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O Brasil é surreal. Seguimos num blur, nessa realidade embaçada, nesse embaço. Vamos tentando entender. A gente lê o jornal, vasculha a internet, repete o gesto incessante pela tela do celular, entre feed, stories, reels. Tentamos realizar.

Na TV, William Bonner aparece de barba e bigode. Zera o twitter, mobiliza os sites de "notícia". Nem o William Bonner tá aguentando, escrevem alguns, desencanou. Voltou de férias e quis experimentar, declara o apresentador, que mobiliza love and haters. Não me contento em ler sobre, em ver as fotos. Quero ver. Ligo a TV, quero ver o William Bonner de barba e bigode. Quero ver se é verdade mesmo. Porque ler sobre não é suficiente. Porque ler sobre a tragédia amazônica não é suficiente, porque não consigo lidar, terror ao vivo em tempo real. Vou ouvir Ailton Krenak conversando com Anna Dantes no ciclo Selvagem. Pra ter ideias pra adiar o fim do mundo. Para ganhar um pouco de fé e de coragy. Haja coragem.

Os números números números a que somos submetidos nesse Brasil surreal não nos atingem mais nem a realidade surreal nem mais as perdas inacrê. O reality show duchampiano da CPI da Covid sem prova de líder está cheio de monstro. Quem vai ganhar? Estamos perdendo. Aquele fundo gráfico ruim atrás deles me hipnotiza. Preciso da narração do Marcelo Adnet. Ele sim, e Randolfe, me explicam ao menos o que está acontecendo. O nevoeiro.

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O helicóptero voa baixo.

Passamos de 450 mil. Não, não é a terceira onda. Ah bom.

Bob Dylan faz 80 anos. Há mais de meio século Robert Zimmerman tenta nos explicar sobre a vida, tenta fazer as coisas terem sentido. Ou não tenta, mas faz. Já Paulo Archias Mendes da Rocha, que colocou uma piscina na rua Vinte e Quatro de Maio, em São Paulo, não está mais aqui. Sua obra fica para contar a história. Logo ele, que contou tantas para tantos.

No outono carioca, a luz rarefeita da manhã desenha os contrastes dessa cidade e do morro do Pão de Açúcar. Da água, consigo ver o Morro da Urca. Da janela do carro, a Baía da Guanabara passa rápida. No meu post, parece em slow. A ilusão retiniana. Tá vindo na formatura ou no Bolsonaro? Quem são essas pessoas, que negam, que desacreditam? Acreditam na Mona Lisa ou no bigode, dela, dele? Me falta o ar.

Preciso trocar de máscara. Preciso respirar. George Floyd morreu faz um ano. Ninguém respira. Ninguém dorme. Nem aqui, nem na China nem no Jacarezinho.

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Não pode abraçar.

O Cristo Redentor abre os braços para a despedida de Paulo Gustavo, e a gente amava ele tanto, e ele também (se) vai de modo surreal, e a gente nem sabia que amava ele tanto porque ele estava aqui todo dia. Decido viver mais. Decido pelo direito sobre-humano de tentar ser feliz e pela obrigação ancestral de ser feliz. Ao pé do ouvido, Bebel Gilberto me sussurra que é melhor ser alegre que ser triste. Sorri, na minha lembrança, cantando e sorrindo. Acho lindo quem canta sorrindo ou que sorri cantando feito Caetano Veloso e Bebel Gilberto. Decido pelo direito de ser alegre, já que "felicidade" mesmo não existe no amanhã, nem no hoje. Rir, ensinou Paulo Gustavo, é um ato de resistência. É mesmo. Decido que vou tentar rir mais todos os dias. #sorrisonamáscara.

Me exercito rir também com o corpo e com os olhos, para que saibam que estou rindo, sob a máscara. Fico tentando descobrir como é o rosto de quem não conheço, sob a máscara. Coloco os óculos sobre os óculos que já estou usando, sob a máscara. Devo estar ficando maluca. É que ando enxergando embaçado. Tá tudo mesmo embaçado. E não consigo respirar.

A terça-feira parece quarta; a quarta parece quinta da semana passada; a sexta parece uma terça chata. Toda semana parece uma pegadinha no calendário. Vai ter feriado? Esse feriado, existe? Sábado daria pra respirar mas há tanto e nada a se fazer. O 13 de maio, esse não existe: passemos ao Dia Seguinte, aquele dia que nunca termina. A única constante não é a mudança, a única constante é o genocídio negro, desmascarou Abdias Nascimento, sobre a construção do Brasil. Essa constante, diária, e na nossa cara.

No Jornal Nacional, William Bonner aparece de barba e bigode. Ele só voltou de férias, e quis deixar como estava, assim, de quando estava de férias. O jornal acaba e, sem jeito, ele sorri.

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