E se… conseguíssemos construir um mundo radicalmente diferente?

Marina Colerato nos leva a pensar em outros mundos e outras modas em sua nova coluna mensal.


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E se conseguíssemos construir um mundo radicalmente diferente? Essa é uma pergunta que me faço dia sim dia também. Depois que a vontade de tentar tal empreitada se torna latente, fica difícil ignorá-la.

Mas o que a moda tem a ver com algo como mudar o mundo? Acredito que os últimos acontecimentos, que expuseram casos de racismo na indústria, ajudem a responder pelo menos parcialmente esta pergunta. Há muito a ser feito pela moda se ela pretende, de alguma forma, reivindicar seu espaço na vanguarda de transformação.

Há quem insista, porém, numa suposta futilidade da moda. Se nos mantivermos presos à superfície, eu até poderia concordar com essa suposição. Mas por mais que a moda tenha várias facetas, e seja uma forma de expressão cultural e de identidade, gosto sempre de lembrar que ela é acima de tudo, no sistema capitalista global, uma indústria importante avaliada em quase três trilhões de dólares.

Da negociação de commodities na bolsa de valores a cooperativas de reciclagem de lixo, passando pelo mercado milionário da publicidade e pelas oficinas clandestinas de costura, as roupas — e a moda — permeiam, como nenhum outro produto ou setor industrial, toda a vida socioeconômica moderna. O que lhe resta de fútil está restrito à aparência.

Do século XVII ao XXI

Uma rápida busca na história situa a indústria da moda, uma versão rascunhada e ainda embrionária do que conhecemos hoje, num lugar de destaque. Se na faculdade a história da moda que me foi apresentada estava unicamente relacionada à evolução da indumentária europeia, meus estudos sobre economia política me levaram a mares um pouco mais revoltos (e revolucionários). Afinal, os teares têxteis podem ser considerados os pivôs materializados da Revolução Industrial inglesa e um marco das mudanças que se desenrolariam a partir dela.

Hoje, quando vejo as tentativas de sindicalização de costureiras e costureiros que ganham menos do que o necessário para sobreviver em fábricas de roupas na Ásia, me lembro de uma série de greves de operários têxteis e tecelões que se desenrolaram a partir da revolução industrial. Na França, a primeira revolta da fome aconteceu em 1831 entre os operários das fábricas de seda de Lyon. Em 1840, as revoltas da fome chegaram à Alemanha. No Brasil, a greve geral de 1917 foi iniciada por cerca de 400 operários, maior parte mulheres, trabalhadores da fábrica têxtil Cotonifício Crespi na Mooca, em São Paulo, que além de salários e jornada de trabalho traziam na pauta grevista o assédio sexual no ambiente de trabalho.

Mas nem só de operários esfomeados se formou a indústria da moda como a conhecemos hoje. Com a capacidade produtiva aumentada somada à ascensão da nova classe burguesa na Inglaterra, as fazendas de algodão dos Estados Unidos, principal produtor de algodão do mundo até hoje, aumentaram em mais de 90% seu volume produtivo com um misto de maquinário simples e muita exploração da mão de obra de negros escravizados nas plantações.

É possível que seja um pouco desconfortável olhar para a moda a partir dessas lentes. Porém, não é interessante entender um pouco mais a história, completa, do que vestimos? Aprender com a moda pode ser surpreendente. Levá-la para outros patamares de discussão também.

Em meados de 1860, com a produtividade das fazendas de algodão americanas ameaçada pela guerra civil, a burguesia têxtil inglesa recorre às Índias (sob domínio da coroa britânica e que hoje correspondem a Índia, Paquistão, Bangladesh e Myanmar) para garantir sua necessidade de matéria-prima. O único jeito era restringir a cultura de bens de subsistência daqueles lugares, como o arroz, para expandir a de algodão. Como consequência da restrição, em 1866, um milhão de homens no Norte de Bengala são atingidos pela fome devido à inflação dos preços dos alimentos agora escassos. A comida para alimentar a população local havia sido trocada por tecido para engordar os guarda-roupas de uma parte da população europeia e os bolsos da burguesia inglesa.

