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Colunistas

Com honestidade, com afeto

A luta das mulheres precisa do engajamento masculino, mas não da hipocrisia das flores e dos discursos de homens que, ao longo do ano, simulam uma evolução que não aparece nos momentos cruciais.

Ilustração: Mariana Baptista
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Entre tantas coisas que o feminismo quer e precisa, o engajamento dos homens se empenhando na desconstrução da mentalidade patriarcal e supremacista é, sem dúvidas, fundamental.

Isso significa rever posturas, se reeducar a partir de um outro entendimento de humanidade, assumir e confrontar ignorâncias, ouvir, ouvir, ouvir, ouvir, entre outras ações prática. A lista de tarefas para a transformação do macho alfa em homem de verdade, justo e de caráter voltado para a equidade é imensa.

Falo por mim, mas acredito que muitas de nós, mulheres, estamos ou estaremos de acordo em algum momento sobre a dificuldade imensurável que é promover essa transformação. A boa vontade é de grande impacto. Mas a hipocrisia, não. A hipocrisia é um dos comportamentos principais que devem ser abolidos diante das lutas contra um sistema que mata mulheres diariamente e em todos os lugares do mundo. Poderíamos usar os números do feminicídio em contraste com tantas felicitações e cumprimentos no 8 de março como prova dessa hipocrisia. Mas temos um caso curioso, que aconteceu recentemente, a ser destrinchado.

Na música brasileira, temos grandes manifestações de machismo, racismo e outros ismos que sustentam as estruturas de dominação e opressão. Parece bobinho, mas cantar em rede nacional, no horário nobre: “Olha a negra do cabelo duro, que não gosta de pentear, quando passa na pasta do tubo, o negão começa a gritar: pega ela aí, pega ela aí (…)” fortalece o senso comum de inferiorização da mulher negra, sim, além de reforçar a ideia de desvalorização da beleza negra, tão usada como bullying nos lugares de integração social, promovendo mais humilhação e abalos na avaliação da própria imagem, cravando na alma dessas mulheres um auto-ódio que se solidifica no “chão” do inconsciente, comprometendo absolutamente uma vida inteira.

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Por isso, é desejável, dentro dos limites da história, que algumas produções sejam revistas para que sejam, se não suspensas, ao menos discutidas e usadas como instrumento vivo de conscientização.

O melhor dos mundos é aquele em que os autores das produções, quando possível, façam a avaliação e o mea-culpa, reescrevendo, discutindo e conscientizando com muita honestidade o público que consumiu seu trabalho problemático. Também é função da arte se transformar ou se reinventar, quando possível e necessário.

Nesse sentido, alguns homem públicos, artistas admirados pela genialidade e influência na sociedade através dos trabalhos impecáveis que realizam, têm dado importantes e espontâneos exemplos. É o caso do querido Chico Buarque. Chico é dono de inúmeras composições que carregam a fama de traduzir sentimentos femininos – essa definição, por si só, já é problemática, uma vez que sentimentos femininos são sentimentos humanos. Logo, seria mais coerente dizer que ele traduz sentimentos de todos os seres humanos, incluindo os próprios homens.

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Muitas letras de Chico Buarque foram apontadas como problemáticas, o que causa uma angústia dupla nas mulheres que fazem esse apontamento, pois Chico é Chico, ou seja, quase uma unanimidade no reconhecimento de sua genialidade musical. Mas as transformações que precisamos que ocorram na sociedade não admitem vacilos e tampouco que alguns sejam poupados. O fato é que Chico Buarque resolveu e anunciou por ocasião do lançamento do impecável documentário O canto livre de Nara Leão, por livre e espontânea vontade, não cantar mais a música “Com açúcar, com afeto”, de 1967, composição sua eternizada em um lindo dueto com a não menos genial Nara Leão. Inclusive, teria sido a própria Nara que encomendou a canção, com o desejo de cantar as melancolias do universo feminino.

Só que era do universo feminino daquela época e, segundo o próprio Chico, ela mesma não encontraria sentido na canção se estivesse viva no mundo de 2022.

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A atitude do brilhante compositor é louvável, e mais louvável ainda foi sua total despretensão em se tornar mártir ou receber o carimbo de cancelado da vez. Ele não pediu que outros fizessem o mesmo, não pediu que o público parasse de ouvir a canção, não fez qualquer menção ou postura de exemplar aliado (ou feministo) a ser seguido por todos.

