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Fico feliz que essa seja minha primeira carta-resposta para um leitor. Sua mensagem, sobre minha coluna anterior, trouxe muitas reflexões e, melhor, uma sensação de companhia. Depois de 20 anos escrevendo pode parecer bobagem dizer isso, mas, acredite, Lulu, nunca tenho certeza.

Nada me interessa mais do que falar de amor. Não de um jeito falsamente otimista ou muito romântico, mas trazendo tanto os problemas quanto a beleza. Daí minha alegria com a sua questão. Há quem prefira outros temas, mas eu não. Vou tentar explicar o porquê, enquanto passamos pelos pontos que levantamos em nossa breve conversa por áudio, tão amigável e sincera. Agradeço a você pela abertura e pela confiança, de modo que não vou expor aqui detalhes do seu relato, mas relacioná-los com as questões que ele propõe.

Começando por bell hooks e suas tantas provocações. Você gosta quando ela diz que nossas presepadas estão muito ligadas ao que entendemos sobre essa palavra, amor. Ela é usada demais, está gasta e vilipendiada. Mas é daquelas causas perdidas que vale a pena abraçar, ao menos é o que penso. Me parece que essa palavra é capaz de se defender de uma maneira muito impressionante, que quanto mais tentam colar a ela os piores e mais violentos conteúdos, mais ela se esforça nas bocas no sentido de mostrar seu potencial radical, de estabelecer relações sem se deixar aprisionar por um sentido.

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Esses dias li que é preferível respeito a amor. Não sei se é questão de escolha, mas acho que há uma reflexão importante aí. Respeito no sentido de reconhecer não só a existência do outro, mas seu pleno direito de existir. Daí poderia supor que, sim, há respeito sem amor, o que sem dúvida já é grande coisa, da maior importância. Mas não há amor sem respeito, o que é possível afirmar mesmo com toda a indefinição que faz do amor o que penso que ele talvez possa ser: uma espécie de campo de força cujos limites não são amarras, mas instrumentos de uma certa luta, movimento da vida em sua face mais indomável.

Mas volto um pouco e levanto uma dúvida. Isso que nos faz respeitar o outro, reconhecê-lo como sujeito de sua vida, como alguém autorizado a viver e a ter sua trajetória respeitada tanto quanto qualquer um, de onde vem? Da educação, da cultura, da lei certamente. Mas a partir de quê? Será que não existe aí um dedo dessa força do amor? Não no sentido cristão e altamente problemático do ama teu próximo como a ti mesmo, coisa que não funciona nem dentro das igrejas, como temos cansado de ver.

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Penso num sentido talvez mais egoísta. Respeita teu próximo para que você possa viver mais dignamente, além de amar e ser amado. Se não há amor sem respeito, só posso amar quem eu respeito e me respeita. O que, dentro das relações sociais, estabeleceria logo de cara uma série de muros, impossibilidades e exclusões. Não falo do respeito da boca pra fora apenas, mas de atitudes. Se eu só respeito quem julgo igual ou parecido comigo (o que nas dinâmicas sociais passa sempre por raça, classe e gênero), não estaríamos vivendo, ao menos como regra, uma espécie de amor supremacista ou ao menos extremamente limitado?

Não me parece difícil comprovar essa tese, basta olhar em volta. O que não me impede de observar que o amor é foda, que vira e mexe escapa e faz o que não deve, ri da regra.

Observar e viver isso, essa rebelião, pra mim é das coisas mais linda desse mundo. Há notícias dela no meu consultório, em tantas casas, nas histórias que chegam de perto e de longe. Notícias que não precisam conter a palavra amor porque estão cheias da palavra do amor. O amor pode se infiltrar em tanto, ele pega as palavras pela mão e sai rodando, faz coisas doidas com elas. Quando ele está presente em um "eu te amo" até o som é diferente. Quando não está, a mesma frase pode soar como, sei lá, "obrigada, aguarde o seu comprovante".

Por isso mesmo o discurso de ódio se baseia tanto na repetição mortífera, estática e incessante das mesmas frases e ideias. É uma tentativa de secar o terreno, de sufocar a escrita e automatizar a fala, destruir os tons, despoetizar e pasteurizar tudo o que der. Serial killers da linguagem.

