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Talvez nunca tenhamos falado tanto em saúde mental quanto agora. Talvez tenhamos percebido que sem saúde mental não há saúde. Isso tem nos levado a questionamentos sobre nosso trabalho, sobre nossas relações, sobre tudo que consumimos e até sobre a contribuição dos meios de comunicação (incluindo as redes sociais) nos sofrimentos e desequilíbrios mentais que muitos vivenciam. Isso é muito bom, um avanço, na verdade. Mas essas discussões ainda não incluíram a influência dos ambientes de permanência ou convivência na nossa saúde mental. Estou falando sobre como as cidades e as turbulências e incongruências de uma urbanização que se deu em condições limitadas de participação popular na sua formação incidem, despertam e aprofundam nossas questões mentais mais notáveis e urgentes.

Muitos de nós temos experimentado as agruras desse período angustiante de confinamento, necessário para a garantia mínima de nossa segurança frente à pandemia. E a grande maioria sente a angústia de ter sua locomoção ativa reduzida aos limites das paredes de suas casas. A sensação beira a claustrofobia, sobretudo para aqueles que não têm o privilégio de morar nas casas e apartamentos confortáveis e espaçosos que um número ínfimo de pessoas ostenta nas redes sociais.

Há pessoas que nem ao menos têm uma pequena fresta de espaço ao ar livre pra chamar de quintal. Vivemos um tempo em que problemas tão urgentes, como a falta de habitação para parte expressiva dos que vivem nas cidades, camuflam problemas aparentemente menores, mas que impactam de forma decisiva nossa qualidade de vida: o espaço cada vez mais reduzido das habitações.

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Se para alguém que reside em uma casa ou apartamento com cerca de 150 m² ou mais o confinamento já é agressivo, imagine para famílias ou indivíduos que passam 24 horas por dia confinados em uma moradia de 45 a 50 m² ou menos, que é o padrão das construções que chamamos de HIS (habitação de interesse social) e de favelas (ou aglomerados urbanos precários, de acordo com a nomenclatura do IBGE)?

Quer dizer, temos um problema relacionado à habitação (ou falta dela), que impacta não só a saúde física, pela precariedade de infraestrutura básica (sobretudo nos aglomerados urbanos precários), mas também a saúde mental, pois a impossibilidade de estabelecer um mínimo padrão de conforto dentro dos lares mais pobres se soma a outras diversas angústias e inseguranças que vêm de outras fontes (como desemprego, relacionamentos conflituosos, frustrações diversas etc) a serem administradas.

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Mas e fora de nossas casas?

Há uma redução real de problemas que afetam nossa saúde mental? As cidades são lugares que garantem bem-estar para quem transita por elas?

Infelizmente, não. De acordo com a Urban Design for the Mental Health, entidade que faz pesquisas sobre a relação do ambiente urbano e aumento das doenças mentais, as cidades estão por trás das taxas elevadas da maioria dos problemas de saúde mental em comparação com as áreas rurais ou do campo: há um risco quase 40% maior de depressão, mais de 20% a mais de ansiedade e o dobro do risco de esquizofrenia, além de mais solidão, isolamento e estresse.

Passados mais de um ano do início oficial da pandemia no Brasil, já estamos saturados e com saudades de transitar pela cidade. Mas a reflexão que podemos fazer sobre o desejo de desbravar as cidades e sair do espaço doméstico é se, de fato, a cidade nos garante a liberdade que almejamos neste momento.

A aparente ausência de impedimentos e barreiras institucionais das cidades nos dá a falsa sensação de que a liberdade de ir e vir é plena e desfrutável para todos. Mas isso não é bem assim. E, entre muitos problemas que os espaços das cidades nos impõe, a restrição de nossa existência, locomoção e permanência é um dos que passam despercebidos.

