Chover na sua sala

Sobre casas, descaso e capas de chuva.


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O errado do mundo mostra os dentes quando chove. Não uma chuvinha dessas, uma daquelas, que ri dos carros e chama todos os barcos que não podem chegar. Vejo um filme velho sobre anjos e demônios, todos usam a água para transmissão, água que está além do bem e do mal mas que nem por isso deixa de saber a diferença. Lembro do filme Parasita, bem mais novo, em que o inferno dos empregados na tempestade é o paraíso dos patrões, sua purificação.

Há casas que mal servem pra morar, que botam em risco seus moradores. É preciso esperar o alagamento ceder para contar de novo os prejuízos, tirar a lama, lamentar as perdas. As roupas todas se vão, os sofás, o fogão. Outros não esperam nada a não ser que a chuva acabe, porque não há resgate nem casa nem coisa nenhuma a perder. No horizonte, no máximo, um deslocamento obrigatório para um teto provisório e hostil.

Há centenas e milhares de prédios vazios onde as paredes perguntam, por que não se faz aqui uma casa? E há milhares e milhares de pessoas que entram em acordo com essas paredes e dizem, sim! Aqui faremos nossa casa. E lá vem o camburão do deslocamento obrigatório, fazendo o despejo sem resgate, sem cuidado, sem razão, sem nada. Tantas vezes com ódio.

Quando as pessoas que esperam a chuva passar na rua temem pelos seus filhos pequenos, pelos seus velhos e doentes, quando temem por seu coração exausto de tanto frio, de tanta feiúra, o pelotão levanta papéis. Nos papéis estão nomes de gente com tantas casas que é difícil contar. Gente que abandona, não paga, não quer, não cuida, mas que exige a manutenção da propriedade enquanto toma o desjejum em pratos limpos demais para suas mãos.

As paredes não se conformam. As pessoas também não. Quando pessoas se juntam para lutar por moradia a isso se chama um movimento social. Não é feito de anjos nem de demônios, mas de gente e suas contradições, unidos pela percepção de que ter onde morar deve ser um direito na realidade. Nas janelas abandonadas elas enxergam um até logo, um pôr-do-sol, uma cortina, uma tela de gato, um cigarro pela metade. No terreno sujo e inútil elas enxergam trabalho coletivo, hortas, cozinhas e a cidade se levantando.

Há quem se assuste mais com as pessoas que decidem ter onde morar do que com as tempestades que arrastam sem-teto para a morte. Seja por enchente, desgosto ou pneumonia. Há gente que prefira defender o documento que diz que é de alguém um prédio vazio, imundo, deixado anos, décadas, feito um esqueleto a céu aberto bem na cara da cidade.

Em entrevista à ELLE, Pabllo Vittar falou sobre passar parte de sua infância em um acampamento do MST. Todas as semanas chefs de restaurantes famosos doam seu talento na cozinha da Ocupação 9 de Julho para conscientizar as pessoas de que ali há trabalho coletivo, famílias, uma forma de organização popular. Há dezenas de coletivos, documentários, livros feitos por sociólogos, historiadores. Há as falas dos integrantes dos movimentos, as de seus apoiadores. Há meios de saber do que se trata, das qualidades e defeitos.

Mas ainda vemos uma elite que se diz assustada, que não quer saber e se ressente profundamente de ser informada. Que exige tão somente o que lhe convém e usa o medo como ferramenta. Ainda vemos políticas públicas mais preocupadas em impedir o avanço da moradia popular do que em resolver as questões que jogam tantas famílias na rua.

A fome está em todas as notícias. As pessoas comendo ossos, milhões buscando comida no lixo, mães sendo presas por roubar um pacote de macarrão para alimentar os filhos. Cada vez menos possibilidade de emprego.

Lembro do herói de um filme fantástico, o homem da capa de chuva de Corpo fechado, do M. Night Shyamalan. Bruce Willis e seu look utilitário, um take Balenciaga e o escrito que diz “segurança”. Estar seguro hoje é coisa para poucos, bem poucos. Lembro de Cantando na Chuva e de Os Guarda-Chuvas do Amor, sua doçura, sua alegria, penso que farão mais sentido em outro mundo com menos dor.

Mas lembro também, anos atrás, da imagem de uma menina com seu caderno de escola embaixo de uma capa plástica enquanto chove em sua casa, a rua. A manchete do portal, violenta, inacreditável, a chamava de “inspiração”. Talvez seja mesmo dentro da lógica de uma meritocracia baseada em nome e herança, trituradora de gente, que assiste com satisfação caridosa o sofrimento alheio.

Como se chama uma pessoa que ainda precisa ser convencida dessas coisas tão básicas? Gente de casa grande? O que terá acontecido com sua humanidade para desconhecer tão facilmente a do outro?

Eu por mim hoje só quis incomodar suas fantasias bucólicas, seu conforto, fazer chover na sua sala, no seu café quentinho. Não porque você não tenha direito a eles, mas porque todas as pessoas têm e precisam de fato usufruir disso.

E você, no que pensa quando chove forte?

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