Roteiro de vinícolas na Mantiqueira: onde comer, beber e aproveitar o inverno
Degustações, almoços harmonizados, piqueniques e mais: confira 7 vinícolas e outras dicas para curtir o melhor do enoturismo em São Paulo e Minas Gerais.
Alguns turistas fazem confusão. Pretendem chegar à região vinícola de Santo Antônio do Pinhal e vão parar em Espírito Santo do Pinhal. Ou vice-versa. Compreende-se a teclada descuidada que faz o aplicativo de locomoção trocar os destinos. Os dois Pinhais, com seu roteiro de vinícolas, estão bombando com o novo enoturismo na região da Serra da Mantiqueira, em São Paulo e Minas Gerais. E não é de hoje.
No começo do milênio, a técnica de dupla poda expandiu o mapa vinícola brasileiro, permitindo que São Paulo, Minas, Goiás, Rio de Janeiro, Bahia e outros rincões passassem a produzir vinhos finos. Sem entrar em detalhes muito científicos, as videiras são podadas duas vezes, fazendo com que as uvas fiquem maduras no inverno. Isso muda tudo, porque colheitas de verão são impossíveis na região: a chuva encharcaria e arruinaria as frutas.
Além de sacar a oportunidade, os novos produtores do sudeste, sabiamente, não investiram apenas na qualidade dos vinhos. Muitos projetos foram e continuam sendo pensados com foco simultâneo no enoturismo. O projeto paulista Rotas do Vinho, por exemplo, divide o estado de São Paulo em cinco regiões de interesse, que agrupam mais de 80 vinícolas e atraem cada vez mais gente.
A cultura vitivinícola já existe em alguns desses lugares há um bom tempo, como São Roque, que durante décadas amargou a fama de produzir bebidas de má qualidade – o popular vinho de garrafão. Só que São Roque também mudou e ganhou qualidade com a chegada da dupla poda, técnica desenvolvida pelo engenheiro agrônomo Murillo de Albuquerque Regina.
Mas neste roteiro de vinícolas vamos focar nos dois polos do mapa do vinho em São Paulo (que também pega um pouco das vinícolas mineiras próximas à fronteira) com o mesmo adjunto adnominal: Santo Antônio e Espírito Santo do Pinhal. Em poucos dias, é possível fazer roteiros que incluem degustações, almoços harmonizados, piqueniques, aulas, caminhadas e mais. A produção de queijos, azeites, frutas silvestres, castanhas, oleaginosas, charcutaria, chás, mel e a cultura centenária do café aumentam as chances de delírio sensorial nesses passeios.
Santo Antônio do Pinhal, na rota denominada como Alto da Mantiqueira, está pertinho de Campos do Jordão, com capacidade hoteleira bem estabelecida. Espírito Santo do Pinhal, a cerca de 200 quilômetros, fica na rota da Serra dos Encontros. Embora menos desenvolvido para o turismo, esse segundo pedaço cresce em infraestrutura e está ganhando novas vinícolas. Entre elas, a Terra de Carvalho, que se anuncia gigante, com investimento de 22 milhões de reais, e se prepara para estrear com um hotel de mais de 70 acomodações na propriedade.
Vale lembrar que a evolução da cultura do vinho nessas regiões não envolve apenas grandes investimentos e fluxo de turistas. A diversidade também avança. Não dá mais para dizer, como anos atrás, que o sudeste só faz Syrah. De fato, a uva francesa foi a primeira a dar sinais de boa adaptação aos terroirs paulistas e mineiros – e ainda é predominante. Mas muitos produtores estão testando, com sucesso, o plantio e a vinificação de um mundo de variedades. Indicamos aqui alguns dos bons passeios e bons vinhos provados durante a visita da reportagem de ELLE às vinícolas do Alto da Mantiqueira e da Serra dos Encontros.
Ah, sim. Várias dessas vinícolas acumulam prêmios nacionais e internacionais com suas criações. Mas quem se preocupa com pontuações e estrelas na hora de fazer as malas? Pé na estrada e seja feliz.
Roteiro de vinícolas do Alto da Mantiqueira
Vinícola Essenza
Santo Antônio do Pinhal (SP)
A Vinícola Essenza pode parecer pequenina, mas sabores gigantes são revelados durante a visita. Há vinhos, azeites, charcutaria artesanal e um dos melhores restaurantes de vinícola da região. Vinhedos e olivais são cultivados em Santo Antônio, a 1.200 metros acima do nível do mar, e outra parte da produção fica na Fazenda Tuiuva, em Cristina (MG), a altitudes que alcançam os 1.910 metros.

