A força política do black power (ou bléque pau)

Um dos penteados mais populares no Brasil pode até ter nome importado como black power, mas suas raízes estão arraigadas na investida identitária decolonial.


Iustração do penteado black power



Este texto faz parte de uma série de reportagens dedicadas a penteados de simbologia ancestral africana. Não deixe ler também sobre dreads, coques bantu e tranças nagô.

“O black power colocou o conceito de ‘negro’ de cabeça para baixo, despindo-o de suas conotações negativas em discursos racializados, transformando-o, assim, em uma expressão de uma identidade afirmativa de grupo”, escreve a pesquisadora Anita Pequeno em artigo da Revista Z intitulado História sociopolítica do cabelo crespo.

“Esse movimento estimulou os negros norte-americanos a construírem a ‘comunidade negra’ não como uma questão de geografia, mas antes em termos da diáspora africana global. ‘Negro’ se tornou uma cor política.” A autora prossegue contando como o uso do cabelo crespo natural, chamado de afro ou de black power, penteado homônimo ao movimento de luta das pessoas negras por direitos civis nos Estados Unidos, tornou-se então um ícone identitário e cultural.

Como o penteado black power chegou ao Brasil?

O black power, ou aportuguesadamente bléque pau, consiste no corte redondo do cabelo crespo ou cacheado como uma auréola, armado por um pente garfo, aumentando seu volume e definição natural.

No Brasil, uma passeada pelas capas de discos mostram a virada identitária dos anos 1970: artistas abandonam as perucas, henês e demais processos de alisamento, e deixam seus fios crescerem. Tony Tornado, Luiz Melodia, Gilberto Gil, Elza Soares e Tim Maia são alguns dos músicos de relevância no cenário cultural nacional que ostentam seus bléque paus em suas capas de disco a partir desta década. A partir daí, quando chega nas camadas populares e ativistas do Brasil, o penteado encontra um contexto fértil para crescer cada vez mais.

Isso porque é também nesta década que nascia no Brasil o Movimento Negro Unificado, a terceira fase do movimento negro organizado por aqui, com uma geração objetiva e contundente. “O nascimento do MNU significou um marco na história do protesto negro do país, porque, entre outros motivos, desenvolveu-se a proposta de unificar a luta de todos os grupos e organizações antirracistas em escala nacional”, escreve Petrônio Domingues, doutor em História pela Universidade de São Paulo, em seu artigo Movimento negro brasileiro: alguns apontamentos históricos.

“O objetivo era fortalecer o poder político do movimento negro. A tônica era contestar a ordem social vigente e, simultaneamente, desferir a denúncia pública do problema do racismo. Pela primeira vez na história, o movimento negro apregoava como uma de suas palavras de ordem a consigna: ‘negro no poder!'”

“É também por meio do cabelo natural que a gente conhece o status e o desprestígio que o cabelo pode te dar na sociedade”, Samir Pereira, fundador da VIXEVIXI

No mesmo artigo, Petrônio afirma que “Para incentivar o negro a assumir sua condição racial, o MNU resolveu não só despojar o termo ‘negro’ de sua conotação pejorativa, mas o adotou oficialmente para designar todos os descendentes de africanos escravizados no país. Assim, ele deixou de ser considerado ofensivo e passou a ser usado com orgulho pelos ativistas, o que não acontecia tempos atrás. O termo ‘homem de cor’, por sua vez, foi praticamente proscrito.”

As influências culturais e a força das políticas de afirmação provocaram a aceleração de lutas sociais e a popularização de manifestações estéticas que valorizam a corporeidade negra: cabelos, roupas e joias se tornam meios de resgate cultural e reconstrução da identidade negra no Brasil.

“É também por meio do cabelo natural que a gente conhece o status e o desprestígio que o cabelo pode te dar na sociedade”, aponta Samir Pereira, 30 anos, artista criativo co-fundador da VIXEVIXI, marca baiana que atua de forma integrada nas áreas de arte, moda e beleza para promover imagens de poder para o corpo negro.

Esse processo de construção de referenciais positivos de negritude é interminável e imprescindível para a luta antirracista. Como ferramenta que engrandece o afro, realça e arma o cabelo, o pente garfo se tornou um símbolo de empoderamento frente à imposição do cabelo liso enquanto padrão de beleza.

Qual é o melhor pente garfo para o seu black power?

Como existem vários tipos de pente garfo — e todo mundo quer ter o black power definido como o da ativista estadunidense Angela Davis —, o dreadmaker e trancista soteropolitano explica qual é o benefício de cada um dos pentes garfo e por qual você pode começar a modelar seu bléque pau.

“Cada pente garfo serve para um efeito e um tipo de fio. O pente garfo com dente mais largo é mais macio, ou seja, ele não vai danificar seu fio quando você enfiar ele para armar seu cabelo — é um pente ótimo e acho que todo mundo consegue usá-lo”, indica Samir.

“Já o pente garfo mais fino, o qual tem as abas mais juntinhas, é para um cabelo mais fino, então ele vai levantar bastante o cabelo, mas se você passar muito rápido, esse pente pode quebrar o fio. Todos os garfos são sobre acentuar seu volume natural, então não precisa passar com rapidez, pode ir moldando, movimentando de baixo para cima, até chegar no ponto que você quer.”

Sobre o material, existem três opções: madeira, metal ou plástico. Os dois primeiros provocam menos frizz no penteado, enquanto o último garfo proporciona o efeito frizzado pelo atrito do plástico com o cabelo. Então, para escolher seu pente é preciso levar em consideração a espessura e o desenho dos seus fios em paralelo com o look que você deseja compor.

Em outras palavras, o que você quer dizer com seu cabelo? “O cabelo te toma e te dá — eu acho que o meu dá mais do que toma”, pondera. “Ele me dá autoestima, confiança, me traz de volta a mim mesmo enquanto ser. É uma parte que eu conheço de mim e, a partir disso, consigo decidir quem eu quero ser, se eu quero ser o Samir de cabelo raspado, de dread, de trança ou de black — e isso é a liberdade de brincar consigo mesmo, se sentir.”

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