Você comenta das dificuldades para pessoas gays. Da situação cruel para pessoas trans, para travestis. Diz que para muitas dessas pessoas o que seria amor vem sempre muito cercado de sofrimento, de segredo que exclui, de uma série de abusos. Acrescenta que para muitas mulheres cis da sua família a situação é ruim. Penso no que as mulheres negras falam desses problemas, relatando muita tristeza, solidão, preterimento. Mesmo os homens, milhões deles, passam muito mal nesse sentido, embora de maneira diferente.

Há muita violência e, como lembra hooks, uma identificação entre amor e dor. Amor e destruição, morte, são de fato forças que coexistem, talvez até como faces de uma só moeda, mas não são a mesma coisa.

Dentro desse contexto específico do amor enquanto sinônimo de grande dor, você lança uma frase da cantora Linn da Quebrada sobre a necessidade de matar o amor, de destruí-lo. Você se preocupa com a presença desse desejo em você, como ele ecoa. Mas, em seguida, fala e procura alternativas. Me parece, como te disse, muito justa questão levantada pela Linn. Sabe, se é esse martírio que chamam de amor, isso não queremos, que se exploda. Mas penso que isso que agride, mata, submete não é amor. Mais do que cilada, diria que é algo diretamente ligado a nossa história coletiva e a nossos modelos de sucesso e poder.

O homem branco hétero padrão capitalista, o rico, nasce como herdeiro do mundo e é criado para ser um poço de ódio, uma metralhadora de espermatozoides e hostilidade movida a dinheiro. É criado para lutar pela estrutura do Capital, inclusive contra si mesmo, pra não ser ninguém de muito seu, pra se encaixar na forma do patrão. Como prêmio tem o prazer da exploração de corpos, dos corpos mais ou menos descartáveis, de todo modo menos descartáveis que o dele. Os que ousam se engraçar para os lados do amor sofrem represálias. A reprodução, nesse sentido, é antes de tudo reprodução da violência.

A violência da propriedade está no fundamento do estupro sistemático, o que se verifica nos dados históricos de origem e crescimento de nossa população e também, por exemplo, no número alarmante de estupro de crianças, abusadas em sua maioria por familiares e agregados da família. O estupro no Brasil é majoritariamente familiar e pedófilo. No discurso corrente, porém, família e criança estão sempre presentes como destinatários do "amor". Assim como os cemitérios estão cheios de esposas exemplares assassinadas pelos maridos, ex e "amantes". Assim como as ruas estão cheias de trabalhadores abandonados à míngua depois de décadas de correria.

Perceba, Lulu, como esse jogo sujo se faz ver tão obviamente hoje e como está presente de diferentes maneiras. Um governo que prega abstinência enquanto defende torturadores-estupradores, enquanto quer obrigar uma criança de dez anos violentada a ter o filho de seu estuprador. A pastora moralista envolvida em orgias com filhos adotivos e assassinato. Isso pra não falar dos outros formatos dessa mesma lógica: bois onde antes havia um ecossistema rico e complexo; monocultura tóxica onde poderia haver variedade; superconcentração de renda onde deveria haver distribuição. Tudo caixão, tudo morte.

O sexo é igualmente colonizado e avaliado por performance como uma equipe de telemarketing. A doutrinação começa cedo, como diria o ser grotesco que temos o imenso pesar de chamar de presidente. As meninas devem servir, os meninos devem avançar sobre músculos e ossos. Os corpos dominados devem estar sempre sob olhares de reprovação, devem ser fonte de vergonha, vergonha que pode ser mais ou menos amenizada via consumo e padronização. Via mais e mais submissão. O prazer é amordaçado, os orgasmos são burocráticos. Até mesmo a modernização dos formatos é no sentido de criar novos padrões de aceitável quando a pressão aumenta.

Em uma de suas releituras de Jacques Lacan e Hegel, o filósofo e psicanalista Slavoj Zizek diz que os relacionamentos do tipo cristalizado pela cultura dominante, ou seja, a cultura ocidental, cristã, patriarcal e colonialista, são uma espécie de túmulo do amor. É pra onde boa parte de nós corre quando confrontados com a radicalidade da experiência amorosa. Lá buscamos certezas, assinamos papéis e, muitas vezes, registramos em cartório a certidão de óbito do amor, cutucamos pra ver se foi embora mesmo, nos afastando do risco.

