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Recentemente, um novo relatório da Changing Markets Foundation analisando algumas das certificações e acordos setoriais mais importantes da indústria da moda revelou que as mais de 100 certificações existentes para o setor têm servido como “cortina de fumaça para empresas que querem aparentar estar dando passos em direção à sustentabilidade”. Intitulado "License to Greenwash" (ou Licença para lavagem verde, em tradução livre), o relatório avaliou a implementação desses certificados ao longo dos anos, bem como a forma que esses mecanismos funcionam tanto do ponto de vista de adesão como de capacidade em cobrar ações efetivas e metas rigorosas.

Após o desenvolvimento da pesquisa, os autores chegaram à conclusão que as iniciativas de certificação e de múltiplas partes interessadas na indústria da moda não são só ineficazes, como também servem de diversionismo, criando uma falsa ideia de avanço: “ao estarmos coletivamente convencidos de que as empresas têm as soluções em mãos, medidas mais sistêmicas, como regulamentação e pressão por maior responsabilidade e transparência, são negligenciadas”, alerta o relatório.

O estudo avaliou os selos de certificação (Bluesign®, Cradle to Cradle (C2C), EU Ecolabel, OEKO-TEX® e Global Recycled Standard and Recycled Claim Standard da Textile Exchange), iniciativas multissetoriais (The Ellen MacArthur Foundation (EMF), The Microfibre Consortium (TMC) e ZDHC) e conjunto de ferramentas de autoavaliação (Higg Index e WRAP). O relatório mostra que, além dessas certificações serem de adesão voluntária, elas são incapazes de sustentar seus altos níveis de ambição e estão comprometidas pelo alto nível de influência das marcas que financiam esses programas de certificação ou de alguma forma participam de sua governança.

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De fato, as principais críticas aos mecanismos de autorregulação de mercado estão relacionadas não só à falta de transparência desses mecanismos, como também como eles são moldados de acordo com as necessidades de seus criadores e gestores, ou seja, as empresas e outros atores do setor, tendo, portanto, sua eficácia para uma real transformação totalmente comprometida. Como aponta o relatório, questões centrais para a sustentabilidade ficam de fora, como modelo de negócio, dependência de combustíveis fósseis, microplástico, hiperprodução e hiperconsumo e rastreabilidade.

Nesse sentido, as marcas não só delimitam e moldam o debate e as ações para a sustentabilidade dentro de suas próprias perspectivas e interesses, como podem simplesmente escolher os temas que mais convém abordar de acordo com o momento, jogando outros temas cruciais para fora do espectro de atuação. Esses certificados, ressaltam os autores do relatório, servem ainda para livrar a cara das marcas em situações de exposição. Eles citam o caso da Primark, que usou sua adesão a um certificado para mostrar algum tipo de compromisso para o Comitê de Auditoria Ambiental do Reino Unido, assim como a Boohoo, que foi levada à frente do comitê após acusações de escravidão moderna em suas operações e utilizou sua participação no Plano de Ação de Vestuário Sustentável da WRAP, TMC e SAC para mostrar boas intenções. Apesar dessa teia de certificações e acordos setoriais não promoverem avanços para sustentabilidade, ela tem sido amplamente aceita como solução.

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A lavagem verde e a chuva de veneno

Embora eu já tenha cansado de citar dados mostrando como não estamos avançando para diminuição de uso de recursos, descarte, poluição, emissões de gases de efeito estufa etc., vou voltar à certificação Better Cotton Initiative (BCI) como um dos exemplos mais escrachados de cortina de fumaça por meio das certificações na indústria têxtil. Falando de uma maneira resumida e ligeiramente simplista, a certificação BCI foi a forma que a indústria da moda global encontrou para dar um jeito de dizer que não queria ter nada a ver com aquelas imagens de crianças trabalhando em campos de algodão no Uzbequistão, quando o país era um dos maiores fornecedores globais da fibra.

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As imagens pegavam mal nem tanto porque o país vivia sob uma ditadura – afinal, o capital sempre soube conviver com todos os tipos de sistemas políticos, incluindo a ditadura e o fascismo –, mas porque crianças executando trabalho forçado não pega bem em termos de relações públicas. Ao mesmo tempo, uma certificação serviria não só para limpar a imagem do setor como também para alavancar o agronegócio do algodão em outros lugares – como o Brasil. Seria isso o significado de estar com a faca e o queijo na mão?

