MFW: Diesel, verão 2027
Em seu último desfile como diretor criativo da Diesel, Glenn Martens fala sobre desejo e lembra suas principais contribuições para a marca.
Quando os produtores Giorgio Moroder e Pete Bellotte pediram para Donna Summer gravar “Love to love you baby”, em 1975, a ideia era que a música parecesse um encontro sexual bem demorado e cada vez mais intenso. Glenn Martens pensou igual na hora de montar o desfile de verão 2027 da Diesel, o seu último como diretor criativo.
O cenário é industrial, com dois megaventiladores, andaimes de metal e iluminação quente. Na trilha sonora, música eletrônica e um remix daquele emblema revolucionário da disco music cheio de suspiros e gemidos. Na plateia, artistas do coletivo (LA)HORDE, de Marselha, dançam, batem cabelo, se tocam, se sentem e se pegam.
As roupas começam compostas (ou cobertas): jaquetas de couro, blazers, suéteres, camisas e, claro, muito jeans. A alfaiataria ganha destaque nesse bloco inicial, sempre em contraste com itens casuais ou com aparência desgastada.
![]() Diesel, verão 2027. Foto: Getty Images |
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Amassados, manchas, desfiados e efeitos devorê são recorrentes no trabalho de Glenn. Aqui, eles vão além e insinuam uma espécie de fusão ou transformação: uma blusa de tricô se mistura a uma camisa de algodão ou a um casaco esportivo. A saia que é comprida na frente (look de trabalho, sabe?) é também curtíssima nas costas (look de boate). O rasgo vira decoração com recortes em formato de flores.
Aos poucos, os comprimentos sobem, os decotes se aprofundam, as aberturas aumentam. As modelagens comportadas durante o dia são subvertidas, drapeadas, esgarçadas à noite (até a manhã seguinte). O que se mantém é o jeans, às vezes resinado ou com beneficiamentos que o fazem parecer plástico ou couro. Ilusão de ótica (o trompe l’oeil no jargão da moda) é um recurso querido de Glenn. Há um monte de estampas que imitam casacos pesados, texturas e até algumas das primeiras peças criadas pelo estilista na marca.
![]() Diesel, verão 2027. Foto: Getty Images |
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Glenn Martens ficou cinco anos na direção criativa da Diesel. Agora, ele se dedicará exclusivamente à Maison Margiela, grife da qual é diretor de criação desde janeiro de 2025 (ambas pertencem ao grupo OTB). Ao longo desse período, manteve uma visão nítida sobre o que acreditava ser a essência da casa italiana – roupas mais ou menos básicas, com acabamentos especiais, alta dose de provocação e sensualidade – e a evoluiu com bastante êxito. Nas últimas estações, no entanto, o que chamou atenção foi o olhar para aspectos inescapáveis da vida como ela é. Aqueles desejos incontroláveis que não têm nada a ver e nem cabem na imagem controlada e perfeitinha que tentam nos vender.
O desfile passado, o de inverno 2026, representava a sensação – e o visual – de acordar no dia seguinte e ter de enfrentar o mundo sem saber ao certo o que rolou na noite anterior. O mais recente, de verão 2027, ilustra o que pode ter resultado naquela confusão – e por que valeu a pena.
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