Tranças nagô

PUBLICIDADE

Este texto faz parte de uma série de reportagens dedicadas a penteados de simbologia ancestral africana. Não deixe ler também sobre dreads, coques bantu e black power.

"A nagô é um estilo muito afetivo e simbólico porque a gente tem essa lembrança em comum das nossas mães ou avós fazendo essa trança em nós. Mesmo que isso não seja um costume na sua família, você já viu essa cena: uma criança sentada com uma mulher mais velha trançando seu cabelo", reflete o trancista Samir Pereira, de 30 anos. Longas à la capa do Lemonade (2016) da Beyoncé ou curtinhas como as da Alicia Keys nas artes do disco ALICIA (2020), essas tranças chamadas de enraizadas, embutidas ou nagô se referem a esse tipo de trançado rente ao couro cabeludo.

O dreadmaker e trancista soteropolitano acredita que com o maior acesso à internet, o movimento estético de afirmação preta cresceu muito. "A maior diferença é que a gente começou a se arriscar mais, mexer mais com o nosso cabelo", diz Pereira. "Eu percebo que, a partir desse verdadeiro boom social de referências, há um choque sobre as possibilidades de usar o cabelo crespo e cacheado. E esse é um movimento apoiado por artistas pretas que contribuem para criar um universo imagético sobre essa estética. As pessoas começaram a se interessar mais para fazer coisas diferentes – e não há limites quando se pensa em trança nagô", conclui.

PUBLICIDADE

De padrões geométricos a flores desenhadas com o cabelo: a nagô é um penteado de inventividade. E também de cuidado: como o couro cabeludo fica exposto, Samir pontua que se trata de um ótimo momento para fazer um tratamento capilar. Seja passando óleo de rícino ou copaíba na noite anterior ao dia da lavagem – geralmente lava-se uma vez por semana – ou uma hidratação para raiz do cabelo. Qualquer produto tende a ter uma absorção melhor por estar em contato direto com as raízes dos fios.

Como as demais tranças, a nagô estimula o crescimento do cabelo porque ela tensiona o fio, mas se as tranças estiverem apertadas demais, o tiro pode sair pela culatra – se não houver folga suficiente, o atrito com o travesseiro ou banco do carro pode quebrar o cabelo. Assim, é preciso atenção no quão apertada está a trança. Para isso, Samir tem uma máxima: "Trança é para adornar, não para doer". O tempo médio de duração do penteado é de duas semanas, variando de acordo com a frequência da lavagem do cabelo, as qualidades do fio e as atividades do dia a dia de cada pessoa. Algumas dicas para aumentar a durabilidade são dormir com lenço em volta do cabelo ou durags, para proteger o penteado do atrito com o travesseiro, e lavar o couro cabeludo sem movimentos muito bruscos, lembrando que as pontas dos dedos são grandes aliadas e as unhas, por sua vez, potenciais inimigas.

PUBLICIDADE

"Quando a gente está esperando o cabelo crescer e está sem se entender muito bem, a trança nagô cuida muito da gente", Samir Pereira, fundador da VIXEVIXI

A nagô costuma ser uma opção bem interessante durante o processo de transição capilar, em que o cabelo está bem curto e se recuperando das químicas de alisamento, geralmente sem corte definido. Por isso, as enraizadas aparecem como uma alternativa de estilo – que nunca deixa de ser tendência (o que é ótimo nessa fase em que a autoestima fica mais sensível) – e um estímulo para o crescimento do cabelo. "Quando a gente está esperando o cabelo crescer e está sem se entender muito bem, a trança nagô cuida muito da gente", diz Samir.

Em uma reportagem do jornal estadunidense The Washington Post, a trancista colombiana Ziomara Asprilla Garcia conta que certos desenhos nas tranças embutidas eram sinais entre pessoas escravizadas para organizar fugas da sociedade escravocrata para quilombos. Essa história reverbera com muita força nas redes sociais e até chega a ser mencionada em trabalhos etnográficos apesar de não ter evidências totalmente sólidas de sua veracidade. Ainda assim, a história resiste, com poucas variações. Memória ou ficção, a trança nagô consolidou seu lugar como símbolo de resiliência da negritude: remete a pretos e pretas ancestrais, raízes genealógicas e orgulho que se nutre por elas.

"Eu acho importante que pessoas negras usem seus cabelos naturais porque é uma autonomia cultural que a gente precisa ter enquanto pessoa negra: autoconhecimento e autoestima andam juntos", declara Samir. "Quando você conhece seu cabelo, você toma para si o seu fortalecimento estético, que é se conhecer enquanto história, ou seja, reivindicar a sua identidade como pessoa preta da diáspora. O cabelo é uma parte da nossa história que foi negligenciada. Se formos falar mais a fundo, há sete anos a gente via pouca gente de cabelo crespo e cacheado nas ruas. Não é um problema querer seu cabelo liso; por outro lado, não conhecer seu fio e passar a vida inteira no alisamento por causa de um processo social é um problema. Se você conhece sua identidade, seu fio, você tem autonomia para contar sua história, da forma que você quiser."



Tenha acesso a conteúdos exclusivos
ASSINE A ELLE