Roacutan: vale a pena ou não?

A isotretinoína está em uso há 40 anos no mercado como a mais bem-sucedida opção ao tratamento da acne grave. Ainda assim, ela ainda levanta polêmica por seus efeitos colaterais e acende o debate do uso "off label" para o rejuvenescimento e outros procedimentos estéticos.


Efeitos colaterais, sucessos e fracassos do Roacutan



Aos 8 anos, quando ainda brincava na rua de pega-pega e esconde-esconde com o irmão e os amigos, Desiree Rodrigues da Veiga começou sua jornada contra a acne: mesmo com tão pouca idade, tinha pequenos cravos na testa e nariz, que às vezes inflamavam e se tornavam espinhas. Três anos depois, aos 11, consultou-se pela primeira vez com um dermatologista, e na sua rotina de criança entraram sabonetes específicos para pele oleosa, cremes, ácidos e antibióticos. Tudo sem sucesso.

“A acne não era algo que me incomodava. Eu não gostava, mas começou quando eu era tão nova, que era normal, era parte de mim. Aos 12 anos usava franjinha, porque tinha muitas espinhas na testa, e também maquiagem para escondê-las quando ia à escola. Mas como eram daquele tipo com pus, bem doloridas, não adiantava nada”, conta a educadora física, hoje com 36 anos.

A solução definitiva só foi descoberta muito tempo depois, quando Desiree já era adulta e foi apresentada, aos 20 anos, à isotretinoína, composto derivado da vitamina A e medicamento popularmente conhecido pelo nome comercial: Roacutan.

Tão famoso quanto polêmico por causa dos efeitos colaterais, ele é considerado atualmente pelos dermatologistas como o método mais efetivo no combate à acne grave e persistente, e por seus pacientes, predominantemente adolescentes, como uma solução para os problemas de autoestima, tão comuns nesta fase da vida.

Mesmo estabelecido no mercado há 40 anos, volta e meia se torna o assunto da vez, como em outubro deste ano, quando uma série de postagens com fotos de antes e depois do tratamento viralizaram nas redes sociais, trazendo novamente à tona discussões sobre padrões de beleza, obsessão pelo skincare e até seu uso “off label”, ou seja, para outras situações que nada tem a ver com a acne.

Um pouco de história: O que é o Roacutan?

Aprovado em 1982 pelo Food and Drug Administration (FDA), órgão federal norte-americano que supervisiona a segurança alimentar e medicamentos nos Estados Unidos, o Roacutan começou a ser tema de assuntos e experimentos no Brasil quase na mesma época, pelas mãos do médico da USP Sebastião Sampaio, apresentando bons resultados.

Na bula, ele é definido como um retinóide de ação anti seborréica específico para tratamento oral de acne grave, nódulo-cística e conglobata, e quadros de acne resistentes a outras formas de tratamento. Em resumo, ele ajuda a conter a produção excessiva de gordura na pele, diminuindo o tamanho das glândulas sebáceas.

Para quem começa qualquer protocolo, aliás, a bula impressiona: ela é bem maior e mais extensa do que as dos tipos padrão da maioria dos remédios, apresentando uma série de efeitos colaterais, que vão do ressecamento da pele e mucosas até depressão e possíveis tentativas de suicídio. “Na década de 1980 existiram algumas pesquisas que associavam o Roacutan a casos de suicídio. Eram relatos, então, ficou essa sombra. Mas depois, com outros estudos, em um maior número de pacientes, comprovou-se que não há essa relação.

A pele ressecar é algo até esperado, e muitos deles como cefaleia e dores musculares são previsíveis. Qualquer alteração pode ser reversível, não existe dano permanente. A única exceção é sua teratogenicidade, esse é o maior cuidado que devemos ter”, explica Ana Maria Bartelli, dermatologista da USP com residência no Hospital das Clínicas e professora do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro.

“Brinco que, se eu tiver um filho ou filha com problema de acne, vou procurar o Roacutan muito antes para eles”, Desiree Rodrigues

O maior risco do Roacutan

Seu potencial teratogênico, causador de malformação no feto, é realmente o ponto que mais joga contra a medicação. Por isso, há uma resistência maior dos dermatologistas na hora de indicar o Roacutan para mulheres em idade fértil. Se ainda assim ele for a única solução para o tratamento da acne, paciente e médico assinam um termo de conhecimento dos riscos e consentimento, responsabilizando-se pelo que possa acontecer.

