Colunistas

Um iceberg de exclusões

Programas infantis e humorísticos que alimentam o racismo recreativo são apenas a ponta de um problema que pede ações urgentes para democratizar a mídia.

Ilustração: Giovanna Cianelli
Um iceberg de exclusões
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Ser uma menina da pele preta em Santos nos anos 1980 e 90 foi um desafio diário. Fui iniciada no candomblé aos 8 anos de idade, o que incluiu raspar a cabeça e vestir branco e turbante. Então, é possível imaginar como o ambiente escolar era hostil.

Minha mãe era rígida na educação dos filhos, e frases como “não vou” e “não quero” eram simplesmente impensáveis. “Mulher valente é minha mãe”, cantou João Nogueira, que era presença carimbada na vitrola de casa. Com os dias difíceis, mãe de quatro filhos, com tanto almoço para fazer, roupa para passar e um cigarrinho quieta para fumar, não tinha tempo para ligar para o que estávamos assistindo na TV.

Meu pai, estivador do porto de Santos, amava sua biblioteca e exibia seus conhecimentos de cultura geral, orgulhoso de onde aquele menino “nascido numa maloca no Morro da Penha”, como repetia sempre, tinha chegado. Ao mesmo tempo, era enfático com os filhos, como fosse inadmissível que retrocedêssemos no espírito crítico que havia cultivado. Estudo em casa era obrigação e cultivar-se também.

A televisão da sala ficava ligada apenas na TV Cultura. Perdi as contas de quantas vezes, criança, peguei no sono assistindo ao Roda viva no sofá, ou quantas vezes vi meu pai conversando animado com a televisão quando passava o programa Ensaio, com músicos “das antigas”. Para ele, o maior crime que poderia acontecer naquela casa era um filho chegar com nota vermelha. Recuperação significava a maior punição de todas: não viajar nas férias para a casa de nossa avó Antônia, mãe de minha mãe, em Piracicaba.

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O segundo maior crime de todos era a televisão ficar ligada na Globo. Com exceção do futebol, porque não tinha jeito, uma vez que os jogos não passavam em outro canal. Assim como ele, eu torcia loucamente pelo Corinthians e me lembro do quanto ele ficou triste ao assistir, em um documentário, Chico Anysio comentar que negro não “servia” para goleiro, culpando o jogador Barbosa pela derrota para o Uruguai na Copa de 1950.

De um jeito ou de outro, em alguns momentos a televisão ficava no canal. Gosto de pensar que muitas vezes meu pai colocava de propósito para nos mostrar como ele tinha razão na proibição. Nos programas dos Trapalhões, febre naqueles tristes anos da TV, as cenas de racismo contra Antonio Carlos Gomes, o Mussum, um dos maiores sambistas de todos os tempos, eram cotidianas. Racismo explícito em palavras e no retrato daquele homem negro, sempre bêbado e procurando uma forma escusa de se dar bem. Víamos, revoltados, os episódios em que Renato Aragão se referia a ele de formas que jamais seriam admitidas dentro de casa.

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Anos depois, em 2018, Adilson Moreira deu voz à nossa repulsa no livro Racismo Recreativo, que aborda o mecanismo pelo qual o poder branco manifestou ódio racial por meio do humor e entretenimento. Moreira reflete a partir do estereótipo informado no personagem de Mussum, como também em Tião Macalé, Jorge Lafond e Buiú, esses dois últimos, personagens do programa A praça é nossa, do SBT.

Esse segundo crime tinha um agravante: se, além de estar na Globo, a televisão ficasse ligada no Xou da Xuxa. Como escrevo em meu livro Cartas para minha avó:

Quando meu pai não estava em casa, eu cobria o cabelo com uma toalha e brincava de ser paquita. Precisava fazer isso escondida, porque ele nos proibia de assistir Xuxa, dizia que não tinha nada a nos ensinar, que sua influência era maléfica. Também se referia a ela com termos machistas, que prefiro não reproduzir aqui. Hoje eu entendo a preocupação do meu pai, mas vai explicar para uma criança nos anos 1990 que ela não poderia assistir ao programa mais famoso da televisão.

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As paquitas eram loiras nos dizendo que aquele lugar não era para nós. Nos outros canais, não era diferente. Mariane, Angélica e Mara Maravilha. Não existiam apresentadoras negras de programas infantis ou de auditório.

Falando neles, era muito comum assistir a mulheres seminuas em pleno domingo à tarde no Programa do Gugu. Bandas ficaram famosas com músicas de duplo sentido. Eu e minhas amigas ensaiávamos todas as coreografias do “É o tchan”. Aos 15, 16 anos, não entendíamos muito bem o que significava colocar a mão na barriga no trecho “depois de nove meses você vê o resultado”. Tudo era muito naturalizado.

Com isso, não quero também cair na vala comum de culpar indivíduos, mas sim responsabilizar grandes estruturas pelo que o professor Osmar Gaspar, em seu livro Mídias: concessão e exclusão, chama de censura da população negra na comunicação de massa. Gaspar argumenta sobre o fortalecimento econômico sistemático do grupo branco no Brasil, uma vez que esse segue sendo escolhido e representado. Ou seja, para além da violência simbólica que o padrão branco de beleza causa nas populações negras e indígenas, há a violência econômica, pois artistas negros seguem sem emprego e oportunidades, contribuindo para o enriquecimento histórico da população branca, em detrimento do empobrecimento da população negra. Quem é selecionado é fortalecido subjetiva e economicamente. Ainda segundo Gaspar, essa exclusão da população negra precisa ser entendida como uma violência estatal, uma vez que mídias são concessões públicas e deveriam atender aos interesses da população. Para Gaspar, o modo como as mídias agem no Brasil se configura no uso do bem público em favor de grandes empresas.

Todo esse cenário poderia ter sido evitado se de fato existisse compromisso do Estado em zelar pelo que concede. E se, além disso, houvesse projetos políticos corajosos para democratizar as mídias, pois o que temos hoje no Brasil é um monopólio midiático controlado por poucas famílias que não atende aos interesses da população, posto que forjado numa lógica de enriquecimento dessas grandes empresas. Gaspar aponta para o fato de emissoras pertencerem a igrejas evangélicas, por exemplo, e promoverem discurso de ódio contra outras religiões, sobretudo as de matriz africana. Em um Estado laico, isso deveria gritar aos nossos olhos e atitudes deveriam ser tomadas.

Xuxa só é a ponta de um iceberg de exclusões. Hoje temos novos desafios, mas a velha reivindicação da democratização das mídias segue como uma pauta urgente.

Djamila Ribeiro é escritora, mestra em Filosofia Política e coordenadora da Coleção Feminismos Plurais.

Texto publicado originalmente na edição impressa da ELLE, de março de 2022.

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