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"É o medo que me faz prosseguir", diz Rei Kawakubo em rara e recente entrevista. Rei Kawakubo está com medo. Mas também com raiva. Não, ela não é brasileira. À frente do icônico império de moda da Comme des Garçons, a japonesa Rei Kawakubo só não é considerada um oráculo porque não fala. Por meio de suas roupas, porém, vem orientando o mundo desde os anos 1980. Ainda que de forma silenciosa, suas sistemáticas revoluções nos definem há temporadas e temporadas. Quando o próprio conceito de temporada nem diferença faz mais.

Escrevo sobre a Comme des Garçons para não ter que falar das mais de 300 mil pessoas mortas no Brasil de Covid-19. Paro de ler obsessivamente sobre a pandemia e vou ver o que mostrou Rei Kawakubo em Tokyo, pela primeira vez, desde que saiu de sua cidade natal, neste artigo da Another Magazine. Tento interromper a batedeira no meu peito para me concentrar nas fotos da coleção nova, divulgada agora no fim de março, enquanto escrevia esta coluna. Não por acaso (um lance de dados jamais abolirá o acaso, previu Mallarmé), em suas notas de release Rei Kawakubo fala de seu impulso para bloquear o excesso de informações a que somos submetidos. Fala de romper com a monocromia (o branco e o preto característicos da CDG aparecem aqui em propostas bicolores), em silhuetas vitorianas e eduardianas, em seus volumes poéticos e a aura etérea das imagens, algo fantasmagórica. Seriam as modelas anjos? A morte? Um sonho?

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"Ninguém durma, ninguém durma", canta Calaf para a princesa Turandot no último ato da ópera do mesmo nome, de Puccini. "Nessun dorma" é uma das árias mais lindas deste gênero musical dramático, intenso. Nem a princesa deve dormir, segue Calaf. Todos devem permanecer acordados. Ouça, enquanto (e se ainda) estiver lendo este texto.

Desfile de ver\u00e3o 2021 da Comme des G Comme des Garçons, verão 2021.Foto Cortesia | Comme des Garçons

Desfile de ver\u00e3o 2021 da Comme des Gar\u00e7ons.

E fiquemos, então, alertas.

A insônia é senhora. Dormir, bênção das deusas. Nos sonhos, viajo para cidades que já fui (ou não) e ambientes pelos quais já circulei (ou não). Numa espécie de tobogã biruta sobre uma enxurrada/tsunami cataclísmico, desço uma alameda num barco imenso, maior que a rua. Numa festa hype, modelos orientais ultra modernas de franjinha exibem unhas ornamentadas, um entra-e-sai de salas e de pessoas. Com folhas de louro nas fronhas dos travesseiros, sonho também com o mar.

"O cérebro humano sempre busca harmonia e lógica. Quando a harmonia é negada, não há lógica", prossegue Rei Kawakubo no release de março. "Quando há dissonância, um poderoso momento se cria, que pode nos levar a sentir uma agitação interior e uma tensão. Que pode levar a uma mudança positiva e à evolução." Conto com isso e persisto em meditar diariamente. Confiando que a neurociência me capacite para conseguir enfrentar esses tempos. Em minha busca por simetria, ordem, organização, tento controlar o que posso. E, na respiração, aceitar o que não posso controlar. Nada de positivismo tóxico, só tentando entender mesmo a ideia de "dissonância" vinda da mulher que criou o conceito de "beautiful chaos" para suas lojas da rede Dover Street Market. "Estou interessada em dissonância porque acredito que coisas boas podem vir daí, algo curioso, inesperado, algo que seja novo e que possa nos levar para o próximo passo."

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Comme des Garçons, inverno 2021.Foto Cortesia | Comme des Garçons.

Procuro inspiração.

"I have a dream, I have a dream", brada, bem-humorado, o senhor que vende frutas na feira que costumo ir aos sábados, programa favorito dos últimos meses da 40tena. Ele fala em francês também, cumprimentando com doçura as clientes e oferecendo seus produtos. Sem poder tirar a máscara para provar a melancia, compro figos e caquis, em ato extremo de extrema autoindulgência. A dissonância me desperta do torpor e do gesto repetitivo do jato de álcool em gel. Merci, agradeço com um sorriso nos olhos. E sigo em frente.

"Atravessar a Grande Noite sem Acender a Luz" é o nome do trabalho que a artista Jota Mombaça realizou a partir do convite do CCSP para a participação da instituição na 36a Bienal de São Paulo. Com suporte curatorial de Hélio Menezes, trata-se de uma obra em processo, acerca do direito à obscuridade, do fim do mundo como o conhecemos e da recusa dos paradigmas da luz e da visibilidade como mediadores do bem-viver, conforme explica a própria artista no documento sobre o trabalho. É impactante.

"Fim" é justamente o sofisticado primeiro capítulo deste projeto, que se desenvolve em diversas etapas até o fim de 2021, toma como pontos de partida "a poética feminista de Denise Ferreira da Silva, os exercícios de ficção de Octavia Butler e a noção de tempo espiralar articulada por Leda Maria Martins". Jota Mombaça nos sugere que o fim está próximo. O apocalipse está em curso. Há, entretanto, esperança. E inspiração. O fim tem que ser, há de ser, o começo.

Detalhe de instalação de Castiel Vitorino Brasileiro.Foto: Divulgação

Em "Nada Aqui se Acaba", Castiel Vitorino Brasileiro, também no CCSP, pergunta: "qual concentração de liberdade, medo, coragem, cansaço constitui minha vida nesta encarnação? E como consigo transfigurar, metamorfosear, criar um outro caminho, ou seja, outra mistura?". "A encruzilhada é um acontecimento, uma experiência que anuncia o fim como o começo de algo", prossegue a artista, citando Exu, senhor dos caminhos. Laroyê.

Sem conseguir ler nada há meses, nesses lugares busco energia para me tirar da inércia. Do noticiário da necropolítica, arranco forças para romper com o ciclo de melancolia a que ele nos acomete. "Com a pandemia inteferindo nas nossas vidas, o espírito de avançar também está diminuindo. E isso pode ser uma desculpa para que a gente não se desafie, alcançando objetivos maiores e criando coisas novas, correndo riscos para se mover adiante", ameaça a estilista japonesa.

Definitivamente, Rei Kawakubo não mora no Brasil.



Colunista tenta vencer os clichês (e a timidez) para escrever sobre a importância do ídolo Caetano Veloso para o Brasil durante a pandemia.

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