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Ilustração: Marcela Scheid
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Hoje eu chorei. Ontem também. Faz um tempo que eu marco os dias com choro. O choro antes de tudo diz que eu estou viva e que ainda sou capaz de encarar. Mas eu tô com medo. Não, eu tô apavorada. Faz um ano que eu uso a máscara certa, trabalho em casa, faz um ano que eu saio pouco, não entro em restaurante, não vou pra bar nem praia, que eu evito entrar em supermercado. Longe dos amigos, de familiares. Tudo isso porque eu posso. E mesmo assim eu choro. Com medo. Apavorada. Não sei como seria se tivesse de entrar em um ônibus cheio todos os dias. Mas vou escutando como é. E é violento. As pessoas choram. Com medo. Apavoradas. E seguem obrigadas.

Trabalhe ou os seus morrem de fome. Arrisque-se diariamente a morrer ou os seus morrem de fome. A comida caríssima. A violência cada vez mais gratuita. O choro inaceitável da barriga vazia, dos mais terríveis barulhos, sintonia da brutalidade. Não aceito, luto como posso, sinto que preciso lutar mais.
Choro ao ouvir os números. Eles escorrem cara abaixo e talvez me digam seus nomes até serem secos, dilacerados, apagados por um lenço, uma esfregada de mão. Choro mais porque já trocou o dia e mais um batalhão de mortos virá transbordar seus dígitos, suas histórias, seus apelidos de infância.
Choro de raiva. Das pessoas na sala de jantar. Das pessoas nos salões de jantar. Da janta que falta como se o erre elitista decidisse quem vai comer e quem não vai.
Acordo pensando no que fazer contra a monstruosidade comandada por humanos. Às vezes não durmo. Ando sozinha nos quarteirões vazios para que minhas pernas se lembrem da rua. Vejo as pessoas nos ônibus indo e voltando do trabalho, roleta russa social das mais brutais. Vejo as pessoas em bares e restaurantes chiques. Não consigo gostar delas. Penso nas regras, nas medidas, nas vacinas, em tudo o que não foi feito para evitar milhares de mortes. Não evitar centenas de milhares de mortes é planejar centenas de centenas de milhares de mortes evitáveis.
Choro o que me ultrapassa. Não estou só.
Lágrimas de um país que chora. Água de formar poças, rio, mar. Sobem vapores intensos, densa nuvem, dura nuvem, inquebrantável nuvem onde se unem fluxo, ondas, raio e trovão. Num estampido a tempestade derrama.
Faz mais ou menos um mês que acordo antecipando raios. O raio que o parta. O sem partido. O quadrilheiro. O urubu. O mortes nas costas. O carniceiro. O sem coração. O raio que o parta. O sem cabeça. Sonho um choro de alívio. Ele tem o som de milhares de adeus e de milhões de amores vivos.

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Vivian Whiteman, jornalista e psicanalista, é editora especial da ELLE e escreve sobre moda, sociedade e comportamento.



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