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Em meio a tantas dúvidas que, por natureza, já temos em relação à sexualidade e ao amor (ou ao desejo, à paixão, ao tesão), durante a pandemia podemos adicionar mais estas categorias: sexualidade em meio ao caos completo e amor (ou desejo, ou paixão, ou tesão) enquanto parece que o mundo está acabando. E, por isso, a coluna de hoje vem para quem divide não só o afeto, mas também o mesmo teto com a pessoa amada, e não sabe mais o que fazer com a intensificação da convivência durante essa quarentena que já dura um ano. Mas, claro, lembrando que farei aqui um recorte para as pessoas que podem se isolar e trabalhar de casa, sabendo que isso é um imenso privilégio em um país que se encontra em colapso e sem amparo algum.

E como sempre escolho uma pergunta que veio lá da caixinha dos stories do Instagram da @ellebrasil para conseguir adentrar mais na resposta por aqui, a escolhida desse mês foi: "Claris, eu e minha esposa nos desconectamos completamente durante a pandemia. E agora? O que a gente faz?". Então, pensando em você, querido leitor, e em muitos outros casais que estão passando pela mesma situação, fiz uma lista com cinco dicas para nutrir essas relações, seja durante um apocalipse ou não.

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Dica 1: Respeitem a privacidade e a individualidade um do outro

É um erro bem comum nos relacionamentos achar que, só porque as pessoas estão juntas, elas precisam ficar juntas o tempo todo, ou que duas pessoas apaixonadas viram uma só. Não mesmo! Estar em uma relação é uma escolha diária e consciente, não uma necessidade que apaga sua individualidade. E, agora que muitos estão tendo que dividir o mesmo espaço 24 horas por dia, 7 dias por semana, finalmente estão percebendo a importância de um momento só para si. Então, na medida do possível, conversem sobre a necessidade de cada um ter esse tempinho para se cuidar, não fazer nada, meditar, se tocar, enfim, o que vocês quiserem fazer. Organizem uma dinâmica que funcione para os dois da maneira mais tranquila possível (ainda mais se há filhos ou outras pessoas na casa), nem que isso inclua, literalmente, colocar na agenda "quartas, das 19h às 20h, tempo para mim" ou "quarta, das 19h até 20h, tempo da minha parceira, não interromper".

Dica 2: Trabalhem bem a comunicação para ela ser a mais clara possível

Esse é um gancho da primeira dica porque outra coisa que não nos ensinaram muito bem é ter uma comunicação transparente, principalmente em relação aos nossos desejos. Quando se trata de travas ou impasses, sugiro que vocês procurem ler sobre comunicação não violenta, mas para além dela, em vez de fazer mil planos mirabolantes ou rodear muito na hora de falar o que você quer, tente apenas falar de maneira objetiva, trazendo os temas com carinho e jamais como imposição os sentimentos e vontades que você gostaria de dividir com o outro. Quer tentar uma fantasia nova? Aprenda a conseguir dizer: "Queria tentar essa fantasia com você, o que acha?". Conversem sobre as possibilidades que essa fantasia envolve, preste atenção em como o outro se sente em relação ao que foi trazido, e, caso a questão traga qualquer desconforto, conversem sobre e não insista. Só assim a gente consegue construir essa base sólida na relação, sem medo, mas com muita confiança e respeito mútuo.

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Dica 3: Tenham dates dentro de casa mesmo

Nos tempos pré-pandêmicos, era normal que casais pudessem sair para jantar, dançar e se aproveitar de maneiras mais diversas. Agora, sem restaurante, cinema ou outros lugares que representam essa magia do mundo lá fora, faz sentido tentar trazer alguns elementos dessa época e criar certas adaptações para o ambiente que é compartilhado entre vocês. Separem uma noite (ou um dia) da semana para reviver esses momentos dentro de casa. Se arrumem como se fossem sair e peçam ou façam a comida que vocês gostam, coloquem as músicas que vocês mais escutavam quando saíam, tenham esse tempinho para ver um filme juntos, deixem o celular um pouco de lado... o que funcionar melhor para cada casal! O importante aqui é ter esse tempo de qualidade, nem que seja uma vez ao mês, em que não falte presença e vontade de ambas as partes.

Dica 4: Dividam de maneira justa os afazeres de casa para que ninguém fique sobrecarregado

E essa é mais direcionada a homens em relações heterossexuais porque eu vejo muitos de vocês percebendo uma queda na libido da parceira e, em vez de conversar sobre o que o que pode estar acontecendo na vida dela que acabou afetando o desejo sexual, acabam comprando lingerie sexy ou sex toys como forma de "resolver" essa questão. Não é bem por aí, meus caros. Às vezes, ela só está exausta e sobrecarregada, e não há pessoa no mundo que consiga manter a libido boa nesse cenário. Então, muito melhor do que presumir que a sexualidade é um botão à parte do resto da nossa vivência, que pode ser simplesmente ligado com um mero elemento sensual, entenda que tudo que acontece no dia a dia influencia na vida sexual. Então, perceba: sua parceira tem muito mais tarefas dentro de casa do que você? Comece a refazer essa divisão de maneira justa e só assim ela conseguirá relaxar para viver a intimidade de uma maneira mais leve.

Dica 5: Entendam que nós estamos em constante mudança, principalmente em casos extremos

Ninguém é hoje a mesma pessoa que era no começo da relação, vocês estando juntos há muito ou pouco tempo. A pandemia vai mexendo com a gente de maneiras bem intensas, seja fisicamente ou mentalmente, e por isso é tão importante respeitar esse processo pessoal e se cuidar da melhor forma possível. Aquela frase que nos dizem antes do avião decolar "Em caso de emergência, coloque a máscara de oxigênio primeiro em você, para depois conseguir colocar nas outras pessoas" também vale para a vida no geral. Se cuide mentalmente antes de querer tentar salvar o outro. Nesse processo íntimo e pessoal, perceba se as mudanças do outro acompanham a sua própria mudança, se você ainda consegue reconhecer a pessoa com quem divide a vida, e consegue admirar e querer bem por mais que ela não seja exatamente igual era antes. Sempre mantenham o diálogo aberto para saberem decidir juntos como caminhar na mesma direção, da forma que mais fizer sentido e bem para ambos.

Percebem como são pequenas coisas, mas muito significativas? Tudo é sobre comunicação e perceber da maneira mais genuína aquele outro indivíduo que você escolheu para estar junto, seja na vida normal ou durante uma pandemia cruel e longa. Se relacionar é um trabalho diário, requer atenção, presença e muitos outros elementos. Desejo que vocês consigam se olhar, se cuidar, e saibam passar por toda essa loucura da maneira mais sã e saudável que der. E todos meus sentimentos a quem perdeu seu amor durante a pandemia, sintam-se abraçados e saibam que o afeto é a coisa mais bonita que conseguimos proteger dentro de nós. E lembrem-se: Se possível, fiquem em casa.

Manual do casal saudável em tempos apocalípticos youtu.be

Clariana Leal é educadora sexual e carrega como propósito a abertura honesta e inclusiva do diálogo sobre sexo, desejo e corpo. Ela é também sócia da primeira sex shop brasileira 100% focada no prazer feminino. Na sua coluna Prazer sem dúvidas, vai responder mensalmente as dúvidas do público da ELLE pelo Instagram e também aqui no site.


No início da pandemia, muitos casais de namorados decidiram passar a quarentena sob o mesmo teto. Nove meses depois — e contando — é preciso pensar nas consequências legais dessa escolha.


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