Cases e causos sobre o jornalismo de moda

Erika Palomino pega o gancho dos 100 anos da Folha para contar sobre o gênero nas páginas dos impressos.


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Os cem anos da Folha de S.Paulo despertam uma série de reflexões sobre o papel do jornalismo nas nossas vidas. No caso desta colunista, venho passando por muitos flashbacks, uma vez que trabalhei por 17 anos para o jornal, e não é exagero algum dizer que o prédio da Barão de Limeira foi o epicentro da minha vida profissional.

Foram intensas, como são no ambiente desta atividade, essas quase duas décadas de muita labuta, e amplamente diversificados, ainda que eu sempre tenha me atido ao âmbito do jornalismo de cultura. De modo que causos não faltam. Com o intuito de preservar algum foco, neste artigo ficarei no lugar do jornalismo de moda, que pode interessar mais, talvez, ao leitorado deste tão prestigioso espaço. De toda forma, essa é uma história que perpassa e ilustra o viés deste gênero nas páginas de um veículo impresso e diário.


Entrei em novembro de 1988 na Folha. Eu acabara de completar (ou estava completando) 21 anos. Não era (e não sou) formada em jornalismo. Para fazer curta uma longa história, respondi um anúncio para secretaria gráfica, fiz testes e não passei. Mas por algum motivo que até hoje desconheço, foram com a minha cara e me ligaram perguntando se eu teria interesse caso houvesse uma vaga na Ilustrada ou no caderno Cotidiano. Para minha sorte – ou destino – a vaga para a Ilustrada apareceu antes. Era para cobrir férias de alguém, eu entrei como Redatora e fiquei então até agosto de 2005 no jornal.

Na época, a moda aparecia na Folha por meio da chamada Página de Moda, onde Costanza Pascolato alternava a frequência com Cynthia Garcia. Lilian Pacce era editora da Revista da Folha, a qual criou, e editora de moda do caderno Ilustrada. Mas naquele final de anos 1980 era isso. Os lançamentos de coleções aconteciam nos showrooms e lojas, e foram esses que comecei a “cobrir”, incentivada pelo pauteiro da Ilustrada, Zeca Camargo. Me lembro em especial de um da Fora de Moda, de Marcos Morcerf e do saudosíssimo Antonio Salomão. E de outro da Forum, da coleção grunge, acho, quando fui acossada por uma micro crise de pânico, fui ao banheiro me acalmar mas não segurei e acabei indo embora rapidinho. Mesmo sendo jornalista do maior jornal do país, eu não era “da área”, não conhecia as pessoas, também ninguém me conhecia, e esses ambientes podem ser mesmo bastante intimidadores. Eu sei. Além disso, sou muito muito tímida (hoje já mais domesticada, mas enfim…). Não era simples. Também não esqueço a primeira vez que vi Costanza na redação. Eu já fechava (como editora-assistente) as páginas de moda delas, mas não tive coragem de me apresentar. Como sempre foi linda e maravilhosa a Costanza. Uma beleza muito interessante, personalidade extraordinária e sempre os melhores looks.

Aos poucos, fui fazendo algumas matérias aqui e ali no caderno. Meu primeiro “editorial” de moda (o que já era um abuso, porque não tinha editorial de moda nas páginas da Ilustrada naquela época) foi um de inspiração nos anos 1960. Entre 1990 e 1991 comecei a sair à noite em São Paulo, e descobri nos clubes Nation e Massivo um mundo à parte, em pleno funcionamento, o chamado mundinho. Transportamos esses ambientes também para o jornal, mostrando como viviam aquelas pessoas, os clubbers. O que ouvem, como dançam, o que vestem. Como se sabe, a coisa explodiu. A onda clubber foi a centelha que a moda brasileira precisava, e os desfiles que aconteciam à noite, na madruga mesmo, em lugares como o Columbia, eram assunto da coluna que estreei em 1992, a Noite Ilustrada.

