Por que a série “Fúria” virou um sucesso

Produção do Disney+ subverte o gênero policial ao colocar uma mulher como serial killer em uma história sobre vingança e justiça.


Série Fúria, do Disney+
A atriz Emmy Rossum, protagonista de Fúria, e Scoot McNairy, em cena da série. Disney+



A série Fúria chegou ao Disney+ no fim de julho com pouca divulgação. Mas ao longo de agosto e setembro deixou de ser uma estreia discreta para se tornar um dos suspenses mais comentados dos últimos meses, além de um exemplo de como o gênero criminal pode ser reinventado quando mulheres deixam de ocupar apenas o lugar de vítimas.

Na trama, uma jovem transforma o próprio histórico de violência em uma missão de vingança e passa a perseguir homens poderosos que, apesar de terem abusado de mulheres, nunca foram responsabilizados por seus crimes. Ela é a serial killer.

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Com 99% de aprovação no Rotten Tomatoes, Fúria também aparece entre as mais bem avaliadas de 2026 no agregador e ultrapassou a marca de 43 milhões de horas assistidas desde o seu lançamento. O barulho foi suficiente para a renovação de uma segunda temporada antes mesmo do final da primeira.

A história

No centro da trama está Alice Black, interpretada por Emmy Rossum (Shameless). Ex-detetive de homicídios de Nova York, ela começa uma nova fase da carreira como agente do FBI e recebe a missão de investigar uma sequência de mortes que, inicialmente, parecem não ter relação entre si. Aos poucos, Alice identifica um padrão e chega até Catherine (Lola Petticrew), uma mulher inteligente e capaz de construir intimidade com suas vítimas antes de decidir como e quando elas devem morrer.

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A atriz Emmy Rossum como a agente do FBI Alice Black Disney+

Catherine não escolhe seus alvos ao acaso. São homens que cometeram abusos contra mulheres e conseguiram escapar das consequências. Em vez de entregá-los às autoridades, ela mesma investiga, seduz, manipula e executa. O que poderia ser apenas mais um caso de serial killer se transforma em uma pergunta: quem tem o direito de determinar o que é justiça e o que acontece quando os sistemas responsáveis por fazê-la funcionar falham?

É justamente nesse ponto que Fúria se distancia de boa parte das produções do gênero. A série não apresenta uma investigação entre o bem e o mal, a vítima e o agressor. Alice e Catherine estão em lados opostos da lei, mas ambas carregam traumas, raiva e uma relação complicada com instituições que deveriam protegê-las. Conforme a investigação avança, a caçada entre as duas deixa de funcionar apenas como um jogo de gato e rato e passa a operar como um espelho.

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Mudança

O trunfo de Fúria também está em subverter um dos arquétipos mais explorados pelo true crime. Serial killers costumam ser homens e, quando mulheres aparecem nesse papel, sua violência muitas vezes é explicada a partir da loucura ou da sexualidade. Catherine, por outro lado, não é apresentada dessa maneira.

Ela é responsável pelos assassinatos, mas a série não permite que o público a reduza à vilã. Catherine é, ao mesmo tempo, vítima e agressora, alguém cuja experiência de violência ajuda a explicar suas escolhas, sem necessariamente justificá-las.

Essa estrutura interfere na maneira como a narrativa enxerga suas protagonistas. As duas são mulheres cujas vidas foram moldadas por experiências de violência, trauma e sobrevivência, mas que respondem a elas de maneiras radicalmente diferentes.

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Lola Petticrew, no papel da serial killer. Disney+

É aí que Fúria encontra uma tendência cada vez mais forte de histórias sobre female rage (conceito que reflete a fúria coletiva das mulheres contra abusos e violências estruturais), rompendo com o papel tradicional da vítima. De Bela vingança (2020) a O poder (2023) e outras narrativas recentes de vingança contra homens abusivos, existe uma fantasia recorrente: e se mulheres que foram ensinadas a suportar e perdoar finalmente tivessem poder para reagir?

Ao mesmo tempo, o sucesso de produções sobre crimes reais transformou assassinos em personagens da cultura pop. Documentários, podcasts e séries dramatizadas passaram anos investigando a mente de criminosos, reconstruindo seus crimes e transformando seus nomes em marcas reconhecíveis. Fúria parte desse fascínio, mas desloca o protagonismo.

Em vez de perguntar apenas quem é o culpado, a série está interessada em por que ninguém impediu que isso acontecesse. O suspense nasce tanto da identidade da assassina quanto das histórias dos homens que ela escolhe. Cada nova vítima carrega a possibilidade de revelar uma estrutura maior de abuso e impunidade.

Também não é por acaso que a série tenha sido construída ao redor de mulheres. Elizabeth Meriwether, nome por trás de The dropout (2022) e Morrendo por sexo (2025), é a criadora, roteirista e produtora executiva, enquanto Emmy Rossum, além de interpretar Alice, também atua como produtora executiva. Para ela, interpretar Alice exigia separar as funções durante as filmagens e confiar na equipe para que pudesse se entregar às cenas emocionalmente mais pesadas.

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