Guá Arquitetura, de Luís Guedes e Pablo do Vale, joga luz sobre o design e a arquitetura regionais

Dupla de arquitetos paraenses realiza projetos a partir de profunda pesquisa sobre suas raízes.


Guá Arquitetura
Luís Guedes e Pablo do Vale, da Guá Arquitetura. Foto: Márcio Nagano



Os períodos de crise podem levar a movimentos de transformação. Em 2020, o mundo parou por causa da pandemia de covid-19. Naquele momento, os arquitetos paraenses Luís Guedes e Pablo do Vale viviam uma inquietação. Logo depois de formados pela Universidade da Amazônia, em Belém, dez anos atrás, eles haviam montado o primeiro escritório. “Fazíamos uma arquitetura mais tradicional, bastante ligada ao modernismo brasileiro”, conta Luís.

“Mas aquilo começou a nos incomodar porque eram projetos que poderiam estar em qualquer outro lugar e não tinham muito a ver com o nosso território”, completa Pablo. “Então, durante a pandemia, resolvemos dar uma guinada radical, buscando entender o que era uma arquitetura amazônica”, explica Luís.

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Dessa mudança nasceu a Guá Arquitetura. E a escolha do nome dá uma pista sobre a direção que resolveram tomar – “gua”, palavra tupi-guarani, tem muitos significados e um deles remete a rio, uma poderosa referência a um território onde os cursos d’água ditam o ritmo da vida, especialmente a dos ribeirinhos habitantes das palafitas.

A dupla decidiu se dedicar a projetos relacionados à arquitetura, à cultura e ao design na Amazônia, com foco em técnicas tradicionais e na cultura local, em diálogo com o design nacional contemporâneo, sem perder de vista a valorização regional.

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Instalaçã da Guá na Semana Criativa de Tiradentes. Foto: Cacá Bratke

Cultura local premiada

O ajuste de bússola não para de render frutos. O primeiro deles foi o premiado projeto Pallas, uma coleção de mobiliário colaborativa, com direção criativa da Guá, que une mestres carpinteiros amazônicos e designers nacionais. Com a intenção de valorizar os saberes tradicionais, a iniciativa visava promover o design sustentável e gerar visibilidade e renda para artesãos locais. “Não é que o designer vai lá e leva algo pronto. A proposta é de cocriação mesmo. O carpinteiro é um criativo também”, diz Luís.

A ideia de transformar o saber construtivo dos mestres carpinteiros da região em peças contemporâneas deu tão certo que elas colecionam premiações. Lançado em 2023, no ano seguinte o Pallas faturou o prêmio Design for a Better World. No mesmo ano, foi agraciado com o ELLE Decoration Design Awards Brasil (a edição nacional do Edida), o que abriu as portas para uma apresentação na Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.

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Pesquisa sobre os métodos construtivos e a cultura amazônica resultou em coleções premiadas, como a Pallas (nesta foto), de móveis inspirados nas técnicas dos carpinteiros locais, e o uso de materiais da região. Foto: Filippo Bamberghi

Toda essa repercussão foi embasada em uma proposta ambiciosa de pesquisa, iniciada no período pandêmico, na Ilha do Combu, uma Área de Proteção Ambiental (APA) localizada a 15 minutos de barco de Belém, que preserva o estilo de vida ribeirinha em palafitas. O estudo se estendeu por três anos “Para entender a arquitetura tradicional paraense, começamos fazendo um mapeamento da fachada das casas dos moradores de ilhas próximas a Belém”, explica Luís. “Os carpinteiros da Amazônia não pensam só na questão estrutural, funcional, mas também na estética.” A equipe comandada pelos dois ampliou a catalogação até a Ilha de Marajó. Ela esmiuçou a rica tradição da carpintaria amazônica, fotografando imóveis, catalogando ideias, conversando com os mestres carpinteiros. Um trabalho intenso e delicado.

De Belém para o mundo

Daí para o compromisso de dar visibilidade a esses mestres foi um desdobramento natural. Essa pesquisa é a base para o desenvolvimento dos projetos de arquitetura da Guá. “Não apenas incorporamos esses saberes tradicionais, como também chamamos esses artesãos para participar e, assim, divulgar seus conhecimentos e técnicas”, explica Pablo. A coleção Andiroba, lançada na Design Week de São Paulo deste ano, é um exemplo. Ela reúne dez peças de madeira, com design inspirado na semente da andirobeira, uma homenagem às mulheres que dela extraem um óleo usado para fins medicinais. “Sempre chamamos pessoas da nossa região para desenvolver a coleção com a gente. Nesse caso, contamos com a Vedac, uma empresa parceira de longa data, e dona Iracema, uma das mulheres que trabalham com a semente da andiroba”, diz Pablo.

Para a 14a Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, no ano passado, eles levaram uma estrutura de miriti, uma palmeira local, que estão pesquisando há um ano e meio. Essa madeira, superleve, é muito usada pelos artistas para fazer brinquedos. “Desenvolvemos vários usos para o miriti, desde móbiles e mobiliário até aplicações em arquitetura”, explica Luís.

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Na foto, Museu das Amazônias (MAS). Foto: Manuel Sá

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Também pelas mãos de Luís e Pablo, os saberes de artesãos da Ilha do Marajó estão presentes no Museu das Amazônias (MAS), um dos legados da COP30, a conferência sobre as mudanças climáticas, promovida pela ONU, que Belém sediou em novembro do ano passado. O museu foi projetado pela Guá junto com o carioca be.bo arquitetos. As paredes do foyer do museu têm um tom avermelhado e foram pintadas com as mesmas tintas que incorporam pigmentos da terra da Ilha do Marajó, que eram usadas pelos indígenas em suas cerâmicas e pinturas corporais. Em julho, o museu deve inaugurar a exposição permanente, igualmente projetada pelo Guá e o be.bo, que propõe um passeio cronológico pela história da Amazônia, da formação geológica às perspectivas de futuro.

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