Dreads: mitos, técnicas, cuidados e preconceitos

Refletimos sobre o estigma social do estilo e contamos quatro diferentes métodos para chegar até ele.


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Ilustração: Helen Oliveira



Este texto faz parte de uma série de reportagens dedicadas a penteados de simbologia ancestral africana. Não deixe ler também sobre black power, coques bantu e tranças nagô.

“Quando eu paro para pensar em qual é o estereótipo da pessoa com dread hoje, para mim, trata-se de um estigma muito atrelado às questões raciais, então: quem usa dread é desleixado, não tem asseio higiênico com o próprio cabelo, é marginal, não tem uma boa dicção. Isso foi se quebrando, né? As pessoas têm desconstruído esse engessamento da estética do dread”, reflete Samir Pereira, que tem 30 anos e passou dois deles usando dread. Segundo o artista criativo, co-fundador da marca multidisciplinar baiana VIXEVIXI, a estrutura racista do Brasil ao mesmo tempo em que age na formação de opinião (como considerar irresponsável quem usa dread) também faz vista grossa a violências institucionais (como muitas empresas não permitirem que seus funcionários usem dreads). No fim, quem está sendo punido: o dread ou as pessoas?

Das esculturas do Egito antigo à Whoopi Goldberg, o penteado que nada mais é do que o cabelo emaranhado em si é provavelmente uma das expressões capilares mais resistentes ao tempo. “O dread é só uma forma que seu cabelo toma, mas carrega esses estigmas. Usá-lo tem um quê de observar os impactos sociais: quando eu usava trança, as pessoas me observavam de uma forma; quando estou com dread, sou observado de outra forma. Isso se nota nas diferenças com que você é tratado. Por exemplo, perguntas clichês que todo mundo que usa dread já ouviu: ‘Como lava?’, ‘Fede?’, ‘Como se faz a manutenção?’, ‘Como você dorme com esse cabelo?'”, lista Samir.

Primeiramente, aos mitos: não é verdade que para tirar os dreadlocks é necessário raspar todo o cabelo. Existem técnicas de desembaraçar que recuperam até 80% do cabelo – certamente, é preciso muito cuidado na escolha do profissional para fazer o dread, fazer sessões de manutenção frequentes e manter seu cabelo forte e saudável para que na retirada ele não quebre facilmente. Segundo, às formas de fazer: existem tanto dreads removíveis como definitivos e ambos podem ser feitos com fibras sintéticas de textura crespa, como Kanekalon ou Marley Hair (Afro Twist).

Existem vários jeitos de chegar no dread e, por isso, selecionamos como funcionam os principais e o tempo de execução de cada um deles. O mais popular no Brasil (e mais rápido) é o dread feito com agulha de crochê, técnica em que os movimentos de agulhadas pontuais enrolam o cabelo e moldam-no em um formato cilíndrico. Como existem dreadlocks mais finos, grossos, médios, curtos ou compridos, é difícil definir a duração no salão, mas a média fica entre 4 e 5 horas na cadeira. Outra alternativa chama-se interlocks e é feita com agulha de tapeçaria. Nesta, a mecha de cabelo é costurada em si mesma em forma de “X”, desde a raiz até o final do cabelo. Como esse método é mais complexo, a média de tempo salta para um período de 7 até 8 horas.

Há outras técnicas que não tomam tanto tempo, mas, quando se fala de dreads, paciência é fundamental. A manutenção do cabelo nessas versões é mais delicada: leva mais tempo para as mechas realmente se metamorfosearem nos dreads. A twist, por exemplo, consiste em dividir o cabelo em mechas, fazer o twist e deixar o cabelo parado por dois meses. Somente na primeira manutenção é que acontece o interlock, que dá uma apertada no cabelo que ajuda a embolar a fibra. Por fim, vale falar do free hands. Mais natural, e sem a intervenção da agulha, é o processo de simplesmente permitir o crescimento dos fios. Escolha um formato, um lado e, com o embolar natural do cabelo, surgem os dreads. Mas, cuidado: ao escolher essa técnica, é preciso muita atenção para fazer a separação do que já é dread e do que ainda está se formando. Uma boa dica é adquirir uma esponja para dar textura e ajudar seu cabelo a moldar-se em cilindros.

O rompimento com o preconceito que gira em torno do dread é um processo lento e que pode ser combatido também pela representatividade. Segundo Samir, o dread passa a se popularizar no Brasil quando Bob Marley começa a aparecer, pois trata-se de uma pessoa preta com forte apelo artístico, político e fora do viés da criminalidade. O mesmo vale para Whoopi Goldberg. “Nunca houve o questionamento se ela era marginal ou algo relacionado a isso porque ela estava no imagético da atriz, da mídia, da diva”, explica. De acordo com ele, as pessoas começaram a entender que existe uma pessoa por trás do penteado. Daí a importância de ver, cada vez mais, gente dirigindo, escrevendo, gerenciando, com dreads na cabeça.

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