Ilustração: Marcela Scheid
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Cabeçudos do mundo, uni-vos. O corpo chama. Se eu disser que falamos pouco do corpo vão me chamar de maluca. O que eu sempre tomo como elogio, talvez dos melhores e maiores. Mas é isso, falamos pouco do corpo.
Falamos muito de exercícios, de padrões, de dietas, de harmonizações, mas não sei, o corpo parece misteriosamente ausente de todas elas. Fica ali num cantinho enquanto discursam sobre ele, puxando um pedaço pra cada lado, enchendo tudo de nomes, de fotos, de antes e depois.

Quando falamos especificamente do nosso corpo temos algumas coisas na cabeça, consideramos um certo conjunto de elementos mais ou menos organizados de uma determinada maneira.

Gosto muito de recorrer à psicanalista francesa Françoise Dolto nesse ponto. Ela diferencia conceitualmente esquema corporal e imagem do corpo.

O esquema corporal é esse que nos une basicamente como espécie, mesmo que a alguns ocorra de ter nascido com alguma deficiência. Esse esquema não é todo ele consciente, mas o é também. Sabemos coisas sobre nossa anatomia, temos notícias desse corpo pelo que chega dos nossos sentidos etc.

Já a imagem corporal é sobretudo inconsciente. Como diz Dolto, está ligada à história de cada sujeito e depende de relações da libido. Ela afirma que essa imagem é mesmo uma "síntese" de nossas experiências emocionais e que tem a ver com o desejo, no sentido psicanalítico do termo. Essa imagem envolve aspectos do esquema corporal, mas é outro lance, bem mais complexo. Por exemplo, um cego de nascença, embora jamais tenha visto um corpo, não tenha o registro visual do que é ter cabelo loiro, apreende com seus recursos o esquema corporal e também cria uma imagem corporal constituída. A palavra e a linguagem estão presentes nesses processos.

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Não é pouca coisa essa história, vai longe, enfim, muitas conversas possíveis a partir disso. Vou fazer meu recorte.

Nossos corpos, quando somos bebês, passam por poucas e boas. Nascer não é bolinho. Cortar o cordão, se entender alguém separado do ser que nos gerou. A boca que ganha e perde o seio, a mamadeira, a chupeta, o paninho, o toddynho, o chiclete, o cigarro. Nosso corpo carrega um cemitério simbólico de separações. E esses cortes deixam marca, mexem com muita coisa, inclusive nos contornos dessa imagem da qual fala Dolto. Parece fácil até aqui, então vou complicar. Uma criança tetraplégica, que possa ser acolhida em sua subjetividade em casa e no convívio social, pode ter uma imagem corporal mais saudável, desenvolta e vivaz que uma criança sem nenhuma limitação de movimentos, que tenha passado por uma certa situação traumática de abandono, por exemplo. As variações são muitas, tantas quanto há pessoas e histórias. Não deixará marca uma violência intensa, seja física ou psíquica? Um ódio nunca dito. Uma herança de descaso. Fome, frio, miséria. Desrespeito extremo, abuso, dependência. Silêncio indiferente. Não deixará marca o amor sentido mesmo antes do berço? Uma alegria diante da mais pequena autonomia, uma boa surpresa. Um sorriso, casa, colo, comida. Aconchego, respeito, parceria. Voz de cuidado. Crescemos e por uma série de questões reconhecemos nas nossas fotos de infância a criança que fomos como parte de quem somos agora, de quem temos sido e nos tornado. Encontramos alguma continuidade feita de genes, de ossos, mas também de histórias, de memórias. E nenhum de nós há de contestar a ideia de que enfrentamos e, com sorte, curtimos essa jornada em um único corpo, embora o bebezinho de colo talvez lembre pouco em suas dimensões e feições a senhora de 90 anos. Há essa imagem de um corpo capaz da vida que segue com a gente. Em termos muito gerais, existe uma questão de continuidade em jogo nesse contexto. Não é preciso cortar um dedo pra mutilar alguém. O inconsciente nos fala disso. E também nos fala de gerações de corpos literalmente mutilados que reverberam como dor psíquica e sofrimentos variados em novas gerações que não passaram por isso. A imagem do corpo nos ronda como espectro e como fantasma. Isso fala como pode, acha suas brechas. Crianças desenham, modelam e, quando possível, articulam também em palavras as violências despejadas e incorporadas nessa imagem corporal, encarnação simbólica. Ela está nos consultórios, mas também na arte, nos quadros, na música, na dança, está em algumas formas de literatura. Está nas camas, chãos, pias de banheiro, motéis e becos escuros, onde quer que as pessoas decidam transar. A experiência da sexualidade pode ser libertadora e curativa, benéfica a essa imagem inconsciente do corpo. Também pode ser repetitiva, presa, opressiva e reforçadora de padrões nocivos, dolorosos, incapacitantes. Durante anos separei cartas a um médico que respondia dúvidas de leitores de jornal. A pergunta campeã absoluta era: como aumentar meu pau? A ponto de às vezes naquela semana não haver nada além daquela questão nos envelopes. Será que tamanha obsessão fixada culturalmente não afeta o que imaginamos de nossos corpos? Certamente. Assim como a noia dos seios redondos, do bumbum na nuca e outras trends de momento. Isso, no entanto, não afeta todas as pessoas da mesma maneira. Mas às vezes me pergunto se a padronização cada vez mais intensa não é um projeto de violência contra essa imagem corporal no sentido de mutilá-la em massa dentro de um contexto social cada vez mais limitante, de uma tentativa sistemática de moldar famílias, infâncias, escolas, experiências religiosas, atividades e descobertas sexuais, de tornar a história de cada sujeito cada vez menos aberta a qualquer coisa que se pareça com a diversidade da vida. Que tipo de patologia do sujeito e da sociedade isso já produziu ou pode ainda produzir são coisas sobre as quais me pergunto cada vez mais. Não é só por isso, mas é por isso também que tenho falado tanto de amor. O amor fala alto no corpo, na imagem do corpo, e é capaz de coisas surpreendentes naquilo que, talvez com alguma ajuda, somos capazes de fazer de nós mesmos. Já usei muito o nome do amor em vão, quem nunca. Mas se me ouvirem falando disso por aí hoje em dia saibam que é com a força de tudo que acredito, saibam que é pelo que tenho feito, vivido, saibam que é pela verdade do que me move.

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Poderia dizer que é o amor como política de vida, e também é. Muito importante ressaltar esse aspecto. Mas gostaria de falar do amor como força, como possibilidade de transformação.

Toda vez que eu falo amor muita gente pensa em moral, casamento, formatos de relacionamento. Sim, pode ter a ver, mas isso vem, ou melhor, pode vir depois.

Acho graça quando alguém fala, se achando altos moderno, "ain mas pode ter sexo sem amor". Pode quase tudo, não é essa minha questão. Proponho deixar o moralismo de lado em favor da afirmação bem mais radical de que o amor deixa marcas, contorna e faz presença no que nós somos e fazemos.

Falar de corpo à luz do amor, falar de amor à luz do corpo. O assunto tá só começando, tamo só esquentando.

Vambora.

Um beijo, V.

Vivian Whiteman, jornalista e psicanalista, é editora especial da ELLE e escreve sobre moda, sociedade e comportamento.

Ilustração: Marcela Scheid



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