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Colunistas

Mudei de opinião. E daí?

De sexo à carreira, por que fazer novas escolhas passa a ser tão questionável na maturidade?

Ilustração: Mariana Baptista
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Sempre gostei de ficar imaginando o que ia querer escrito na minha lápide quando eu morresse. Na época em que eu estava acima do peso (e ainda sofria pelos padrões estéticos), pensei em “Finalmente, magra”. Quando tive depressão, bom... quando tive depressão, não consegui pensar em nada, mas depois que passou, imaginei que “Morreu muito antes da data que você lê aqui” podia fazer algum sentido. Ao enveredar pelo espiritismo: “Já volto”. Nos tempos de rebeldia: “Deus também erra”. Na fase claustrofóbica: “Falei que era para ser cremada!”. Quando o mundo começou a virar tecnológico (sim, somos dessa época): “Enfim, off-line”. Muitos anos se passaram e hoje, madura, não penso mais nisso. Entendi que em cada fase da vida, dependendo das circunstâncias ao redor, minha opinião mudaria. Conscientemente ou não, é natural que seja assim com quase todas as pessoas. Por exemplo, já teve um dia que tudo o que a gente mais queria era ficar dentro de um útero, certo? Passados nove meses, aquele lugar ficou pequeno, apertado, incômodo. Ironia ou não, o mesmo lugar que nos manteve vivos, de repente, se tornou uma sentença de morte, caso por lá resolvêssemos ficar. Então, preferimos sair e, do lado de fora, por outros tantos meses, mamamos no peito ou na mamadeira, até que, um belo dia, nosso corpo entendeu que estava na hora evoluir e, então, uma fruta amassada ou uma papinha cremosa começaram a chamar muito mais a nossa atenção. Aprendemos a andar, mas não sem antes de ter certeza de que se arrastar pelo chão de um lado para outro era o ápice da liberdade. Na escola, experimentamos vários tipos de matérias e esportes e, a cada trimestre, muitas vezes até em bem menos tempo, elegemos um preferido diferente. Pela vida, vamos tendo inúmeras melhores amigas, mesmo amando todas igualmente. Namorado? Ah, esse é quase um capítulo à parte. Uma hora gostamos do mais popular, outra do mais tímido, outra do mais bonito, outra do mais inteligente e, outras tantas, nem sabemos exatamente por que gostamos dele. Só gostamos. Nós, aqui do @she_t, mudamos de opinião, de gosto e nem por isso deixamos de ser nossa essência: valores e caráter não mudam.

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E a montanha-russa de diferentes opiniões com direito a looping não pararam por aí. Até quase meus 30 anos, vivi a fase dos estereótipos. Hippie porque não depilava nada e só ouvia MPB, punk por gostar de cabelo moicano e “Bichos Escrotos”, dos Titãs, andrógina ao usar terninho, gravata e uma meia de cada cor (alguém aqui se lembra da Laurie Anderson?), nerd quando resolvi usar óculos de grau (não só para estudar), intelectual ao querer fazer parte do diretório acadêmico da faculdade e sexy mesmo sem saber bater cabelo até hoje. Nesse processo frenético de tentar encontrar meu lugar no mundo, fui muitas. Mas hoje entendo que, de uma forma ou de outra, todas acabaram desembocando em mim. Com a Camis, não foi diferente. Há alguns anos ela colocou silicone e, hoje, não faria de novo. Já pensou em morar fora, preferiu ficar no Brasil e agora, de novo, está às voltas com essa ideia. Além disso, ela passou a juventude pintando o cabelo branco (sim, ela tem desde os 20 anos) e, de uns tempos para cá resolveu, orgulhosamente, assumi-los. Se isso significa que ela nunca mais vai pintar? Claro que não. Hoje ela está assim, amanhã, quem sabe? Até porque, em se tratando de cabelo, podemos esperar qualquer coisa da Camis, né?! E está tudo bem!

