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Colunistas

Pro mundo ouvir

Sobre escutas e paredes sem ouvidos.

Ilustração: Mariana Baptista
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Escutar é um aprendizado sem fim. Mas, penso eu, antes de tudo, uma decisão radical. Minha experiência pessoal diz que não é coisa fácil, muito menos automática. Mesmo nas situações mais corriqueiras requer uma mudança de ritmo, de lugar e de presença

A escuta está em alta, ao menos nos canais de mídia é mais receitada do que aspirina, remédio para muitos males, pratique, procure, escute. Mas é tanta ordem, é tanto barulho, tanto bolinho, quem consegue ouvir com uma gritaria dessas. Não que não dê pra ouvir nada num grito, tem coisas, acho eu, que só podem mesmo ser ditas assim. Também não digo que ouvir exija um ambiente daqueles meio hospitalares ou um retiro muito zen. Não é esse tipo de silêncio que garante nada.

Mas, então, do que eu tô falando? Talvez de um pouco de calma, um breque, um break, um recuo. Estamos tão cheio de soluções, tão cheios de respostas, como é que alguém escuta assim, com a resolução na mão feito uma pedra. A gente não deixa de saber das nossas coisas pra ouvir alguém ou até nós mesmos. Mas precisa, sim, deixar tudo um pouco de lado, esquecer um pouco de tudo, decretar um certo estado suave de suspensão.

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Escutar não pode vir assim com tanta autoridade, com tanta certeza de tudo. Às vezes um amigo chega perto, às vezes com dificuldade, e tudo o que a gente quer é resolver. Resolver a treta dele, estamos dispostos, estamos prontos pra começar. Mas às vezes não é nada disso. Às vezes é mais difícil do que resolver, nem tudo está aí pronto pra ser resolvido. Às vezes se trata de abrir um espaço pro problema existir. Pra ele botar os pés no chão. O problema às vezes é feio, gosmento, desagradável, horrendo mesmo, às vezes é isso, o problema é horrendo. E quando a gente ouve de verdade não é que ele passe a ser nosso, mas ele existe um pouco com a gente, ele passa a existir na nossa escuta, onde a gente pôde estar ali e compartilhar essa dificuldade, talvez essa dor que a pessoa sente por aquilo estar acontecendo, ter acontecido, poder vir a acontecer, depende.

E, uma vez que isso bate na gente, às vezes vem junto uma angústia. De desver, desescutar. De resolver pra ver se some. Só que nem sempre é o caso. A escuta tem algo de seriamente solidário. É uma mão que solta, sim, mas que mesmo separada fica ali levando um pouco do fato de aquilo ter sido dito. Não ao vento, mas para alguém.

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Para quem ouve profissionalmente há muitas questões, algumas delas técnicas, que variam conforme as especificidades. Há sem dúvida diferentes exigências em diferentes profissões.

Como jornalista, aprendi a ouvir com meu corpo inteiro. Uma vez, no meu primeiro emprego, fui até um bairro alagado. A gente andava com um barquinho, tipo uma canoa, era uma enchente feia. Muita gente com água na cintura. Os moradores falavam sobre obras, sobre ratos, coisas entupidas, móveis perdidos, gente sem casa, mutirão de limpeza.

Aquelas coisas que a gente vê com aquela voz pasteurizada de tantos repórteres de TV, isso quando vê. Mais uma enchente. Nenhuma enchente é mais uma, toda enchente é única, uma perda única, uma violência única, mesmo que repetida mil vezes. O corpo das pessoas se faz ouvir, às vezes elas não dizem nada, só ficam olhando vazio, fazendo listas, olhando pedaços de coisas. Não dá pra resolver ali. Talvez dê pra ajudar um pouco.

Mas ouvir e reportar, as pessoas contam que você faça isso. Parece frio, seria mais bonito chorar, se emocionar, mas nem tudo é sobre a gente. Sem sensacionalismo, sem o realismo inútil que muitas vezes só destaca um estilo sádico do autor, os pormenores da miséria. Brigar por espaço, por uma escrita sensível, por informações boas, pela fidelidade às vozes que não é da ordem apenas de uma literalidade, de escrever exatamente o que foi dito. Sensibilidade é uma coisa séria, tem muita insensibilidade que se esconde em lágrima, em frases dramáticas de efeito, em indignação de ocasião...

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Na época eu certamente não fui capaz de fazer nada muito bom, mas entendi que precisava. Talvez porque uma das moradoras, uma mulher mais velha, tenha sentado comigo numa sarjeta depois do limite seco e tenha me contado as coisas com um certo fluxo. Não por nada muito especial ou sentimental, mas porque eu estava ali e ela precisava que eu estivesse esperta. Era só um jornal de bairro, mas era o único jornal que estava ali, um que levaria o caso à Prefeitura, à Defesa Civil. Os veículos maiores têm uma régua bem específica para o que vale sua atenção. Não é nada bonito, nada sensível, nada solidário, isso posso dizer com folga.

Hoje escuto em diferentes contextos, cada um com suas exigências, suas condições, lugares próprios. Mas, mesmo levando com muita responsabilidade as diferenças, penso que cada um que escuta escuta com a vida inteira, acredito muito nisso.

E, se isso é verdade, é bom levar em conta certas coisas. Pra não jogar tudo o que a gente viveu em cima do outro, mesmo que isso esteja bem organizado e envernizado no formato de um lindo saber, de uma belíssima intenção. A gente ouve com o que é, com o que sabe, mas escuta com o que não sabe, com o que não é. As duas coisas numa relação especial. Será? Sigo estudando isso, mas dessa altura do processo, acho que sim, que é por aí que a coisa se dá.

Às vezes algum amigo, date, amor de longa data, paixão inconfessa, colega, parça, familiar, não importa, às vezes a pessoa chama a gente e simplesmente não quer falar. A gente se irrita, quer saber, quer resolver, quer consertar. Mas a pessoa só quer a companhia pro silêncio. Ninguém contesta a ideia de se juntar pra rir, comer, ir à praia, mas se juntar pra chorar ou ficar calado parece estranho. Por quê? Não faz parte da vida igual?

E embora uma escuta profissional seja absolutamente necessária em muitos casos ou apenas potencialmente benéfica em tantos outros, essa modalidade não é nem jamais deve ser a única. Às vezes uma música escuta a gente. A gente se sente ouvido por ela. Eu amo isso, não vivo sem. Às vezes cantar, dançar, transar, falar com amigos, transeuntes, gente perto, gente longe, às vezes olhar paisagens por onde gente passou, às vezes andar com atenção aberta para a cidade, tem muitas formas de escutar e ser escutado. Enriquecer nossas trocas na vida passa por aí.

As redes servem bem pra muita coisa, muita troca, mas o imediatismo que elas alimentam não pode dar o ritmo de corte de tudo, até da nossa respiração, dos nossos movimentos, das palavras que botamos no mundo.

Às vezes as batidas têm um denominador comum que a gente não precisa nem deveria aceitar de cara. Dar uma torcida na espinha do que o mundo anda dizendo como regra pode vir como música pros ouvidos.

Vivian Whiteman, jornalista e psicanalista, é editora especial da ELLE e escreve sobre moda, sociedade e comportamento.

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