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Julio Cortázar, o grande escritor argentino, imortalizou uma frase que atribuía a um escritor conterrâneo "muito amigo do boxe". A frase compara o romance ao conto e afirma que o romance é uma luta que se vence por pontos e o conto, por nocaute. No caso de Chico Buarque, esse grande escritor brasileiro muito amigo do futebol, talvez a analogia funcione melhor na comparação entre o futebol de campo e o de salão. Na quadra menor, os dribles têm de ser mais precisos e as jogadas objetivas e certeiras, pois espaço, tempo, tinta, papel e megabytes são mais exíguos.

A comparação é interessante, e podemos aqui nos estender em analogias e paradoxos: Chico é um exímio letrista (talvez o maior entre nossos cancionistas) e sabe exercer com maestria os dribles secos das letras de canção – que se aproximam da urdidura da poesia –, da mesma maneira com que se sai muito bem nos longos jogos com direito a prorrogação e disputa de penâltis que configuram os belos romances que já publicou. Mas tudo isso é pura firula retórica e me sinto aqui como um jogador que está prendendo a bola no meio do campo sem saber direito o que fazer com ela.

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Aprofundemo-nos na questão: a comparação do amigo de Cortázar nada tinha a ver com a reação do leitor. O nocaute ou a vitória por pontos não quer dizer que o leitor cairá desacordado ao ler o conto ou que apenas ouvirá soar o gongo da derrota após inúmeros rounds de exaustiva leitura do romance. A afirmação se refere à técnica de escrever, e o nocaute ou a vitória por pontos falam unicamente da capacidade do escritor em administrar e organizar os próprios demônios literários, semânticos e ortográficos.

Foto: Divulgação

Voltemos momentaneamente à retórica e à firula inconsequente: Bob Dylan foi reverenciado com o Nobel de literatura em 2016 basicamente pela excelência literária de suas canções, pois o trabalho em prosa de Dylan é relativamente escasso e irrelevante. Chico, porém, poderia muito bem ser agraciado com um Nobel não só pelo valor literário de suas canções, mas também pelo mérito inegável de seu brilhante trabalho em prosa, expresso nos vários romances, peças e musicais já publicados e encenados.

E eis que o grande artista, irrequieto e insatisfeito com as glórias passadas, estreia no formato conto com esse pequeno e demolidor Anos de Chumbo.

A contraposição entre o grande artista e o pequeno volume não é ideia minha nem tem intenção sarcástica ou provocadora. Ela emana do próprio Chico, que no mais divertido (e talvez o único em que se permite alguma graça) dos contos de Anos de Chumbo, "O Passaporte", nomeia um personagem como o Grande Artista, e numa óbvia e irônica autorreferência nos mostra o quão pequeno, equivocado e mesquinho pode ser um grande artista.

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Não por acaso, "O Passaporte" e "Para Clarice Lispector, com candura" – que igualmente guarda alguma autorreferência no jovem poeta que se apaixona pela enigmática escritora – são os únicos contos narrados na terceira pessoa, sendo os outros seis narrados por diferentes eus.

Não confundamos a escolha da pessoa narradora com a firula retórica a que me referi parágrafos acima. A decisão de quem será o narrador é um ponto crucial e inaugurador de qualquer trabalho literário. E aqui Chico começa a desfilar as jogadas que nos encantarão ao longo da leitura dessa pequena obra-prima.

Foto: Divulgação/Bob Wolfenson

Não gosto de estragar surpresa (expressão em português que significa "dar spoiler") nem de que me revelem muito de um livro que estou prestes a ler, mas valem algumas informações sobre os contos para que se possa fruir Anos de Chumbo com maior assombro e deleite.

Há três contos narrados por crianças, "Meu tio", "Os primos de Campos" e "Anos de chumbo". Mas nenhum desses narradores tem parentesco com aquele menino narrador evocado pela memória de Chico, que na canção "João e Maria" afirma que "agora eu era o herói e o meu cavalo só falava inglês".

A adolescente que se prostitui com o tio miliciano com a anuência dos pais, o garoto abandonado pelo pai que vivencia as agruras de um primo morto pelo crime e de um irmão que se perde nas drogas, e o menino paralítico filho de um torturador dos anos 1970 que passa o tempo imaginando batalhas com soldadinhos de chumbo são personagens que têm em comum a vivência de grandes terrores sem a exata percepção disso.

"O tom é trágico e revelador do estado atual do país, a ruína se insinua por todas as páginas"

Completam o time os narradores maduros (e nem por isso menos atônitos e dissimulados) de "Cida", "Copacabana" e "O sítio".

O fio que une os contos de Anos de Chumbo é a cidade do Rio de Janeiro, presente de alguma forma em todas as histórias. Em "Copacabana" um Rio mítico e fantasmagórico é sugerido pelas lembranças e divagações de um narrador delirante e nostálgico, em "Cida" um homem acompanha com certo desdém em suas caminhadas diárias pela praia a vida de uma moradora de rua lunática, e em "O sítio" um escritor um tanto abalado pelo isolamento pandêmico se envolve numa estranha história de amor na serra da Mantiqueira.

Percebemos nos contos o rigor que Chico aplica às canções, embora não haja nenhum lirismo em seus textos e em momento algum se note uma velha vitrola tocando o compacto de "A Banda" em algum canto. O tom é trágico e revelador do estado atual do país, a ruína se insinua por todas as páginas.

Uma voz literária rascante e bruta se faz ouvir lá de dentro do intestino dos contos, o coro grave e uníssono dos grandes contistas brasileiros dos anos 1970, a de Rubem Fonseca com mais nitidez, para a satisfação de todos nós, leitores ávidos por alguma trincheira, resposta ou contra-ataque.

Tony Bellotto é escritor, autor de Bellini e a esfinge (1995), adaptado para o cinema, Machu Picchu (2013) e Dom (2020), entre outros livros. É também guitarrista e compositor do Titãs.

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