“Quando alguma paciente minha tem realmente a necessidade de usá-lo, preciso que ela tome todos os cuidados contraceptivos, de preferência, utilizando dois métodos ao mesmo tempo”, fala a dermatologista e assessora do departamento de cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia, Sylvia Ypiranga.

Outro de seus maiores receios é a banalização do uso da medicação. “Isso não pode acontecer nunca! Eu não reclamo do excesso de controle e da rigidez exigida na hora de prescrever a receita. Se eu falo que é um remédio ‘tranquilo’, e que a pessoa pode tomar, existe a possibilidade dela dar para uma prima, uma amiga. Entendo que todos esses trâmites são uma necessidade de proteção nossa e da própria indústria”, diz.

A opinião também é compartilhada pelo dermatologista Alberto Cordeiro, especialista em cosmiatria, laser e tricologia da Clínica Horaios. “Ele é um medicamento extremamente seguro, consagrado na literatura, desde que seguidas todas as precauções. Mas sei que muita gente toma sem ter a indicação ou não segue as orientações médicas”, afirma.

Efeitos colaterais, sucessos e fracassos do Roacutan

Quando Desiree se encaixou no perfil para fazer o tratamento com Roacutan, sua dermatologista pediu uma série de exames de sangue que avaliam os níveis de colesterol, triglicérides, glicemia, entre outros, necessários para indicar como estão as condições do fígado e demais órgãos. Para as mulheres, também é exigido um exame de gravidez negativo.

Dependendo do histórico do paciente, esses exames são repetidos com certa periodicidade até o fim do tratamento. A dosagem e o tempo também são definidos de acordo com a resposta do organismo de cada um. “Antigamente usávamos doses mais altas, e calculávamos uma dose alvo, que era de 100 a 150mg por quilo do paciente. Isso representava de seis a oito meses, podendo chegar a um ano. Hoje, a tendência é esperar zerar o quadro inflamatório, usar por mais dois meses e aí encerrar o tratamento. Acaba sendo uma dosagem menor, com menos efeitos colaterais”, diz Ana Maria. Entre outras recomendações importantes, está também a de não ingerir bebidas alcoólicas, já que o medicamento causa uma sobrecarga hepática.

“Deixei de fazer muitas coisas por causa dos efeitos colaterais: não posso praticar esportes porque sinto dor no corpo, nas pernas e na lombar”, Kevin Souza

Depois de nove meses do tratamento, que terminou em 2005, e efeitos colaterais brandos, Desiree se livrou definitivamente da acne, pelo menos por enquanto. “Mudou totalmente a minha vida porque desde então não tive mais espinhas. Falo da minha experiência e faço a maior campanha mesmo, porque é um medicamento que tinha que ser melhor divulgado. Há muitos mitos sobre ele. Brinco que, se eu tiver um filho ou filha com problema de acne, vou procurar o Roacutan muito antes para eles. Vale a pena demais”, comemora ela.

Quando interromper o tratamento

Ao menor sinal de alterações nos exames ou sinais persistentes de que algo não vai bem, é indicado interromper o tratamento. Foi o que aconteceu com a engenheira civil Jessica Xavier, de 29 anos. Em julho, ela iniciou um protocolo de 20mg, três vezes por semana, e relata ter sentido muita dor abdominal e no estômago logo no primeiro dia.

“Também tive insônia, constipação, alterações menstruais, náuseas. As dores abdominais pioraram com o tempo e tive muita dor nos seios, além de irritabilidade e ansiedade. Reduzi para duas vezes por semana, mas não adiantou. Foi quando parei o tratamento com quatro meses e meio e esses sintomas desapareceram”, lamenta ela, que tem acne no rosto e nas costas desde os 12. “Parece que meu corpo não metaboliza muito bem a substância, mas penso em tentar de novo em outro momento. Queria que tivesse dado certo, porque já gastei demais com tratamentos e nada resolve”.

Sofrendo com efeitos colaterais fortes, mas não a ponto de precisar parar o tratamento iniciado há quatro meses, o estudante Kevin Souza tem 16 anos e acne tipo conglobata, considerada grau 4 numa escala de 1 a 5, provocando abcessos e cistos com muito pus e extrema inflamação. “É um problema que me atrapalha bastante. Deixei de fazer muitas coisas por causa dos efeitos colaterais: não posso praticar esportes porque sinto dor no corpo, nas pernas e na lombar. No começo eu tinha insônia; agora, tenho muito sono. Meu emocional também está abalado, mas, até agora, é algo suportável. A vontade de ter o rosto limpo é maior do que tudo”, conta ele.