Piquenique no pergolado é uma das opções da Essenza. Foto: Divulgação
Uvas de altitude, de maneira geral, geram vinhos elegantes e com ótima acidez, qualidades que não faltam nos rótulos da Essenza. O fresco espumante da casa e um rosé de Syrah superdelicado abrem o tour Experiência Essenza, em harmonia com empanadas e embutidos num dos decks da propriedade. Não há muito o que percorrer nem vinhedos íngremes a galgar. Logo é hora de ir para o restaurante e curtir o menu em quatro tempos preparado pelo chef Lucas Cordeiro.
Quem prefere ficar a dois ou em turmas pequenas, sem socializar com outros turistas, pode escolher um piquenique íntimo num dos pergolados com vista para o vale. A opção inclui uma cesta com pães, embutidos, frutas da estação e uma garrafa de vinho da sua escolha.
Um vinho: Essenza Shiraz Rosé tem aromas de frutas silvestres frescas e lichia, uma ótima acidez, que convida ao próximo gole.
Raízes do Baú
São Bento do Sapucaí (SP)
A pequena vinícola da Fazenda Portal da Luz é o lugar ideal para quem curte um programa pé na serra, bebendo vinho em contato com a natureza, cara a cara com a imponente Pedra do Baú. Um piquenique nesse cenário é programa legal para quem não quer aglomeração: a Raízes recebe grupos de até quatro pessoas, dois de cada vez, em áreas cobertas, próximas aos vinhedos.

Brindes com vista para a Pedra do Baú. Foto: Divulgação
Além do vinho, a cesta vem com pão e chutney feitos com as castanhas portuguesas cultivadas na fazenda. Tem também guloseimas de produtores vizinhos: queijos, embutidos, patês, azeitonas, frutas secas. As frescas são pegas no pé: os turistas têm livre acesso ao pomar e podem servir-se do que houver de maduro. Mexerica, lichia, laranjas, nêspera, ameixa, figo, pêssego, uvaia, abacate, pera e outras espécies espalham aroma e sabor por ali.
Há ainda a opção de programar um tour pelos vinhedos, em grupos de até oito pessoas, seguido de degustação dos vinhos da Raízes na casa que abriga o empório. O passeio acontece três vezes por dia. No mais, a fazenda está aberta para quem quer dar um pulo sem avisar e comprar vinhos, chutneys e uma cerveja com castanha portuguesa de tirar o chapéu.
Um vinho: Nebula Brut é um bom exemplar de espumante do sudeste, com Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier, as uvas de Champagne. Passa por 30 meses de descanso nas caves e chega cremoso à taça.
Vinícola Ferreira
Piranguçu (MG)
Com alguns dos vinhedos mais altos da região, a Ferreira está a cerca de 1.600 metros acima do nível do mar. A localização, a altitude e a amplitude térmica permitem a elaboração de vinhos elegantes, de acidez vibrante e fruta fresca. Alguns dos rótulos produzidos por Dormival Ferreira não passam por madeira, para evidenciar o frescor das uvas nesse terroir especial.

Vinho, fogueira e pôr do sol. Foto: Divulgação
Há várias maneiras de curtir esses vinhos, a começar pelo tour tradicional, que apresenta a vinícola aos turistas, conta com degustação e pode terminar com fogueira, pôr do sol e vistas acachapantes da Mantiqueira. O melhor jeito talvez seja reservar uma mesa no restaurante da Ferreira, com cozinha a cargo do chef Gabriel Oliveira. Tem a aromática uva Gewürztraminer com truta grelhada, Pinot Noir com massa fresca e cogumelos, Malbec com entrecot, mousseline de mandioca e farofa.
Para quem prefere ficar por ali, na quietude das montanhas, a vinícola oferece chalés de 100 metros quadrados com lareira, cama king size, ofurô externo, cozinha completa e wi-fi, dedicado a quem não consegue se desconectar. Quem se hospeda em Campos do Jordão pode visitar ainda o Ferreira’s Bistrot no agito de Capivari.
Um vinho: Cahors do Mont 2024 é um corte bastante elegante de Malbec, Cabernet Sauvignon, Merlot, Petit Verdot e Marselan. Tem fruta e frescor, é opulento e enche a boca.
Villa Santa Maria
São Bento do Sapucaí (SP)
A Villa Santa Maria, em São Bento do Sapucaí, é uma das mais populares entre os turistas. O varandão ou o jardim do restaurante bombam nos finais de semana, especialmente na temporada de inverno. É um espaço flex, onde se pode curtir menus de três ou cinco tempos, harmonizados com os vinhos da casa, ou pedir bruschettas e tábuas de frios na companhia de um rosé ou de um espumante fresquinhos.

Natureza e boa mesa na Villa Santa Maria. Foto: Divulgação
Quem prefere acumular cultura em vinhos opta pela aula de degustação em que são apresentados cinco rótulos da marca Brandina, terminando com o finíssimo hidromel produzido ali. A prova pode ser seguida de um piquenique nos jardins ou perto dos vinhedos. Você monta a sua cesta com as opções de queijos, charcutaria ou bruschettas e escolhe os vinhos para acompanhar.
Um vinho: Brandina Sauvignon Blanc traz a tipicidade dessa uva em modo bem fresco, com aromas de pêssego e toques herbais e florais, próprios da variedade.
Roteiro de vinícolas da Serra dos Encontros
Guaspari
Espírito Santo do Pinhal (SP)
A Vinícola Guaspari, em Espírito Santo do Pinhal, é uma das pioneiras do cultivo de vinhas no sudeste. Deu régua e compasso para que outras empresas se instalassem no pedaço e, à sua semelhança, explorassem o enoturismo na região.
Além do vinho, a fazenda produz café (sua cultura original desde o século 19), azeites, macadâmia e chás. Todos esses produtos aparecem nos passeios pelos vinhedos, em paradas estratégicas para degustação, mas o melhor sempre está reservado para o almoço, com os menus harmonizados pelo chef Gabriel Rischioto e a equipe de sommeliers da Guaspari.

