto pessoal”, explica.

A fundadora do Café Por Elas também defende o uso de balança no preparo diário e diz que esse é um dos hábitos que mais transformam a experiência de quem faz café em casa. Segundo ela, trabalhar com ratios como 1:10, 1:12 e 1:15 ajuda a controlar a intensidade, corpo e doçura da bebida. “Quando você mede tudo, consegue repetir exatamente aquele café que deu certo. Sem isso, cada preparo sai de um jeito”, afirma.

A água é mais importante do que muita gente imagina

Existe um detalhe que as pessoas costumam ignorar, mas que pode arruinar até um excelente café: a água. “O café é 98% água”, lembra Julia Nasr. Por isso, ela recomenda usar sempre água filtrada ou mineral no preparo. O excesso de cloro presente na água da torneira interfere diretamente nos aromas e nas notas sensoriais da bebida.

“Às vezes, o problema não está no grão, nem no método, mas sim na água utilizada. As pessoas tentam mudar a moagem, método e café, mas esquecem que a água pode ser o motivo do resultado ruim”, justifica Nadia. 

Além da qualidade da água, a temperatura também interfere diretamente na extração. Maíra explica que águas muito quentes podem causar superextração, deixando o café excessivamente amargo e adstringente. Segundo ela, a faixa ideal fica entre 92°C e 96°C. Para quem não tem chaleira com controle de temperatura, a dica é prática: deixar a água ferver, desligar o fogo e esperar cerca de 30 a 45 segundos antes de despejar no pó.

Julia reforça ainda que existe um mito em torno da ideia de que água fervente “queima” o café. “A torra acontece em temperaturas muito mais altas. Uma água a 96 graus não vai queimar o café”, explica. E, para métodos de extração a frio, como no caso do cold brew, a lógica é de “compensar” a baixa temperatura por tempo, por isso o seu preparo pode levar em torno de 8 a 16 horas. 

LEIA MAIS: O que é café cold brew e como fazer em casa

Cada método pede uma moagem diferente

Para alcançar o café perfeito, é preciso entender a diferença entre a moagem fina, média ou grossa. Isso porque a textura do pó interfere diretamente no tempo de extração, ou seja, no quanto a água consegue retirar sabor, aroma e corpo do café. A lógica é simples: quanto mais tempo a água fica em contato com o café, mais grossa deve ser a moagem. Já métodos rápidos pedem moagem mais fina para que a extração aconteça corretamente em poucos segundos.

No espresso, por exemplo, a água passa pelo café muito rapidamente e sob alta pressão. Por isso, a moagem precisa ser fina, parecida com a textura de sal fino. Se o pó estiver grosso demais, a água passa rápido demais e o café pode ficar fraco e sem sabor.

Já nos métodos filtrados, como Melitta, V60, Origami, Koar e Chemex, a moagem média costuma funcionar melhor. “Com textura semelhante à de areia ou açúcar cristal, ela permite uma extração equilibrada em cerca de dois a três minutos”, aponta Maíra. 

Na prensa francesa e no cold brew, a lógica muda completamente. Como o café fica em contato com a água durante vários minutos — e, no caso do cold brew, por horas —, a moagem precisa ser grossa, semelhante à textura de sal grosso. Isso evita uma super extração que poderia deixar a bebida amarga e pesada.

“Quando a moagem está incompatível com o método, a bebida perde equilíbrio”, explica Maíra. Um pó fino demais pode gerar excesso de extração e amargor. Já uma moagem muito grossa pode resultar em cafés aguados e sem corpo.

LEIA MAIS: Como fazer espresso martini e mais 7 drinks com café

O jeito de despejar a água também interfere no sabor

Outro detalhe frequentemente negligenciado é a forma como a água entra em contato com o pó. Segundo Nadia, despejar toda a água de uma vez só pode prejudicar a extração uniforme do café. “O ideal é fazer movimentos circulares, do centro para as bordas, permitindo que todo o pó seja saturado da mesma forma”, diz. 

Além disso, cada método possui um tempo ideal de contato entre a água e o café. Quando a extração acontece rápido demais, compostos responsáveis por doçura e corpo podem deixar de ser extraídos corretamente. 

Qual o melhor método para começar no café especial?

Para quem quer entrar no universo dos cafés especiais sem complicação, as especialistas concordam: o café coado continua sendo a melhor porta de entrada.

O filtro de papel tradicional e métodos como Hario V60 entregam bebidas mais limpas, equilibradas e fáceis de perceber sensorialmente. “Eles ajudam a identificar notas como chocolate, frutas ou caramelo”, explica Maíra.

Já a prensa francesa costuma agradar quem prefere cafés mais encorpados e intensos. Nadia cita, por exemplo, cafés com notas de chocolate, castanhas e caramelo como combinações perfeitas para esse método.

Como armazenar café do jeito certo

O armazenamento correto do café é uma das principais dicas das especialistas. “O café é um alimento oxidável, então o contato com a luz direta e com oxigênio acelera seu envelhecimento. O ideal é guardá-lo em sua própria embalagem”, pontua Nadia. E, caso queira guardar em um pote hermético, opte pelos que são opacos. 

Além disso, nunca coloque o pó na geladeira. De acordo com Maíra, o café é muito sensível e age como uma “esponja”, absorvendo a umidade e os odores de outros alimentos do refrigerador. 

LEIA MAIS: Café e amor: um guia para os coffee lovers

Para ler reportagens e séries especiais, assine a ELLE View, a área exclusiva da ELLE para assinantes.