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Colunistas

E se... a prisão fosse sustentável?

O que parece um paradoxo é, na verdade, um antigo esquema de pilhagem capitalista por meio do complexo industrial prisional.

Ilustração: Mariana Baptista
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Navegando pelas notícias da indústria da moda global sobre sustentabilidade na semana passada me deparei com a chamada “Lenzing fornecerá lyocell para uniformes prisionais”. A nota dizia que as 80.000 camisas dos agentes penitenciários belgas serão feitas com tecnologia Refibra “sustentável”, uma mistura de algodão reciclado pré-consumo e fibra celulósica virgem da Tencel. É a primeira vez que a Lenzing trabalha com o setor público – e começou justamente pelo complexo industrial prisional.

Esse tipo de ação resume bem a sustentabilidade que estamos conseguindo alcançar na indústria da moda de forma geral: míope para questões sociais e onde os maiores beneficiados são as corporações multinacionais com seus esquemas cada vez mais inusitados de pilhagem de recursos.

Apesar da pretensa sustentabilidade das camisas, as prisões belgas estão entre as 5 mais superlotadas da Europa, com uma densidade carcerária de 108 presos para cada 100 lugares, perdendo apenas para Romênia (119), Grécia e Chipre (111). Conforme reportagem do The Brussel Times, de abril desse ano, a superlotação das prisões é um problema crônico na Bélgica. Existem cerca de 9.300 vagas nas 35 instituições penitenciárias do país, mas a população carcerária sempre ultrapassou os 10.000, o que significa detentos dormindo no chão, literalmente empilhados um sobre os outros.

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A realidade da superlotação nas prisões europeias ressoa, ainda que em porcentagem muito menor, com a superlotação das prisões pelo mundo, incluindo o Brasil. Por aqui, segundo levantamento feito pelo G1 este ano , estamos falando de 682,1 mil detentos em um sistema carcerário capaz de abrigar 440,5 mil pessoas, ou seja, um déficit de 241,6 mil vagas. Sabemos que essa população é majoritariamente negra e pobre. Ainda, globalmente, o número de mulheres encarceradas têm aumentado exponencialmente, assim como o número de pessoas migrantes. Nos EUA, por exemplo, a população latina nas prisões ultrapassa o número de pessoas negras.

A solução dada pelos políticos do mundo todo é a construção de mais prisões, é claro. Prisões são um grande negócio desde o início do século 20. Talvez saibamos melhor sobre isso nos Estados Unidos, onde as prisões privadas e as prisões de segurança supermáxima formam um modelo de negócio a ser exportado para o mundo e implementado sobretudo em regiões fabris abandonadas após a globalização neoliberal e a desindustrialização dos países chamados desenvolvidos. Mesmo quando elas são controladas pelo Estado, como no caso belga, prisões são um nicho importante de acumulação capitalista por exigirem uma série de serviços como fornecimento de alimentação, de tecnologias de segurança, serviços de limpeza, produção de uniformes. Em outras palavras, presos dão lucro, então, quanto mais, melhor.

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O que corporações navegando no espectro da sustentabilidade parecem esquecer é que os impactos socioambientais de uma matéria-prima são apenas uma questão dentre uma série de problemas que precisam ser endereçados se queremos falar sobre sustentabilidade. Com quem estabelecemos relações e quais lógicas sociais incentivamos por meio dos nossos negócios é parte e parcela desse debate e, portanto, é imperativo que práticas comerciais sejam revisadas. Nesse sentido, fornecer camisas sustentáveis para o complexo industrial prisional é equivalente a fornecer “borracha sustentável” para a indústria armamentista.

Citando Angela Davis, “não poderemos avançar na direção da justiça e igualdade no século 21 se não estivermos dispostos a reconhecer o enorme papel por esse sistema (carcerário) no sentido de ampliar o poder do racismo e da xenofobia”. Ademais, como Davis precisamente coloca, as prisões mantêm uma lógica sexista e de extrema violência contra as mulheres – sejam elas as encarceradas ou apenas visitantes. Fora do ambiente prisional, as práticas de revista de mulheres são nada mais nada menos do que violência sexual.

Em suma, não é possível reformar as prisões assim como não é possível pintá-las de verde. Iniciativas como fornecer uniformes sustentáveis para a prisão devem ser lidas como um desenvolvimento cínico do capitalismo-patriarcal neoliberal e suas diversas formas de acumulação em cima dos corpos e territórios.

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Marina Colerato é jornalista, está como diretora-presidente do Instituto Modefica, faz mestrado em Ciências Sociais na PUC/SP e reflete sobre política, feminismos e o fim do mundo na sua newsletter Lado B. Você pode acompanhá-la no Instagram @marinacolerato.

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