O amor pode sim existir e resistir aos relacionamentos e o faz, mas a forma como o colonialismo foi transformando amor em sinônimo de certos relacionamentos nada mais é do que corrente, grilhão. O casamento, a família dita tradicional etc, o amor não depende disso e, como pontuei, é muito frequentemente sufocado pelas regras de conduta exigidas, pelos moldes e, sobretudo, pelo que tudo isso implica no sentido de relações de poder e propriedade. O homem branco como instituição é o dono desse farrapo que, de forma deplorável, chamam de amor. O homem branco do Capital, o homem branco empresa. Ele é dono, CEO, patrão. O homem branco rico hétero está no topo dessa cadeia, o macho alfa. Pobres, mulheres, homens e mulheres negros, homens e mulheres trans, não-binários, todos existem para servi-lo. Esse modelo tem o hétero como padrão de vida sexual, mesmo que apenas como avatar. Embora seja uma construção que nada tem de natural, ela funciona como controle social, destrói e mata igual.

O capitalismo também não gosta do amor, porque o amor exige períodos longos de improdutividade, especialmente em fases de paixão intensa. Não sei você, mas eu não consigo fazer nada nessas horas. Nesses períodos ele cria coisas maravilhosas, mas não está muito a fim de trabalhar. Eu faço samba e amor até mais tarde, sabe, esses lances.

O capitalismo não gosta do amor porque ele recria as relações independente de qualquer rótulo de relacionamento. Ele é capaz disso. Daí o grande empenho da cultura colonial de impedi-lo, de criar barricadas de violência pra que ele não passe. A desumanização do outro entra aí como arma, a criação da categoria de resto. Isso foi construído a partir do trabalho de séculos de escravidão e outros séculos de racismo em suas muitas faces. O que se coliga e ramifica por meio da exclusão econômica e de gênero. Como alguém pode entrar numa relação amorosa ocupando o lugar de resto desumanizado? Não dá.

Mas dentro da relação amorosa, que não precisa ser sexual nem romântica, mas pode sê-lo também, é possível delimitar o lugar de respeito ao outro, lugar onde ele pode existir como sujeito, como alguém que importa. Isso é bem diferente do fetiche e da pornografia padrão.

E quando contra tudo e contra todos o amor constrói relações amorosas e sexuais fora dos roteiros mais aceitos, algumas delas bastante duradouras, os rebeldes envolvidos vivem sob constante bombardeio, ataque que não raro começa nos núcleos familiares.

Mas o amor tá aí, acontecendo, lutando. O amor está por explodir, sua força está só no começo, dela só vimos o broto. Imagine só se houvesse uma mudança radical nas questões de raça, gênero e classe. Quantas pessoas não deixaram de se conhecer porque a pobreza exclui. Quantas pessoas não deixaram de se relacionar por conta de uma estrutura racista. Quantos amores bonitos foram esmagados na largada porque está decretado que pessoas trans não são dignas de carinho e envolvimento. Dá pra ir longe nesse pensamento. Vontade de mudar o mundo.

O amor, acredito, não combina muito com mar de rosas. Ele mexe nas certezas, traz a intensidade das paixões, intensidade linda da dúvida, do desconhecido, da vontade de encontrar o outro nas palavras, no pensamento, nas redes, no corpo a corpo. Encontro sem certezas prontas, com tudo por acontecer.

Isso angustia mas se pensarmos que a angústia não é o diabo do qual devemos correr, de que ela traz a voz de conflitos que podem ser muito ricos, a coisa muda. Se assumirmos nossas faltas, inseguranças, nossos ridículos, poxa, pode ser um caminho. Não é uma relação entre fornecedor e consumidor, não é pra bater meta, é pra ter delícia, tranquilidade, babado e confusão. É pra ter diferenças e encontro, encontro nas diferenças.

O amor quer acontecer, é uma força, se a gente dá corda ele surpreende. No contexto de uma relação entre duas pessoas apaixonadas a gente pode dizer e imaginar tudo dele, o que é diferente de querer que ele se encaixe nos nossos pensamentos, no nosso tempo. Exige dedicação, flexibilidade e abertura.