Mas as ofensas e ataques destinados ao feminismo como um todo, que vieram após a fala do compositor, continham o oposto da elegância pessoal e da honestidade intelectual do grande Chico. Foram baixos, perversos, debochados. Repetiram à exaustão que as feministas eram loucas, exageradas, desnecessárias e recalcadas. E o frágil feminismo brasileiro foi bombardeado sem direito de resposta.

Cabe lembrar que o feminismo nada mais é do que a luta secular pelos direitos e pela emancipação social de mulheres como a bióloga Bertha Lutz, por exemplo, uma das mais potentes combatentes na luta pelo direito ao voto feminino. Mulheres como a professora Leolinda Daltro, que lutou pelos direitos das mulheres indígenas; Carlota Pereira de Queirós, primeira mulher a votar oficialmente; Antonieta de Barros, primeira deputada mulher e negra de Santa Catarina; e a própria Nara Leão, vítima do estereótipo do sexo frágil, mas que jamais foi fraca ou frágil como supunha a nossa vã sociedade patriarcal.

Esses nomes de valor imensurável compõem junto de muitos outros, que não cabem aqui, somente a frente de luta na política institucional brasileira. Ainda podemos citar tantas mulheres brilhantes, de vários períodos da nossa história, que lutam diariamente contra todos os efeitos das desigualdade de gênero, raça e classe que limitam a mobilidade e o desenvolvimento social da maioria. Elas não tinham nada de loucas, exageradas, recalcadas, desnecessárias, entre outros adjetivos nada honrosos e que dizem mais sobre quem os profere do que sobre o alvo a ser atingido.

A letra de “Com açúcar, com afeto”, por mais que tenha sido inocente, ajudou em algum momento a consolidar a naturalização da subalternidade feminina no senso comum social. E os ecos podem ser observados em muitas estatísticas atuais.

Um exemplo disso pode ser conferido na pesquisa da rede Nossa São Paulo, em parceria com o Inteligência de Pesquisa e Consultoria (Ipec), que foi lançada no último dia 3 de março com o tema “Mulheres”. Nesse levantamento, um dado se alinha muito bem com a composição aposentada por Chico Buarque, que traduz a dinâmica característica dos relacionamentos abusivos da década de 1960: dos entrevistados, 34% dos paulistanos presenciaram ou souberam de alguma agressão de mulheres no último ano e 41% das mulheres assumem sozinhas as tarefas domésticas que são percebidas como “coisa de mulher”. Isso está diretamente ligado à percepção do corpo feminino como utilitário e disponível para a servidão. Os números nacionais desse tipo de pesquisa têm resultados ainda mais tristes. Ou seja, a sociedade brasileira enxerga a mulher da pior maneira possível, e aquelas que se rebelam acabam mortas ou espancadas, na maioria das vezes dentro de seus próprios e nada doce lares. Essas mesmas que fazem o doce predileto para seus homens pararem em casa, como diz a canção.

Muitos dos ataques vieram de mulheres ainda alienadas de sua condição ou que consideram apenas seus umbigos dentro

Infelizmente, não temos nada de comemorativo para o 8 de março, mais uma coisa é certa: precisamos de aliados dispostos a enfrentarem a si mesmos e os condicionamentos da estrutura machista e racista que moldaram seus comportamentos e subjetividades.

A luta das mulheres não precisa da hipocrisia das felicitações de homens que, ao longo do ano, simulam uma evolução que não aparece nos momentos cruciais – como o apoio que Chico Buarque deveria ter recebido dos próprios homens pela coragem de, do alto de seus 77 anos, confrontar suas limitações e consolidações comportamentais de homem branco de classe econômica alta, moldado por uma estrutura macho-racista.

Semanas após esse ocorrido, temos homens indignados com as falas misóginas (e racistas) de um deputado sobre mulheres ucranianas que estão vivendo os horrores de uma guerra. E, mais uma vez, a hipocrisia em não se discutir as estruturas que fazem com que todos os homens sejam, assim, meio…"mamãe falei”, nos seus restritos espaços onde só entram homens. O deputado, que não deveria ter sido eleito, ao menos agora, deve ser caçado. Mas e os outros? São realmente diferentes dele?

A pergunta que fica no ar é: até quando os homens brasileiros se esconderão atrás de flores e discursos para não confrontarem suas masculinidades que matam mulheres, com açúcar e com afetos, direta ou indiretamente, há séculos?

Joice Berth é arquiteta, urbanista, escritora, feminista e apaixonada por uma boa série. É autora do livro O que é empoderamento, da coleção Femininos Plurais.

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