Guaspari, uma das pioneiras na região. Foto: Divulgação
Na temporada de colheita, Gabriel uniu-se a Rodrigo “Mocotó” Oliveira para criar um menu especial que celebra os 20 anos da primeira vindima da Guaspari. O passeio de cinco tempos tem inspiração caipira e é harmonizado com vinhos e chás, que ajudam a limpar o paladar entre uma iguaria e outra. A degustação especial fica em cartaz até 2 de agosto.
Um vinho: Porcellino Tinto tem um jeito mais leve de vinificar a Syrah, extraindo dela menos taninos , o que resulta numa bebida fluida e com ênfase na fruta. Fácil de beber e de gostar.
Merum
Espírito Santo do Pinhal (SP)
A Vinícola Merum é uma das mais instagramáveis da Serra dos Encontros. Um conjunto de platôs e terraços de vários níveis, com vista para as montanhas, está aberto da manhã até o pôr-do-sol (horário mais concorrido e, quase sempre, lotado). Há brunch, almoço, jantar ou você pode pedir alguma comidinha para simplesmente curtir a vista e bebericar.
Um dos pontos fortes do wine bar da Merum é a seleção de vinhos, que vai além dos rótulos da casa. Diversas vinícolas da região estão representadas e, portanto, é possível ter um pequeno panorama da produção local com o que estiver disponível para o serviço em taças.

Merum: platôs com vista para as montanhas. Foto: Divulgação
Além de almoçar ou lanchar, você pode optar por uma degustação guiada ou pela wine o’clock – perfeito para curtir a dois, esse módulo da Merum inclui um trio de petiscos e uma garrafa de vinho. Para os que querem fazer seu próprio roteiro enogastronômico, o menu da chef Lucia Sequerra é vasto em delícias, com destaque para o arroz de pato e a polenta de milho orgânico moído na pedra.
Um vinho: Merum Brut Nature, 60% Chardonnay e 40% Pinot Noir, é sequíssimo, floral, delicado e com evidentes notas de panificação, fruto do longo tempo de descanso em contato com as leveduras, que pode variar de 18 a 30 meses.
Casa Geraldo
Andradas (MG)
A Casa Geraldo é pop. Chega a receber mais de 8 mil pessoas por mês, atraídas pela oferta de mais de 60 rótulos, e pela boa estrutura de recepção ao turista. A trajetória é longa: foi uma das primeiras a produzir vinho na região, em 1969. Porém só no início do século 21 a vinícola investiu em uvas vitiviníferas, próprias para a elaboração de vinhos finos. Começou com Cabernet Sauvignon, Merlot e Moscato Giallo. E foi adiante.

Casa Geraldo: boa estrutura e tradição. Foto: Divulgação
Há dois tipos de passeio: prata e ouro. No primeiro, há uma breve apresentação da história da vinícola, caminhada pelos parreirais e degustação de seis rótulos acompanhados de azeite produzido pela Casa Geraldo e queijos mineiros. No passeio ouro, mais extenso, são degustados dez vinhos e os visitantes passeiam pela propriedade numa charmosa jardineira. Quem quiser esticar a visita pode reservar uma mesa no restaurante e fazer pedidos à la carte ou optar pelo menu harmonizado em quatro tempos.
Um vinho: Mantis, apelido carinhoso para a Serra da Mantiqueira, é um Cabernet Sauvignon polpudo, com notas de frutas secas e tabaco. Próprio para guarda, é indicado a quem gosta de vinhos potentes.
Outras vinícolas
Casa Almeida Barreto (Espírito Santo do Pinhal, SP): a fazenda dessa jovem vinícola ainda não está preparada para receber turistas, mas há um wine bar em Espírito Santo do Pinhal com todo o portfólio da Casa e festas animadas com jazz e vinil. Não perca o Cabernet Franc, eleito o melhor do Brasil pelo Guía Descorchados 2025.
Stella Valentino (Andradas, MG): também pequena, mas grande no sabor, é uma das vinícolas que aposta em diversidade e se destacou pela cultura da tinta Tempranillo na região. Vale provar o branco de Marsanne, sozinho ou em degustação harmonizada. Caso o acaso ajude, vale o papo com o proprietário, José Procópio Stella: uma aula de enologia.
InnVernia (Espírito Santo do Pinhal, SP): o restaurante chefiado por Mariana Almeida está fresquinho, acabou de abrir. Ali você pode harmonizar os vinhos da InnVernia com um menu sazonal, de frente para as videiras. Pinot Noir e Cabernet Sauvignon são as pratas da casa.
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