Talvez você esteja pensando que isso tudo ficou nos séculos passados. Em partes este pensamento está correto. Não temos mais operários esfomeados ao lado dos teares a vapor. São máquinas de última geração com alguns poucos operários especializados e devidamente protegidos. Entretanto e infelizmente, a fome e a escravidão seguem sendo questões importantes que ainda não conseguimos resolver — e as pessoas nestas situações tem cor na pele e não é branca.

É por isso que eu não me canso de falar da importância da moda. Enquanto a dignidade não estiver permeada pela indústria, não cessarei de pautar o que deveriam ser suas urgências.

As consequências no agora

Continue comigo, agora uns séculos adiante. Vamos nos deter à região da então nomeada Índias, onde em 1800 a comida havia virado algodão. Em 24 de abril de 2013, o desabamento de um prédio de oito andares que abrigava fábricas têxteis chamado Rana Plaza deixou um saldo de 1127 mortos e dezenas de desaparecidos e feridos em Daca, a capital do Bangladesh. Essa cidade, que talvez você não conheça, exportou itens de vestuário no valor de US$ 30,1 bilhões nos primeiros 11 meses de 2019 e é um dos polos confeccionistas mais importantes do mundo.

Seguimos. Em novembro de 2016, 13 pessoas são mortas num incêndio em uma fábrica têxtil em Ghaziabad, próximo à Nova Dehli, na Índia. Avancemos mais. Em dezembro de 2019, um outro incêndio em fábrica têxtil deixou ao menos 43 mortos, agora em Nova Délhi.

Essas mortes são consequências de estruturas, tanto predial quanto de vida, tão precárias quanto às dos séculos anteriores. Os tecelões esfomeados de Lyon viraram as costureiras soterradas de Bangladesh. Além dessa similaridade, está o fato de que essas fábricas têxteis seguem servindo à burguesia europeia, representada hoje pelas grandes marcas e grupos de moda. Nós podemos voltar ao Brasil também, com os diversos casos de trabalho análogo à escravidão flagrantes. Ou até mesmo à Los Angeles, nos Estados Unidos, ou Leicester, na Inglaterra, onde imigrantes, principalmente mulheres, trabalham produzindo roupas de forma insalubre e desumana.

Eu não poderia encerrar a sequência de exemplos (ou seriam alertas?) sem voltar à indústria algodoeira. Se as plantações americanas se livraram do trabalho escravo nas suas plantações, trocando-o por grandes e potentes máquinas que hoje fazem o trabalho de dezenas de trabalhadores rurais, o mesmo não podemos dizer das fazendas de cotonicultura do Uzbequistão, décimo maior exportador de algodão em 2019, cujo trabalho forçado e infantil segue instaurado nas fazendas. Tampouco podemos deixar de mencionar o Brasil, segundo maior exportador de algodão, com produções inteiras baseadas em cultivos rotativos com soja e milho, formando a elite do agronegócio brasileiro (aquele que diz que é pop).

Essas informações todas são insumos para nossas conversas futuras. Quando extrapolamos as tendências, enxergamos um universo inteiro sobre a moda para ser explorado, debatido, escancarado.

Se você estiver sentindo falta de debates tão urgentes quanto a questão do trabalho, como, por exemplo, o papel da moda na crise climática, considerado o maior desafio da humanidade hoje, já te aviso que deixarei este debate para mais adiante.

O primeiro passo é sair da superfície e acredito (e espero) que, caso você enxergasse a moda pelas lentes da futilidade, os exemplos contemporâneos e históricos tenham servido para te trazer comigo para a outra moda, aquela dos IPOs, que movimenta mercadorias pelo globo e se relaciona com uma diversidade de atores.

Se estivermos realmente dispostos a pensar em um outro mundo precisaremos, sem dúvidas, ter a coragem de conhecer, pensar e agir para uma outra moda.

Marina Colerato é bacharel em Design de Moda pela Belas Artes, pós-graduanda em Gestão de Projetos pela FGV, pesquisadora independente de economia política, mudanças climáticas e questões de gênero. É editora chefe do site Modefica e é co-fundadora da agência de design e comunicação Futuramoda. Organiza o Buen Vivir Book Clube, clube de leitura focado em pós-capitalismo e ecologia a partir de uma perspectiva latino-americana.

 

 

 

 

 

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