Numa pesquisa de brechó, certo dia vi um atracador de ilhoses em vinil muito bem feito, e nele a etiqueta com um nome impronunciável: Herchcovitch. Depois de ter publicado uma nota contando que Márcia Pantera, a drag queen mais poderosa da cidade, tinha um picumã babado e até um estilista particular, esse estilista me ligou, se apresentando. Era ele: Alexandre Herchcovitch. O resto aqui já é história. Mas sempre é bom lembrar de Maurício Ianês, retratado numa linda e introspectiva foto em que aparecia sentado na barra de metal do Sra. Krawitz, outro clube daquele início de 1990, e do garoto Johnny, batizado Johnny Luxo porque assim gritava para as músicas boas na pista, e que a pista gritava de volta: chiqueeee.

Herchcovitch, juntamente com Fause Haten e Walter Rodrigues, foram selecionados para o Phytoervas Fashion, um evento patrocinado pela marca de cosméticos e dirigido por Paulo Borges, que dividia com Carlos Pazetto a concepção sempre muito teatral dos desfiles que então voltaram a acontecer em galpões e espaços alternativos da cidade. E que também passamos a reportar no jornal. Convenci o editor da Ilustrada a darmos uma página inteira para cada um dos três dias de desfile, com muitas fotos, creditando os nomes das modelos, dos maquiadores (era o império de Duda Molinos e Mauro Freire), dos DJs que faziam as trilhas (um jovem Mau Mau foi lançado nesse segmento por Paulo Borges, que pela primeira vez teve seu perfil num jornal). Aparecia uma nova profissão: o stylist. E a moda entrou na moda.

Quando um jornal da potência da Folha faz um movimento desses, é natural que o restante da mídia vá atrás, e assim aconteceu. Jornal da Tarde e Estadão reforçaram suas coberturas, lembrando que era no Caderno B que Regina Guerreiro trazia suas históricas matérias das temporadas internacionais. Mas voltemos à Folha.

Em 1994, Alcino Leite Neto me daria a enorme oportunidade de editar uma página por dia, quatro dias na semana, na Ilustrada, um projeto visionário que batizamos de Atitude. Otavio Frias, ao me oficializar no posto, brincou que eu seria a primeira “editora de Atitude” do jornal, então decidimos que meu crédito continuaria como colunista mesmo. E tenho a honra de ter sido a mais jovem colunista da Folha até então. E talvez uma das mais caras-de-pau. Rs

Mas isso também é assunto pra outro dia.

Com Atitude, a coluna Noite Ilustrada ganhou circulação nacional, a moda ganhou ainda mais espaço (com seções sobre moda de rua; a deliciosa Egos & Ids, escritas por Eva Joory, e tendências do terremoto jovem de então, com entrevistas incríveis, de McQueen a Marc Jacobs, de Galliano a Kate Moss). Foi quando passei a cobrir também as temporadas internacionais, primeiro Paris, com Costanza, depois Milão, ao lado de meu querido amigo Giovanni Bianco, que cedia a cama dele em seu estúdio na via Vigna, dormindo no sofá, para que eu pudesse economizar e dar conta de fazer a temporada.

Em Paris, todos nós, jornalistas, estilistas, editores, ficávamos no Pas de Calais, ou Pas de Calessa, como gostávamos de chamar. O chão em declive, as paredes finas de onde se ouvia tudo… Ninguém tinha convite para nada, os jornalistas brasileiros eram os últimos da fila do pão da moda internacional e valia tudo (mesmo) para conseguir entrar na sala de desfiles. De falsificar o convite em si, dar em cima dos/das PRs, entrar junto com a multidão, entrar no vácuo de editoras importantes, mentir, puxar o saco de gente uó, tudo isso já fiz e não tenho vergonha alguma de contar. O importante era estar lá dentro da sala de desfile, já que na maioria das vezes mal os jornais locais noticiavam com foto. A salvação era o International Herald Tribune, de Suzy Menkes. E depois, era esperar sair, meses depois, a revista Collezzioni, com todos os looks de todos os desfiles, mas a um preço impossível de pagarmos em reais nas bancas de importados.

