Depois de algumas semanas de marasmo no noticiário de moda, voltamos com força total. Na Europa, estão rolando os desfiles masculinos de verão 2027. Teve a participação especial de Simone Rocha na Pitti Uomo, em Florença, e uma excelente segunda apresentação de Ralph Lauren, em Milão. De resto, nada excepcional. Quer dizer, exceto a Prada com aquelas silhuetas skinny. Falei sobre isso no site e nas redes sociais da ELLE Brasil, mas estendi o assunto aqui. Outros tópicos desta newsletter são as movimentações na direção criativa da Moschino e a exposição e lançamento da Osklen em São Paulo.
Um pouco mais sobre a Prada

Prada, verão 2027 masculino. Foto: Divulgação
Novidade é uma premissa tão imperativa na moda que fala-se muito pouco sobre a importância da repetição. Um bom exemplo é o verão 2027 masculino da Prada. O título da coleção é Clareza, porque Miuccia Prada não aguenta mais designs inúteis e sem sentido. Ela se diz obcecada por isso. (Sim, ela é do tipo que fica obcecada por coisas que odeia). Daí a única silhueta do desfile e a ausência de decorações desnecessárias – até as bolsas eram acopladas aos passantes de cinto para imprimir dinamismo e unidade.
A coleção é baseada em modelagens clássicas e conhecidas. As duas principais são a da calça jeans – naquela versão famosa de cinco bolsos, com costuras reforçadas por rebites – e a da jaqueta do mesmo material. Outras são a de um blusão de couro, de um blazer de ombros largos, de uma boa e velha camiseta e de suéteres de lã com decote V. São peças que percorreram a história e resistiram ao tempo, sendo constantemente ressignificadas e adaptadas.
No texto enviado à imprensa, Miuccia e Raf Simons, codiretores de criação, afirmam que a intenção é oferecer roupas que possam ser combinadas de várias maneiras, de preferência diferentes daquelas mostradas na passarela. Meio que uma continuação da mensagem do inverno 2026 feminino, em que, a cada entrada, as modelos removiam camadas dos seus looks para mudar sua leitura. Eles falam ainda que estavam pensando sobre conceitos de escolhas, de decisões conscientes e significativas.

Prada, verão 2027 masculino. Foto: Divulgação
E aí começa a viagem no tempo (percebam as semelhanças nos discursos). Sobre a primeira coleção da dupla (verão 2021), Raf disse: “Queríamos criar algo que fizesse sentido para as pessoas, algo que fosse útil. Tudo o que fazemos deve permitir que as pessoas vivam melhor. O desfile é sobre enfatizar a humanidade.” Quase um ano depois, sobre o inverno 2021 masculino, ele comentou: “Começamos a conversar sobre que tipo de peça poderia representar algo muito próximo ao corpo, sendo quase uma representação dele próprio. Não sentimos que esse seja o momento para sermos exuberantes demais”.
Na estação seguinte (verão 2022), Miuccia falou: “Quando os tempos são complicados, buscamos alegrias simples e diretas”. No verão 2023 masculino, la signora argumentou que, apesar da aparência simples dos casacos, jeans e ternos, eles eram o resultado de um longo processo de escolha, design e decisão instintiva. “As roupas são clássicas, mas a mistura é contraditória, o que as torna empolgantes e novas”, completou Raf.
Essa empolgação continuou no verão 2025: “Queríamos algo com espírito jovem e livre. Quando ficamos velhos, pensamos e nos limitamos demais. Quando você é jovem, simplesmente vai”, relatou Raf. E no inverno 2025, Miuccia falou mais uma vez sobre o instinto: “É um pouco uma resposta ao que está acontecendo. Temos que resistir com nosso instinto, nossa humanidade, nossa paixão e nossas mãos em um mundo que está se tornando tão conservador”.

