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A morte é um negócio daqueles. Tanto faz se filosofia ou história de vampiro, sempre difícil de explicar, na presença e na ausência. Mas por aí mesmo talvez tenha um passo simples, assim pra começar uma conversa. Quem explica a morte enquanto nome de uma certa fronteira são os vivos, e fazemos isso a partir do que percebemos quando alguém morre.
Estamos, embora nosso entorno de festas, praias e ônibus cheios faça duvidar, sob grande ameaça de morte. Digo ameaça porque se escrevo e você lê estamos vivos, é o que se espera. Estamos, por enquanto, vamos sendo vivos, ao menos no sentido dos sinais vitais do corpo. E morreremos, isso é certo, nascemos com esse ticket pra validar lá na frente. A ameaça, em geral, é coisa de outra ordem, não só a de morrer, nem mesmo a de morrer de doença, mas a de morrer antes da hora. Que hora? No sentido de morrer por decreto, uma morte determinada, em termos bastante objetivos, por ações alheias, tipo estar sob a mira de um atirador.

Sim, se morre de qualquer coisa. Mas calma lá. Uma coisa é qualquer coisa, outra coisa é coisa apontada pra te matar.
Vivemos num país erguido com mortos por decreto. Decreto que assinou e decidiu as condições e tantas vezes a hora exata da morte de milhões de escravizados. Decreto que determinou milhares de mortes durante a ditadura, inclusive trabalhando nas minúcias da tortura que a precederia. Decreto que cavou e segue cavando as covas de milhões de pessoas com base na cor e na geografia social.

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Ah mas agora morre rico, dirão. É certo que sim. Como também é certo que entre os ditos "recuperados" os ricos e brancos são maioria, e que deles milhares se juntariam às estatísticas se não tivessem sido tratados com o que há de mais avançado. Nem sempre funciona, mas funciona bastante. Enquanto isso a morte leva milhares de barrados na porta, sem oxigênio, entubados a frio. Se isso fosse uma peça ou um filme a morte agora entraria em cena feito uma névoa de palavras da qual sairia forte a pergunta: eu? Mas e antes de mim?

Como psicanalista, atendo gente todos os dias. Escuto histórias de vida e de morte nessa pandemia. E por essas e muitas outras, teoria e prática, vamos observando que as mortes e as perdas têm seus caminhos e narrativas que são de uma e de cada pessoa, de uma e cada pessoa que fica às voltas com esse vazio e sua presença. O que fazer é uma questão cuja resposta não é automática.

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A Psicanálise, sim, tem sido um lugar, um jeito de acolher muita gente nesse momento específico da nossa história, de pandemia, genocídio, agravamento brutal de desigualdades. E em tantos outros. É uma escuta delicada, que levanta continuamente questões clínicas importantes.

Mas a Psicanálise também devolve a bola. Quer dizer, eu, você e a morte somos herdeiros do laço social que não conseguiram queimar. Meme de mau gosto, mas verdade. Sem laço social a morte não é grande coisa. Sem considerar que quem morre era vivo, um ser humano que vivia, um sujeito com sua vida de direito, um sujeito em relação a outros, não sobra muito além de uma pilha de corpos. Sem laço social faríamos com os corpos o que fazemos, sei lá, com o lixo. Às vezes tratamos o lixo com mais cuidado do que fazemos com a morte de pessoas excluídas de uma certa noção de "quem importa". A violência que isso carrega precisa ser pensada, endereçada.

Nosso genocida, esse que cultivamos com irresponsabilidade, elitismo, amor à desigualdade, boçalidade extrema, inveja e negação do passado, ele é um exemplo disso. A boca cheia de família (a dele tão somente), de Deus (na versão dele um eco impotente), os dedos cheios de mais que morte, talvez de desejo de que nada viva ou jamais tenha vivido. Na impossibilidade disso, vale fazer da vida um equivalente do inferno onde ele se sente relativamente feliz regendo uma sinfonia de tortura contínua. O jogo do Mun-Rá é assim, da ordem do tenebroso.

Já os jornais dão outros sinais graves do empobrecimento desses laços. Os mortos nas manchetes também se empilham como objetos inanimados. Mesmo as histórias que pretensamente ouvem os sobreviventes são reproduzidas mecanicamente, sem afeto, sem envolvimento, em letras robóticas. Em nenhum lugar se lê urgência, as imagens reforçam o excesso de nada que nos conecte, tudo vai falando de uma certa anestesia e não raro alimentando-a.

Considerando o quanto pode ser e em grande parte é difícil falar sobre experiências traumáticas, falar delas em ambientes hostis ou indiferentes, mesmo quando essa indiferença vem revestida de uma objetividade covarde, de uma tal neutralidade exaltada como virtude (e aí podemos pensar tanto no jornalismo quanto na clínica, cada um à sua maneira e contexto), a coisa fica pior.

É nosso dever, o dos vivos, reviver a morte. Reviver não só seu lugar de fronteira da vida mas dar nome e história aos corpos, não como registro protocolar, mas como linha que reforça a trama do laço social onde a ausência dessas pessoas é sentida e de verdade lamentada. É nosso dever cuidar da escuta, mesmo que ela sempre tenha limites, mesmo que o acolhimento não seja sempre ou nunca suficiente.

Inscrever tantas mortes no laço social agora também inclui dizer que a maior parte delas era evitável como nos mostram as experiências de outros países com a mesma pandemia, o mesmo vírus.

A decisão de não comprar vacinas, de negar insumos, de obrigar trabalhadores a escolher entre morrer de fome e se arriscar a adoecer sob a desculpa abertamente mentirosa de falta de dinheiro. Tudo isso precisa ser escrito, inscrito, implicado. Do contrário vamos todos nos tornando não apenas cúmplices desse genocídio, mas dos anteriores e dos que virão.

Os mortos pedem que seja vivida a presença de suas ausências, vazio monumental. Quem está vivo ouça.


Um beijo,

V.

Vivian Whiteman, jornalista e psicanalista, é editora especial da ELLE e escreve sobre moda, sociedade e comportamento.

Ilustração: @viamagalhaes


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