A frequência semestral em Paris e Milão, e depois Nova York e Londres, de quando em quando, aumentou muito minha capacidade de análise, e minhas críticas de desfiles passaram a ser respeitadas. Não foram poucas as vezes que estilistas viraram a cara pra mim por meses e meses seguidos, que me criticaram publicamente ou em jantares e festas… Ou que me ligaram questionando, querendo saber mais da minha opinião, e muitas vezes também refletindo e revendo pontos para a coleção da temporada seguinte. Nessa época, a crítica era algo levado a sério e ajudava a nortear o mercado (nacional e internacional). Como teria que ser em todas as áreas. A crítica é essencial para a reflexão e, portanto, para o aprimoramento das engrenagens e para a criação de um pensamento sobre os sistemas.

Sempre fui mais do macro. Cheguei a fazer resenhas inteiras de um desfile sem mencionar sequer um tecido. Sempre gostei de achar que a moda vai muito além da roupa. E sobretudo nos textos escritos sobre os desfiles estrangeiros, meu objetivo era tentar transportar quem os lia para o ambiente da sala de desfile, esse lugar fechado, restrito, zero democrático e acessível. Minha missão como correspondente de moda ali era essa.

O tempo foi passando. Lilian havia saído do jornal (outra curiosidade é que Leão Serva, marido de Lilian, foi o Secretário de Redação que fez minha primeira entrevista, lá em 1986). E por muito tempo tentaram criar uma rivalidade entre Lilian e eu que nunca aconteceu, daquelas rivalidades entre editoras que a moda dos anos 1980 e 1990 adorava incentivar. Temos estilos e abordagens diferentes, Lilian é uma excelente jornalista, e depois faria ainda uma bela trajetória na TV.

Depois, Patricia Carta a substituiu na Revista da Folha. Em algum momento, Patrícia também saiu e assumi a edição de moda da publicação semanal. Eu havia convencido a direção de que o jornal tinha que ter um suplemento dedicado à moda, chamado simplesmente de “caderno Moda”. Mas que não durou muito porque os anunciantes não entendiam o formato tablóide. Para tentar salvar o título, ele virou a Revista Moda, com projeto gráfico ousadíssimo de Giovanni Bianco. Com Gisele na capa do número 1 se autofotografando com uma câmera analógica, naquela que se tornou a primeira selfie da moda brasileira, ideia do genial GB.

Porém, em 2000, depois de ter escrito o livro Babado Forte, lancei um site, onde a cobertura de moda ganhou a velocidade que vemos hoje na Internet. E então começou a ficar esquizofrênico competir comigo mesma (onde soltar a nota antes? Na coluna ou no site? Aos poucos, marcas e assessores começaram a preferir a internet). Também fiquei com vontade de fazer minha própria revista, incentivada pelo mercado e por anunciantes (a KEY). Entendi que seria a hora de sair. Passei dois anos me preparando psicologicamente (não se deixa uma casa como a Folha assim por impulso) e criei coragem para pedir demissão.

Logo depois, o jornal publicava um anúncio para a vaga para um redator de moda. E quem ficou no meu lugar como editor foi justamente o Alcino Leite Neto (pessoa importantíssima pra mim, pelas chances que me deu ao longo da vida, por ter sido na prática o editor do “Babado Forte”, tendo lido todas as muitas versões do livro). E como repórter dele, uma das mais talentosas jornalistas da geração dela, Vivian Whitemann, editora especial de ELLE. Pedro Diniz hoje ocupa este espaço, lidando com um mundo diferente, em que a Internet já deu conta de publicar os “furos”, e influencers substituíram as/os blogueiros que ao longo dos 2000 exterminaram a importância e a influência de críticas e editoras. Giuliana Mesquita também participa/participou desse momento mais recente na Folha, trazendo energia e certa rebeldia que me fazem lembrar momentos da minha própria jornada.

Como se sabe, com o Instagram sendo o principal veículo para o consumo da informação de moda, me pego refletindo sobre a complexidade de se falar desse segmento num jornal hoje, ainda que a plataforma seja também agora digital. Os dilemas da comunicação em moda seguem os questionamentos da própria moda. E é importante saber de onde viemos para podermos desenhar melhor nosso futuro, com mídia e como indústria.

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