Prada, verão 2027 masculino. Foto: Divulgação
Os depoimentos expõem algumas constantes: no geral, temos a simplicidade, a redução e a atenção à essência funcional do design; no masculino, uma predileção pelo universo infantil e adolescente. Como é necessário parecer novo – e nunca repetido – mudam as palavras, não o sentido. Agora, em vez de redução, escolheram destilação. No lugar de foco ou objetividade, veio clareza. Sobre a jovialidade púbere (antes referida por inocência e ingenuidade) não há nenhuma menção. Talvez devido à ubiquidade dos medicamentos à base de GLP-1.
Há tempos não víamos roupas tão pequenas e justas na passarela. Polarização, discussões e comentários nas mídias sociais eram mais do que esperados, eram certos (sempre são quando quase muita gente se sente excluída). Faz algumas temporadas que acompanhamos o afinamento das silhuetas. Na estação anterior, vimos isso em Marc Jacobs, Celine, Loewe, Gucci, Dior Men e na Prada também, especialmente no masculino. Mas Miuccia e Raf estão nessa praticamente desde que começaram a trabalhar juntos em 2020 (vide os relatos acima). O desfile de domingo (21.06) é uma interpretação mais extrema desse e de outros temas.
Sobre a magreza, é impossível não relacionar uma coisa à outra. Existem bastantes pesquisas que apontam os impactos dos remédios emagrecedores na indústria e nas imagens de moda. E isso muda consideravelmente o contexto dos looks esguios da Prada. É diferente, por exemplo, das roupas superjustas de Hedi Slimane para Dior Homme entre 2000 e 2007. Na virada do milênio, Hedi e Raf Simons estabeleceram um novo paradigma na moda ao colocarem o adolescente, e não o homem, como ideal de beleza. Havia um tanto de síndrome de Peter Pan ali, é verdade. Mas além da sedução (e/ou nostalgia) da juventude, aquelas propostas ofereciam uma alternativa para as representações de masculinidade pautadas por força, músculos, virilidade e poder.
Só que naquela época, ou você tinha uma genética e idade favoráveis àquele visual, ou fazia dietas malucas para entrar num jeans Dior Homme. Quase ninguém sabia o que era semaglutida. Hoje, é mais fácil moldar o próprio corpo – para quem pode ($$$) e está disposto. Isso dá uma outra leitura à tendência skinny de agora. Em ambas as situações, é péssimo o apoio em padrões estéticos intangíveis.
Apesar dos pesares, é interessante prestar atenção ao método contínuo de lapidação e atualização empregado pela Prada. Inovações são necessárias, mas geralmente vêm de processos de repetição muito bem calculados – nem tanto pela estatística ou algoritmo e mais pela intuição e paixão.
O entra e sai na Moschino
Na sexta-feira (19.06), a Moschino comunicou a saída do diretor de criação Adrian Appiolaza. Os boatos eram de que Simone Rizzo e Loris Messina, os fundadores da Sunnei, assumiriam o posto. E assumiram mesmo. A confirmação oficial veio no domingo (21.06).
O match parece promissor. A Moschino, fundada nos anos 1980 por Franco Moschino, foi construída em cima de uma abordagem bem-humorada e satírica da moda de luxo. Franco faleceu em 1994, mas o negócio continuou pelas mãos de sua então assistente Rossella Jardini. O problema é que piadas perdem a graça, e com as da Moschino não foi diferente.
O interesse – e as vendas – só voltaram a crescer em 2013, após a chegada de Jeremy Scott na direção criativa. Durante a década que o estilista comandou a grife, houve picos de sucesso bem expressivos, quase todos impulsionados ou atrelados a acontecimentos da cultura pop. Até que tudo ficou demais, o clima mudou e, de novo, a piada perdeu a graça.
Jeremy saiu em março de 2023. No fim do ano, Davide Renne foi nomeado seu sucessor. Ele assumiu o cargo em 01 de novembro, mas morreu de repente no dia 10 daquele mês. Entra Adrian Appiolaza, vindo diretamente da Loewe, onde trabalhava como diretor de design de prêt-à-porter feminino, sob chefia de Jonathan Anderson.
Nos dois anos que permaneceu no posto, Adrian baixou o tom teatral de Jeremy Scott que dava sinais de cansaço e investiu nas referências surrealistas que marcaram as coleções de Franco. As propostas faziam sentido, porém não engajaram nem se converteram nas vendas que o grupo Aeffe, dono da grife, esperava. E também não eram tão engraçadas assim.
Humor é uma coisa complicada, volátil. É difícil achar o tom. Adrian acertou ao fugir do viés caricatural de seu antecessor, mas não conseguiu sintonizar com o público. Simone e Loris fizeram da Sunnei um fenômeno (de crítica e audiência) justamente pela sintonia afiada e pela comunicação autêntica com gerações mais jovens de consumidores.
As roupas da Sunnei não eram exatamente cômicas. As apresentações talvez fossem, embora não de maneira escrachada. Sempre havia uma ironia sutil, uma irreverência, uma desconsideração com o modus operandi e até com a etiqueta e as boas práticas do meio. A energia e conexão vinham daí. A piada não estava no produto, estava no meio, na mensagem. E a Moschino pode se beneficiar bastante disso.
As redescobertas da Osklen

Osklen. Foto: Divulgação
Abriu na noite de quarta-feira (17.06) uma exposição da Osklen no café Notthesamo, no bairro da Vila Buarque, em São Paulo. Em cartaz até 01 de julho, a mostra Direction over speed coloca lado a lado as primeiras peças da marca, criadas por Oskar Metsavaht nos anos 1980 para uma expedição ao Monte Aconcágua nos Andes, e jaquetas, casacos e outros itens de performance de esportes de neve concebidos e testados por seus filhos Thomas e Felipe.
Por conta de uma reunião longuíssima (que definitivamente não poderia ser um e-mail), não consegui ir ao evento. Quem foi disse que saiu impressionado com a lotação e com a qualidade dos produtos. Semanas atrás, viajei ao Rio de Janeiro a convite da Osklen e vi de perto algumas das roupas que seriam expostas (as vintages e as novas). Os lançamentos são mesmo acima da média.
A Osklen sempre flertou com o mundo dos esportes, mas nunca conseguiu se inserir com relevância nesse meio (apesar de ter nascido ali). Agora, isso pode mudar. A começar pelos tênis para trilha da linha TRKK que estão ganhando aderência considerável. O feedback de quem já provou é bastante positivo. A parceria/sociedade com o Grupo Dass, que tem expertise no setor calçadista, sem dúvidas ajuda. O próximo passo é o activewear. É um segmento pouco explorado por etiquetas de moda nacionais, no qual a grife carioca tem lastro e propriedade para crescer.
Só acho importante não misturar as coisas. No desfile da Rio Fashion Week, em abril, fui crítico em relação à dependência de itens manjados do repertório da marca, como os long johns, as parkas e o uso recorrente de tênis em todos os looks. A Osklen tem potencial no mercado esportivo e deve, sim, aproveitar essa vantagem. A passarela, no entanto, não é a melhor plataforma para isso. A exibição na Notthesamo parece uma ativação mais acertada para esse nicho.

Luigi Torre é diretor de reportagem de moda da ELLE Brasil.
Texto originalmente publicado na newsletter RE-SEE, enviada às terças-feiras.