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Alguns vão dizer que experimentar faz parte do universo infantil e ter dúvidas faz parte da adolescência, da juventude. Fato. Mas por que será que chega uma hora na vida em que mudar de opinião passa a ser uma coisa questionável? Como assim não quer mais continuar casado com alguém que jurou eterno amor? Como assim quer mudar de país agora que está estabilizado no emprego? Como assim quer fazer outra faculdade a essa altura da vida? Como assim?! Simples. Pessoas inteligentes decidem algo em determinado momento e sob certas circunstâncias e, se o entorno muda, é normal (ou pelo menos deveria ser) que elas reavaliassem suas posições e, simplesmente, mudassem de opinião. Sem drama. Mas, infelizmente, à medida que os anos passam, não é bem assim. E o pior: algumas mudanças de opinião te jogam diretamente na gaveta de “velho”.

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Outro dia, a nossa querida Pati Oyama, editora dessa revista, nos contou que ficou pasma ao perceber que, para ela, o acontecimento do mês foi comprar uma air fryer. Nesse momento, ela teve a certeza de que estava ficando “velha”. Bom, Pati, vamos nos desesperar com calma. Sim, isso talvez seja mesmo um reflexo de que você está envelhecendo, mas nossa sugestão é que você tente olhar por outro ângulo. Sabemos que é difícil, porque há séculos nossa sociedade valoriza a juventude como principal capital de uma mulher. Mas se há 20 anos sua prioridade era sair com os amigos e encher a cara em um bar e, hoje, você mudou de opinião e cuidar de sua saúde passou a ser mais importante, o assunto não é sobre “estar velha”, mas, sim, sobre “estar mais madura”. Vale lembrar que o poeta espanhol Miguel de Cervantes já dizia, lá por volta de 1600, que “É dos sábios mudar de opinião”.

Mas, nós entendemos esse seu sentimento, Pati. E, confessamos que eu e a Camila, diariamente, também travamos uma luta contra nosso próprio preconceito e tentamos derrubar as narrativas que nos contaram a vida inteira sobre a visibilidade da mulher apenas enquanto jovem. No Brasil, envelhecer é difícil sob qualquer ângulo. E não só pelo aspecto físico e social, que já sabemos de cor e salteado, como, também, porque ao amadurecermos, vamos, sim, mudando de opinião e somos chamados de “velhos” justamente por isso. Quantas vezes, ao escolhermos ficar em casa com os amigos em vez de socializar com estranhos em uma balada, não ouvimos “ih, tá ficando velha”? Saiba, caro leitor, mudar de opinião não é sinônimo de velhice (e ainda que fosse, não é errado ser velho), mas de amadurecimento. As prioridades são outras, as escolhas são outras, as consequências são outras, os assuntos são outros. E por que não assumir que, sim, nossos corpos também mudaram e já temos sabedoria o suficiente para entender que devemos tratá-lo bem. Não nos julguem por preferir um tênis confortável a um salto 15. Iremos percorrer o caminho de qualquer maneira. Não nos julguem por respeitarmos o próprio ciclo do nosso corpo e escolhermos dormir durante a noite em vez de varar até o dia seguinte. Iremos despertar igual ou até mais dispostos do que muitos jovens. Não nos julguem por querer usar uma roupa mais confortável em vez de uma calça dois números menor. Iremos respirar da mesma forma, mas, provavelmente, aliviados o tempo inteiro. Não nos julguem quando pedirmos para baixarem o som, só queremos ouvir o que os amigos têm a dizer. Estamos nos divertindo igual, mas com mais profundidade.

Ah, e quanto à minha lápide, talvez hoje eu colocasse “Só não muda de opinião quem está comendo grama pela raiz. Aproveite enquanto não chega sua vez.”

Isso até eu mudar de ideia, de novo. Claro.

Camila Faus e Fernanda Guerreiro são criadoras do @she____t. Uma plataforma de conteúdo feita para mulheres que acreditam que a idade dos "enta" rima com experimenta.

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