Atualmente, o Brasil tem proporcionalmente a maior produção certificada do algodão BCI no mundo e até possui uma própria certificação, ainda mais rigorosa que o BCI, o Programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR), para mostrar sua sustentabilidade. O cerrado – aquele bioma que foi destruído pelo agronegócio – abriga a fazenda modelo BCI, que está nas mãos de uma empresa que concentra a maior quantidade de terras do mundo. Nessas plantações, são usados diversos tipos de agrotóxicos em quantidades tão obscenas que o algodão chega a ser a cultura que mais consome agrotóxico por hectare no Brasil e a quarta cultura que mais consome agrotóxicos entre todas as culturas, como apresentado no relatório Fios da Moda.

Entre os venenos mais utilizados está o glifosato, relacionado a uma série de problemas entre eles aborto espontâneo e a morte de mais de 500 crianças ao ano. Nada disso impede que esse algodão seja não só certificado, mas publicizado como “mais sustentável”, tanto pelas associações agrárias como pelas marcas que fazem amplo uso dessa matéria-prima em suas estratégias de sustentabilidade.

Como chegamos em avaliações ao mesmo tempo tão arbitrárias e etéreas? Se não tenho dúvidas que vivemos numa sociedade onde as narrativas importam mais do que a realidade material e objetiva, também não hesito em afirmar que essa sustentabilidade completamente vazia de conteúdo prático e, portanto, escassa em resultados eficazes, é consequência dessa autorregulação desregulamentada, que cada empresa adota como e quando quer, e que não exige nenhum resultado real de fato além de uma série de compromissos cujo não cumprimento não implica em nenhuma ação, ou melhor, sanção.

Mas qual alternativa?

Sinceramente, tem sido cada vez mais complicado fazer recomendações para diminuir o impacto da indústria da moda. A verdade é que, antes de tudo, precisamos de uma diminuição de produção para ontem e tal ação não está no horizonte do setor. Só no Brasil produzimos mais peças têxteis por ano do que a quantidade de habitantes no planeta. Lança-se mão de todas as estratégias capazes de demonstrar alguma atitude sem tocar nesse ponto central do problema: de certificações a esquemas de compensação de carbono, ainda que comprovadamente ineficazes, tudo que não implique transformações estruturais profundas é utilizado para gerar o que o relatório da Changing Markets Foundation vai chamar de cortina de fumaça. Como a crise ambiental e climática têm sinalizado há algumas décadas, alcançaremos muito pouco sem avançar no primeiro R da sustentabilidade: reduzir.

Há ainda a questão das políticas públicas, as quais os autores do relatório colocam como imprescindíveis em suas recomendações. De fato, precisamos nivelar o campo e regulamentar – a partir de fora – esse setor. Legislar e fiscalizar é importante – não só porque as empresas têm uma verdadeira fobia do Estado, e isso acontece porque, de fato, o Estado detém certa capacidade regulatória –, mas porque, quando essas políticas são bem construídas e implementadas, elas conseguem mover não apenas um ou dois atores, mas o setor como um todo, ou ao menos parte dele.

Recentemente, durante a Semana Fashion Revolution no Brasil, foi lançada a Agenda Legislativa da Moda Ética. A iniciativa busca estreitar o diálogo e a ação entre Estado e indústria da moda a partir das demandas socioambientais. Se até o presente momento são as associações patronais que têm fluxo e influência em Brasília para representar o setor em agendas a favor da reforma da previdência e da reforma trabalhista, por exemplo, a Agenda Legislativa da Moda Ética é uma tentativa de articulação a partir da outra ponta, a da sociedade civil que busca a defesa de direitos sociais acima de interesses setoriais. Fazem parte da Agenda a recusa ao PL6299/02, conhecido como PL do Veneno, e o apoio ao PNARA; o apoio ao PL do Cânhamo e a necessidade de inclusão dos “têxteis” na Política Nacional de Resíduos Sólidos.

No entanto, precisamos lembrar que o Estado é um agente de interesse na manutenção das práticas exploratórias e socioambientalmente destrutivas, a exemplo da questão agrária no Brasil, e não pode ser confiado a ele, e só a ele, a missão de limpar a sujeira do sistema de produção e acumulação capitalista, ou melhor dizendo, superá-lo. Essa missão é daquelas e daqueles que simplesmente não aceitam viver em um mundo que é sustentável apenas na narrativa.

Marina Colerato é jornalista, está como diretora-presidente do Instituto Modefica, faz mestrado em Ciências Sociais na PUC/SP e reflete sobre política, feminismos e o fim do mundo na sua newsletter Lado B. Você pode acompanhá-la no Instagram @marinacolerato.

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