Uma discussão muito atual no escopo dos estudos urbanos é sobre o quanto a configuração das cidades incide na nossa saúde mental. A constatação é quase unânime: a cidade adoece. De diversas formas. E pior: no Brasil, não somos educados a ter uma experiência consciente de ocupação dos espaços urbanos. Essa consciência é vivenciada pela percepção dos sentimentos que as cidades nos provocam quando estamos em contato com ela.

Ou seja, o mal-estar que a configuração e a dinâmica involuntária das cidades nos proporciona é naturalizado. Sentimos seu impacto em nossa saúde mental, mas não percebemos ou relacionamos determinadas reações comportamentais à nossa permanência e ao nosso contato com as cidades. Se estamos suscetíveis a manifestar o mau humor e diversas alterações comportamentais não tão agradáveis, após meses seguidos confinados em nossas casas, isso não significa que não experimentamos os mesmos sintomas quando estamos fora dela, ocupando os espaços das nossas conturbadas cidades.

Até nossa impressão de liberdade de transitar pelos espaços urbanos é deturpada e ilusória. Do ponto de vista social, podemos concluir sem grandes esforços que a cidade não é para todos, embora não haja restrições institucionais limitando nossa ocupação integral. Mas se olharmos de modo mais analítico, veremos que os limites de locomoção são dados não apenas pelo sistema de transporte insatisfatório, mas também pela identificação do grupo social a qual pertencemos: mulheres, LGBTQI, negritude, indígenas, pobres, deficientes físicos, por exemplo, não ocupam integralmente os espaços da cidades, simplesmente porque as cidades estão impregnadas pelo discurso que nega a diversidade que nos constitui enquanto povo.

Somado a isso, a escassez de espaços verdes, de lugares contemplativos, que funcionam como respiro em meio ao frenético ritmo a que estamos sujeitos, e a exacerbação da poluição sonora, visual e do ar são verdadeiros perturbadores da nossa tão desejada paz interior. De tão acostumados a isso, pela exposição contínua a esses desconfortos, nosso discernimento e nossa percepção do ambiente das cidades foram adormecidos. E esse estado de inconsciência frente à incidência dos problemas da urbanização em nossa saúde física e mental contribui para que as coisas mudem pouco ou quase nada.

Longe de mim querer romantizar o confinamento ou minimizar os desconfortos que ele tem nos proporcionado. Ao contrário. Proponho que pensemos nas cidades como extensão das nossas casas. O corpo é nosso primeiro lugar no mundo, a casa é o segundo e as cidades são o terceiro. Esses lugares todos se alternam na nossa constituição enquanto sujeitos e influem diretamente na formação da nossa subjetividade.

Desse modo, podemos pensar na cidade que ocupamos da mesma forma que pensamos na nossa casa, questionando sua formação e tomando consciência dos efeitos e reações que sua configuração pode nos provocar, inclusive, detectando alguns desconfortos que "sumiram" nesse período onde permanecemos confinados e, entendendo que, talvez, a dormência de nossa percepção no contato com ela não nos deixou enxergar.

Penso que é o momento de pensarmos o quanto as cidades são tão claustrofóbicas quanto nossos lares se apresentam atualmente. É o momento de educar nossa percepção e reflexão sobre os espaços que ocupamos, tanto o ambiente urbano quanto nossas moradias, para aguçar e alimentar nosso senso crítico, nos conduzindo para uma discussão mais ampla sobre como deve ser a cidade de que nossa saúde mental necessita. Sem isso, seguiremos no pós-pandemia, enclausurados e adoecidos pela influência perturbadora de uma urbanização pouco comprometida com o bem-estar físico e mental de quem a ocupa e, pior, sem nos darmos conta disso.

Joice Berth é arquiteta, urbanista, escritora, feminista e apaixonada por uma boa série. É autora do livro O que é empoderamento, da coleção Femininos Plurais.


Reações de ódio exacerbado ou de complacência falam mais sobre a nossa persona social do que sobre a "vilã" do BBB.

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