O uso “off label” do Roacutan

Com a consolidação de sua eficácia no tratamento da acne, a isotretinoína também tem se popularizado, mais recentemente, como uma possível aliada do rejuvenescimento da pele. Quando o medicamento começa a agir e as espinhas ficam sob controle, há um processo de renovação celular e aumento da produção de colágeno, melhorando não só o aspecto das inflamações, mas ajudando também a diminuir rugas e linhas finas.

Atrizes de Hollywood como Cameron Diaz, Chloë Grace Moretz e Bella Thorne já utilizaram o medicamento para a acne. Em 2011, por exemplo, Cameron apareceu na cerimônia do Oscar com a pele impecável e efeito glow, gerando comentários na imprensa internacional de que o uso seria para além do tratamento das indesejáveis espinhas.

Uma pesquisa a respeito do assunto foi publicada em 2001 na revista científica Dermatol Surgery, afirmando que os efeitos de uma pele mais jovem e bonita são incontestáveis entre os usuários do Roacutan. Desde então, isso divide opiniões entre os especialistas. Afinal, com tanto efeitos colaterais, é necessário arriscar a saúde em nome da beleza e dos supostos cuidados com a pele?

“As pacientes pedem muito para tomar Roacutan. Pela ilusão de ser um remédio forte, agressivo, acham que o efeito vai durar pra sempre, e não vai. O processo de envelhecimento é contínuo. Se a gente não morrer, vai ficar velha, não tem jeito”, atesta Ana Maria.

“Esse uso ‘off label’ já existe há bastante tempo. Mas eu me pergunto, se falamos do uso na prevenção do envelhecimento, vamos nos prevenir até quando? Não nego que há um ganho, mas não creio ter embasamento científico comprovado para indicar e que compense o risco. Existem outros métodos tópicos, como o uso de retinóides, que são tão efetivos quanto o medicamento oral”, fala Sylvia.

Quem pensa em fazer uma rinoplastia e procura grupos sobre o assunto nas redes sociais também se depara com a discussão sobre o uso da isotretinoína para melhorar os aspectos do procedimento. Julia Vergueiro*, de 24 anos, tentou ser convencida pelo seu médico de que o resultado do novo nariz ficaria muito melhor com o Roacutan.

“Na primeira consulta ele já avalia sua pele, se é grossa ou fina. Dependendo da situação, ele explica que é bom tomar uma dose mínima antes e depois da cirurgia, o que ajuda a diminuir o inchaço e ficar mais bonito. Mas eu não tive interesse, já tinha ouvido falar do remédio e sei dos efeitos colaterais. Marcada a minha cirurgia, entrei nos grupos e vi muitos relatos sobre o uso, fotos de antes e depois, é algo muito comum entre vários médicos prescrever o remédio. O benefício é visível, mas achei que não valia a pena me arriscar assim“, relata a jornalista.

“As dores abdominais pioraram com o tempo e tive muita dor nos seios, além de irritabilidade e ansiedade. Reduzi para duas vezes por semana, mas não adiantou. Tive que parar”, Jessica Xavier

Toda essa obsessão com a aparência pode vir, muitas vezes, escondida sob a justificativa do autocuidado, algo muito falado durante o isolamento social por causa da pandemia de Covid-19. Coincidentemente ou não, o termo “skincare” teve um aumento de 66% nas buscas do Google entre fevereiro e abril.

Dona do perfil @pelesemfrescura, Bianca, que prefere não se identificar por completo por já ter sofrido ataques nas redes por conta de um posicionamento bastante crítico sobre o assunto, acha que essa é uma maneira ilusória de termos algum controle sobre nossas vidas. “As pessoas se apegaram muito a isso como uma forma de lidar com o isolamento social, com a depressão. O skincare impõe uma rotina, gera essa ilusão de autocuidado, e creio que elas se colocam em risco em nome disso quando usam produtos que não sabem ao certo como são formulados e os seus riscos. Elas usam ácidos indiscriminadamente, vão na onda de comprar o que blogueiras indicam e confiam cegamente em tudo. É lamentável que isso aconteça”, opina.

*O nome da entrevistada foi trocado a pedido dela

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