Marcela Scheid
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Quem é você,

Às vezes fico meio dark suave ouvindo The The, uma música só. Depois Benzo do Blood Orange no repeat. Ontem já tinha escutado um monte de outras coisas e até dançado, tava inclusive mais esperançosa com tudo, apesar dos idiotas do Leblon e filiais, de todos os drinks no inferno e seus capitães da morte, da ignorância fúnebre.

Galera por aí abrindo bares, tomados, vai saber, pelo cenário paralelo que criaram no pensamento. Resolvem viver nele como se fosse um resort. Se matam por tabela ou chegam, no extremo, a morrer, não parece fazer a menor diferença, talvez esse seja mesmo o objetivo.

Mas alguma coisa além da revolta de tudo tem me acontecido. Parece que tem um negócio rondando. Não tipo um viral ou mais um hype cretino, nem como quando a gente vê uma pessoa qualquer várias vezes em lugares diferentes e acha que é uma espécie de sinal do universo.

Tô falando de uma certa euforia coberta de medo derretido, um negócio que de parecer tão meu acaba dando um susto muito estranho, uma sensação das mais peculiares. Aí a gente sai correndo, roda em círculos sem achar saída, a tendência é procurar um lugar seguro e já manjado.

Mas são 3h, então me abraça, Freud. Sempre é tarde pra deixar pra lá, bora encarar, pega na minha mão.

A gente sabe quando é peixe grande. Tem a ver com morte, tem a ver com amor. Por que passamos tão pouco tempo pensando nesse tipo de coisa é algo que me intriga. Como se tivéssemos sempre e todos os dias algo muito melhor pra fazer. Muita gente prefere queimar as horas com bobagem, e eu também me sinto sugada pelo excesso de quase nada, o que não sai barato. Meu privilégio que faz sobrar o outro, isso não quero, luto pra me livrar. E quero me desamarrar também. O isolamento social talvez acrescente algo importante nessa inquietação. O que me fez lembrar da Gal cantando "não se assuste, pessoa, se eu te disser que a vida é boa".

Talvez o susto seja mesmo esse. Já a maldade e a sobrecarga parecem um tsunami que fica cada vez mais alto, chegam com pouca surpresa. Aí uma pequena alegria, dependendo do estado do sujeito, pode ser de arrepiar. Se for uma grande, então, o coração pode estourar. Essa ideia de amor da cabeça aos pés tem seu impacto.

Entre o gosto e os cem mil réis, a realidade às vezes deixa o corpo se soltar no mundo, mas também pode querer enterrar cabeças na terra. Pode estar coligada a forças violentas, impiedosas, assassinas. Mas também pode falar de possibilidades, de encontros, de vida. Pode chamar o desejo, pode ir deixando tudo sol de verão.

Tem umas semanas que só penso em Ano Novo e Carnaval. A gente fica meio high, acha que qualquer coisa de delicioso pode ser nossa, dá com a cara no chão e finge normalidade, não sabe se ri ou se chora, mas não desiste. Dá-lhe explosão, se o bloco for bom pede passagem pra Exu.

Carnaval contra a carnificina. Aqui tá tendo. Com músicas e passos que fazem a gente lembrar de tudo que pode ser de um jeito diferente. Demorei, mas aprendi que posso querer os brilhos pra mim. Escolho a dedo, admiro mesmo, percebo que alguns já estavam em mim, só que apagados, exaustos. Pergunto se está escrito nas estrelas ou numa novela ruim que secretamente reedito, nela sou tipo a Rute e a Raquel em uma só. Ai, Gloria Pires, socorro.

A gente tem a certeza da quarta-feira de cinzas, mas o que ela pode contra a eternidade da sexta, do sábado, do domingo que vira numa segunda gloriosa de axé.

Sinto como se estivesse me preparando pra uma coisa importante, talvez pra nascer de novo no meu aniversário. E também sei que a preparação é parte dessa coisa, do que ela talvez possa ser. Mexo nas fantasias e também separo umas peças caso precise andar na chuva. Enquanto estou viva,cheia de graça, vou arrumando as coisas, estudo e faço o que me move, tento comer melhor, não machucar meu estômago.

Boto I Want You do Marvin Gaye. Tem umas oito versões dele, escuto duas, mais a da Madonna com o Massive Attack, que bate forte. Antes de dormir, The Sweetest Taboo e Paradise, já não me conformo, quebrei o círculo. Trilhos urbanos, curva aberta, ver estrelas. Tem sufoco demais no mundo. Quero desafogar pulmões, trabalho por isso. A meta é sonhar como quem respira. E mais ainda. Mar, maravilhaê.

Um beijo,
V.

Vivian Whiteman, jornalista e psicanalista, é editora especial da ELLE e escreve sobre moda, sociedade e comportamento.

Ilustração: Marcela Scheid

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Sobre racismo, resistência e dois passarinhos que trazem esperança.


Vivian Whiteman publica quinzenalmente uma sequência de cartas que começa na quarentena e não tem prazo para acabar. Uma correspondência sem destino certo sobre hábitos, modas, sentimentos, notícias e memórias de um tempo em transformação.

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