O amor é necessário à vida como respirar, penso eu. Nem todos vão querer um relacionamento amoroso num certo sentido, mas há muito mais em jogo nessa história. O amor nos delimita como pessoas, precisa estar presente na nossa chegada, nos nossos primeiros anos. Isso é fato. Alguém precisa ter nos cuidado com os olhos, a voz e as mãos do amor. A coletividade precisa nos receber.

O amor está na presença e também nas separações saudáveis e necessárias, nos cortes que constróem nossa história. Está na nossa responsabilidade com o outro e com a gente mesmo, no esforço implicado pra nos livrarmos de repetições que só trazem sofrimento.

Acho que todo amor é à primeira vista. O olhar do amor é a novidade, mesmo que a pessoa estivesse na nossa cara durante anos. O amor muda a perspectiva, é como ver e viver tudo pela primeira vez. Se dá bem com a conversa, com o sonho, com o sexo, com o corpo, com a diversidade que é a base da vida.

O amor num relacionamento pode se reinventar mesmo no pós-paixão, pode inclusive criar novas paixões internas ao mesmo vínculo, mas exige envolvimento. Permite treta mas não abre mão do respeito, dos acordos em movimento, do vento na cara.

Traz também uma outra concepção do prazer que, como diz Audre Lorde em "Os Usos do Erótico", não é instrumental nem opressora, especialmente para as mulheres. "Outra forma importante pela qual o erótico opera é ampliando franca e corajosamente a minha capacidade de gozar. Assim meu corpo se expande com a música, se dilatando em relação a ela, escutando seus ritmos profundos, tudo aquilo que eu sinto também se dilata à experiência eroticamente satisfatória, seja dançando, construindo uma estante de livro, escrevendo um poema, examinando uma ideia. Essa autoconexão compartilhada é um indicador do gozo que me sei capaz de sentir, um lembrete da minha capacidade de sentimento. E essa sabedoria profunda e insubstituível da minha capacidade de gozo me põe frente à demanda de que eu viva a vida toda sabendo que essa satisfação é possível e não precisa ser chamada de casamento, nem de Deus, nem de vida após a morte". Olha essa Audre, minha gente.

Esse gozo erótico, palavra que vem de Eros, não precisa inclusive ser chamado de amor, embora vigore, cresça e frutifique de forma maravilhosa quando a ideia de amor vigente não é essa do ranço, da propriedade colonial. Tem algo de muito divertido sobre o amor, desconfio que ele ganha força com risadas. Tão bonito, Lulu.

De toda a nossa conversa no terreno improvável do Instagram o que mais gostei foi quando você disse que, apesar das experiências recentes, não muito boas, meu texto parecia oferecer uma chance ao amor. Saiba da minha alegria de ler isso. E entenda que minha militância nesse sentido não é algo apenas teórico, mas política e apaixonadamente vivido.

Penso nos amores que estão surgindo e desafiando todo tipo de match pré-fabricado, mesmo com muitos trancados em casa, mesmo com encontros mediados por telas, mesmo com o mundo dos fascismos e do capitalismo de morte fazendo de tudo contra. Me dá vontade de gritar de satisfação.

Que assim que possível a gente leve o amor pras ruas desafinando o coro dos monótonos, dos que querem a linha mais curta, triste e escravizada entre o nascimento e a morte. Amor político, tipo aquele meme que propõe juntar tesão e luta. A gente pode tanta coisa, não somos círculos perfeitos nem linha reta, somos da curva, das espirais, dos nós, já diziam os corpos dançando, os desenhos dos rios e até a topologia lacaniana.

Sou a favor dos mecanismos que promovem todas as formas de igualdade social enquanto também liberam os seres humanos para construir, descobrir e viver suas subjetividades com alguma poesia.

Penso que, se eu me levanto todos os dias, é sempre por motivos diferentes. E é sempre por amor.


Um beijo,

V.

Vivian Whiteman, jornalista e psicanalista, é editora especial da ELLE e escreve sobre moda, sociedade e comportamento.

Ilustração: Marcela Scheid



Sobre o documentário Axé, hits de Carnaval e a necessidade de plantar amor.

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