Conheça Yann Vasnier, o perfumista que transforma curiosidade em fragrância

Da botânica da Bretanha às criações para grandes nomes da moda, o perfumista francês da Givaudan aposta em especiarias, contrastes e sensibilidade para explorar novas possibilidades olfativas — inclusive em sua criação para O Boticário, inspirada no otimismo brasileiro.


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Foto: Divulgação



O perfumista francês Yann Vasnier, atualmente Senior Perfumer na Givaudan, é um dos cinco nomes internacionais convidados a participar do Box do Sentir, projeto de O Boticário que transformou cinco emoções genuínas da cultura brasileira em fragrâncias. Sob a regência de César Veiga, perfumista do Grupo Boticário, a iniciativa reuniu especialistas das maiores casas de fragrâncias do mundo para traduzir em composições olfativas a maneira singular como o brasileiro sente e se emociona. Enquanto Natasha Côté-Mouzannar, da IFF, criou Euforia; Leslie Gauthier, da Symrise, ficou responsável por Garra; Veronique Nyberg, da MANE, por Amor; Honorine Blanc, da dsm-firmenich, por Saudade; Yann assina Otimismo, um floral frutado com notas de goiaba e bergamota.
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Em entrevista a Pedro Camargo, editor de beleza da ELLE Brasil, o perfumista compartilhou que traduzir um sentimento em perfume exige mais do que selecionar ingredientes agradáveis: é preciso construir uma experiência capaz de despertar sensações. Em sua interpretação do otimismo, a goiaba foi o ponto de partida. “Algo suave, alegre, colorido, com muitas cores e texturas, um pouco de ternura e surpresa”, descreve. A intenção era criar uma fragrância luminosa, capaz de transmitir esperança e conforto. Para isso, o perfumista combinou a presença da fruta a ingredientes que fazem parte de sua assinatura criativa, como cardamomo, noz-moscada, patchouli, vetiver e notas ambaradas.
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A relação de Yann com os aromas, no entanto, começou muito antes de sua carreira internacional. Nascido e criado na região da Bretanha, no oeste da França, ele cresceu cercado pelos jardins da família, que cultivava um interesse pela jardinagem e pela ciência. A botânica despertou sua curiosidade desde cedo, mas foi a perfumaria que reuniu suas diferentes paixões. Ainda jovem, visitas à casa de fragrâncias Divine, em Dinard, aproximaram-no profissionalmente desse universo. Determinado a transformar o interesse em ofício, direcionou os estudos para o exame de admissão à formação de perfumista.
O esforço o levou à Quest International, empresa posteriormente incorporada à Givaudan, e ao prestigiado ISIPCA, em Versalhes, escola francesa especializada em perfumaria, cosméticos e aromas. Ali, teve a oportunidade de estudar com a perfumista Françoise Caron. Sua formação em matemática e química, somada à curiosidade por história, literatura, natureza, moda e artes visuais, ajudou a moldar uma abordagem que transita entre o rigor técnico e a liberdade criativa.
“Adoro fazer esculturas, pintar, construir alguma coisa. A perfumaria conectou tudo isso”, conta. A aproximação com a moda também teve um papel importante em sua trajetória. Embora não tenha formação na área, Yann encontrou nas colaborações com estilistas e designers uma oportunidade de olhar para os ingredientes por perspectivas inesperadas. “Eles enxergam as coisas de outra maneira: moléculas, aromas, ingredientes e cores podem ganhar interpretações muito diferentes”, afirma.
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Entre seus trabalhos mais conhecidos estão Lola, criado em colaboração com Calice Becker para Marc Jacobs, e Bang, também desenvolvido para a marca americana. Seu portfólio inclui ainda projetos para Tom Ford, Comme des Garçons, Donna Karan, Divine, Six Scents e Parfums DelRae. Em comum, essas experiências revelam a disposição para explorar diferentes linguagens estéticas, sem se limitar a um único território olfativo. Para ele, a proximidade com os criadores pode tornar o processo especialmente significativo: em uma ocasião, viajou a Los Angeles para apresentar o laboratório a Tom Ford; em outra, criou uma fragrância para Marc Jacobs presentear o namorado no aniversário de 30 anos.
Apesar da diversidade de projetos, Yann reconhece preferências bem definidas. Notas excessivamente doces, como baunilha, caramelo e cumarina, não estão entre suas favoritas. Ele também evita o uso muito açucarado de frutas e tem uma relação particular com as flores brancas. Em contrapartida, pimenta-branca, especiarias e acordes secos ocupam um lugar especial em suas composições. “Gosto de como as especiarias mantêm as coisas secas, um pouco austeras. Gosto dessa tensão”, explica.
Essa predileção não o impede de explorar caminhos inesperados. Ao trabalhar com o mercado brasileiro, se interessou especialmente pela luminosidade das fragrâncias que conheceu no país. “Havia sempre essa energia, esse brilho, esse sol”, recorda sobre suas primeiras impressões. Para Otimismo, a diversidade de frutas e a riqueza de aromas associadas à cultura brasileira ofereceram novas possibilidades de interpretação. A goiaba trouxe cor e ternura, enquanto as especiarias e as notas amadeiradas ajudaram a conferir profundidade à composição.
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Em uma indústria marcada pela velocidade e pela necessidade constante de lançar novidades, o perfumista identifica o início de cada projeto como a etapa mais estimulante. É quando todas as possibilidades permanecem abertas e a primeira ideia ainda pode tomar diferentes direções. Ao mesmo tempo, observa um consumidor cada vez mais interessado em ingredientes, moléculas e qualidade, movimento que, em sua avaliação, permite às marcas assumir mais riscos criativos.

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Para o futuro da perfumaria, Yann espera menos excessos açucarados e mais espaço para a sobriedade. Também vê na inteligência artificial uma oportunidade para destacar aquilo que distingue o trabalho humano: a sensibilidade, a experiência e o saber-fazer. Afinal, entre fórmulas químicas e memórias afetivas, sua prática continua dependendo de algo que não se mede apenas em moléculas: a capacidade de transformar uma ideia abstrata em uma sensação reconhecível e, quem sabe, em um instante de otimismo.

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